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José Sesinando. Dar a volta às palavras, virar as frases, revolver a literatura

José Sesinando. Dar a volta às palavras, virar as frases, revolver a literatura

Teresa Carvalho 17/07/2018 13:10

Há décadas ausente das livrarias, o autor que arremetia contra a sisuda instituição literária, e ensarilhava cabeças com as suas manobras de diversão linguística, está finalmente de volta. Foi trazido pela mão da Tinta-da-China, que o integrou na colecção de literatura de humor coordenada por Ricardo Araújo Pereira

Sesinando é o outro e verdadeiro nome de José Palla e Carmo (1923-1995). Lembra um silvo de cobra a mudar de pele, mas a imagem não lhe veste. Deixou fama de homem afável e nunca largou nenhuma das suas literárias peles, a “séria” e a humorística. O reputado ensaísta, crítico literário e tradutor e o humorista chegam até a cruzar-se na mesma publicação, para já não dizer que Palla e Carmo teve o privilégio de ser entrevistado por Sesinando no JL, onde este manteve, desde o primeiro número, a célebre coluna “Escrituralismo”. Palla e Carmo, na sua qualidade de crítico literário, retribuiu com um prefaciozinho que acompanha “Obra Ântuma” (1986), de Sesinando, mal escondendo o embaraço que os convívios íntimos podem produzir.

Há décadas ausente das livrarias, o nome de Sesinando dirá pouco aos mais jovens. E de pouco adiantará procurá-lo nas enciclopédias lá de casa, isto a fazer fé numa investigação que, na altura, o terá feito pairar a grande altura sobre as maiores sumidades académicas. Concluiu esse estudo, e com que inatacável rigor, que “na maior parte das enciclopédias faltam os dois últimos volumes, normalmente por o subscritor ter deixado de pagar os fascículos.”

Há no entanto uma história, caída da sua biografia falada, que pode lançar umas luzes sobre esta figura maior do nosso humor literário, o primeiro poeta a fazer uso da revolucionária técnica da gralha tipográfica – daqui ao erro foi uma passada curta que os supostos detractores não lhe perdoaram. O antigo BPA, onde Palla e Carmo exerceu funções de director internacional, recebeu certa vez uma delegação americana, do grupo Rockfeller, que andava a seleccionar instituições para investimentos, coisa de vulto. O seu chefe, familiarizado com a veia humorística de Palla e Carmo, e para acautelar desarranjos, avisou-o de que a hora não era para brincadeiras. Tudo certo, ficasse descansado. O encontro corria à maravilha, quando um dos americanos, fitando-o, lhe perguntou: “Quantas pessoas trabalham no banco?” A resposta, espécie de prólogo do que podemos esperar da sua obra, veio curta e clara: “50%”. Era estímulo a mais para Sesinando, o empurrão propício às suas inclinações.

Dizer que José Sesinando é o nosso único escritor de nonsense é injusto, sobretudo para ele. Ele, que avaliou a moda e a sociedade, que deu cartas na arte de desencorajar entrevistadores, ele, que até escreveu “Acerca de música”. São observações de uma inteligência penetrante que nos deixa de boca aberta: “Beethoven atingiu tamanha e tão súbita notoriedade com a Quinta e a Nona Sinfonia que não teve outro remédio senão compor as outras sete, para preencher lacunas. Há uma certa injustiça ao falar-se no seu Concerto em Lá Menor, porque lá maior era ele, não há dúvida”. Mas há mais: ele, que até redigiu o “Manifesto poemameopático”, a revelar ao mundo da poesia o “poemameop”, espécie de agente terapêutico destinado à hipertrofia da glândula da inspiração. E que falta fazia. Faz.

Culto, talentoso, sagaz, ágil a abalar as estruturas do óbvio, Sesinando era uma muito oleada máquina de produzir divertimento. E um às a exibir erudição, deliberadamente traída por ironias, trocadilhos e sarcasmos, por vezes num tom descontraidamente juvenil. Como se as ideias se lhe acotovelassem, travessas, na carola e um lenço garrido se viesse exibir no pescoço das palavras. E terá batido máximos na exigente arte da acrobacia literária, como indicia um dos seus “Poemas Inexperimentais”: “Beladona pantomina/ besumbava monaginga./ Paixão laica, embirradona;/ na masmorra plamavina/ refragava em pura singa,/ platibunda, rebolona.// Ticabonzo mamarracho /gingadava plo barbante,/ tranglomando o merimau; /ocarelas lasca e macho/ com mamoal salmonante, /tangavam o chocalhau. […]”

O autor de “Poemas com dedicatória” escreveu pouco, divulgou ainda menos mas deixou obra valiosa (até há versos onde entram joías!), agora incompletamente reunida pela Tinta-da-China. “Obra Perfeitamente Incompleta” inclui “Obra Ântuma” (escusa o leitor de ir a correr ao dicionário, trata-se de um neologismo que significa “antes de morrer”), prosa humorística e poesia, e outros dois livros que, artesanalmente editados, nunca tinham chegado às livrarias — “Olha, Daisy” (1985) e “Heteropsicografia” (1985), variações sobre poemas de Fernando Pessoa. São “dois livros extraordinários, sem comparação na posteridade pessoana”, como sublinha Abel Barros Baptista, que assina o prefácio e que com Luísa Costa Gomes organizou esta edição. Note-se que estas variações (50 sobre o “Soneto já antigo” e 65 sobre a “Autopsicografia”) foram escritas numa altura em que a maré de enfado perante a glorificação do poeta dos heterónimos não parava de crescer. Mas elas são mais um exercício irrestrito de liberdade e irreverência que um esforço de levantar uma barreira à inundação pessoana. Tranquilizava, no entanto, saber que um poeta é, entre outras coisas, “um secador”, “um matador”, “um opositor”. 

Num tempo em que um crítico literário mal pode soltar uns fonemas fora das habituais quadrículas do elogio que os autores logo se arreliam, se melindram, se abespinham, José Sesinando regressa em muito boa hora. É um exemplo. Desprendido de questões laterais, assumia com costas largas reparos, senões, demolições que eram parte, aliás, do seu procedimento humorístico. Nunca José Sesinando ficou à espera que a crítica lhe chegasse o fósforo. Ele próprio se detonava. E onde não chegavam os títulos dos muitos sonetos que esgalhou (“Soneto Mal Parido”, “Soneto Rebentado”, “Soneto Assim-Assim”) iam os seus comentadores fictícios, a multiplicarem aquele tipo de juízo em que o que mais conta é a inesperada pirueta, a cabriola verbal. Se há obras que suscitam as mais desencontradas apreciações, a de José Sesinando é um exemplo de convergência crítica. Senão, leiam-se as “opiniões” reunidas em “A-Nexos”. Esta: “Cadência fortemente sugestiva, encadeamento complexo das imagens, autêntico sortilégio verbal, riqueza expressiva reveladora de uma vincada personalidade — nada disso, infelizmente, se encontra na obra de José Sesinando.” Ou esta, não menos iluminadora: “A corrente literária em que se insere a produção de José Sisenando é verdadeiramente electrizante. Pena é que essa corrente não esteja ligada à cadeira do autor”.

Fundador e um dos primeiros dirigentes do PEN Club Português, haveria o autor de clamar por uma cadeira eléctrica (não morresse antes de vergonha) ao ver membros da direcção do PEN nomeados para a atribuição dos prémios literários que a própria associação promove. Aconteceu o ano passado e também tem uma certa graça.

“Obra Perfeitamente Incompleta” é um livro para saborear – dos prolegómenos ao interfácio, do parêntesis à nota de rodapé. E na mais pequena podem espreitar a inveja ou a vaidade literária. É sabido que Sesinando é um desconversador, mas o diálogo com a nossa cultura, o meio literário, suas figuras, meandros, manigâncias está lá. E dá uma grande vontade de rir. 

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