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17 de julho de 1951. Subia ao trono o rei a quem um garoto roubou a espada

17 de julho de 1951. Subia ao trono o rei a quem um garoto roubou a espada

DR Afonso de Melo 17/07/2018 21:44

Balduíno I, rei dos belgas, viria a ter um reinado com momentos difíceis e um deles até acarretaria a sua abdicação temporária. Em Kinshasa, na véspera da independência do Congo, sofreria uma humilhação apalhaçada

Eis Balduíno rei!

Rei dos Belgas era a expressão utilizada, nada de rei da Bélgica.

O quinto de uma dinastia que já somava 120 anos, iniciada por Leopoldo i em 1831. Leopoldo: trisavô de Balduíno.

Bruxelas engalanou-se. Veio gente de toda a parte para ver o cortejo. Momento íntimo de reconciliação nacional.

Às oito e meia da manhã, uma bateria instalada na Praça do Cinquentenário fez ouvir uma salva de cem tiros. “Acordai, ó belgas, para um novo reinado!”, parecem exclamar a cada tiro.

Bimbalhavam os sinos de todas as igrejas.

Oito mil soldados fizeram a guarda de honra para o novo rei, que às 10h50 se pôs a caminho do parlamento, onde proferiu as mágicas palavras: “Juro cumprir a Constituição e as leis do povo belga, manter a independência e a integridade do território.”

Juramento em francês e em flamengo, claro está, a bem da integridade do território.

Agora sim, completamente rei. Balduíno i. Todo o hemiciclo se ergue numa ovação coletiva. Ouve-se o grito comum: “Viva o rei!” Bem, não assim tão comum: os representantes socialistas abstêm-se de gritar. A monarquia não lhes é querida.

A cerimónia foi funcional, essencialmente prática. Às 11h20 já o novo rei dos belgas está nas ruas. Regressa ao Palácio Real pela Porta Shaerbeek, cruzando as maiores avenidas da cidade e a RuaLambermont. Antigos militares perfilam-se ao longo dos passeios. Estão aprumados com os seus estandartes: da Rua Royale ao Palácio do Congresso. Aí, Balduíno i interrompe a sua marcha para prestar homenagem junto ao túmulo do Soldado Desconhecido. 

O rei Balduíno Alberto Carlos Leopoldo Axel Maria Gustavo nasceu em 7 de setembro de 1930, em Laeken, e ocupou o trono da Bélgica até ao dia da sua morte, a 31 de julho de 1993, em Motril, Espanha. Era filho de Leopoldo iii e de sua primeira mulher, a princesa Astrid, conhecida como o Cisne Sueco. Foi durante o seu reinado que o mito de uma Bélgica colonial, senhora do Congo, conhecido como Congo Belga, Congo Kinshasa, depois Zaire e, finalmente,República Democrática doCongo – um artefacto criado pelo explorador Henry Stanley, que aí constituiu feitorias em nome do rei Leopoldo ii, mais tarde ratificado na Conferência de Berlim, em 1885, atribuindo ao próprio Leopoldo a possessão pessoal do território –, chegou ao fim. No dia 30 de junho de 1960, Patrice Lumumba anunciava a independência do Congo, entretanto transferido da propriedade do rei dos belgas (Leopoldo imortalizou-se pelas tranquibérnias de um colono de pacotilha praticadas sobre os pobres congoleses) para a da Bélgica como nação.
Profundamente católico, Balduíno i, que viria a casar com uma nobre espanhola, Fabíola de Mora y Aragón, abdicaria momentaneamente do trono em 1990 por se ter recusado a assinar a lei de despenalização do aborto – algo que deve ter mexido profundamente com as convicções de quem perdera cinco filhos por abortos espontâneos da mulher durante as gravidezes e morreria sem deixar descendência.

A questão da independência do Congo também pesou muito no reinado do homem que subira ao trono por abdicação de seu pai, Leopoldo iii. 

O discurso que proferiu no dia da libertação da colónia foi classificado de ofensivo, já que nele fazia o elogio espampanante de Leopoldo ii, considerado em África como um carniceiro esclavagista, referindo-se ao seu antepassado como um génio. 

Patrice Lumumba, a figura central do independentismo, respondeu-lhe à letra. Falou, por sua vez, do velho rei dos belgas e descreveu o sofrimento provocado ao seu povo pela loucura de um homem que o sujeitou aos maiores insultos e humilhações.

A tensão entre ambos tornou-se mais sensível do que a afinação da corda de um violino.

Mais tarde, Balduíno viria a ser acusado de saber dos planos para o assassinato de Lumumba, levados a cabo por Moise Tshombe e Joseph Mobutu com o apoio encapotado da CIA e dos serviços secretos belgas. Numa reunião na qual esteve presente o coronel Guy Weber, alta figura do corpo militar da Bélgica, tomou-se a decisão de ”neutralizar Lumumba, fisicamente se for necessário”. Outro militar belga, Gerard Soete, que trabalhou juntamente com os soldados congoleses que mataram Lumumba, foi acusado de ter cortado o corpo deste em pedaços e de os ter dissolvido em ácido.

A façanha de Ambroise Boimbo ficaria como uma caricatura da história da independência do Congo: na véspera da cerimónia, quando Balduíno se deslocava num carro aberto do aeroporto para o centro de Leopoldville, o jovem saltou sobre o rei dos belgas e roubou-lhe a espada. Na rua, o povo ria da facécia.

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