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João Lemos Esteves 17/07/2018
João Lemos Esteves

opiniao@newsplex.pt

Donald Trump: continuem chamando-lhe assim bebé

O maior admirador do balão é o presidente Donald Trump (que terá achado piada à “criação artística”). Isto porque, para efeitos políticos internos americanos, reforça a sua popularidade

1. É certamente uma das figuras mais odiadas por certas elites europeias; é, ainda mais indubitavelmente, o político que mais marca a agenda política internacional. E vai ditando o passo da política global, não com base em declarações conjunturais ou acompanhando as tendências da “espuma dos dias” dominadas por questões laterais e as tradicionais banalidades que pautam o discurso político convencional (mais rigorosamente, aquele a que os povos, em diferentes latitudes e longitudes, estão habituados): antes, o presidente Donald Trump tem trazido para a discussão política internacional matérias há muito conhecidas e há muito ignoradas. Tal afirmação poderá suscitar o ceticismo e a hesitação das nossas leitoras e leitores: é normal, atendendo a que a comunicação social (deliberadamente) perde mais tempo com sound bites comunicacionais, com o cabelo mais ou menos esvoaçante de Donald Trump, teimando em desprezar as matérias de fundo que são suscitadas pela nova administração norte-americana, as quais assumem uma relevância vital para todos nós.

2. A falta de imparcialidade e rigor da comunicação social na cobertura das ações e iniciativas políticas do presidente Donald Trump ficou uma vez mais cabalmente demonstrada no último fim de semana: após uma entrevista televisiva do presidente dos EUA ao programa “Face The Nation” da CBS, lançou-se o alerta geral na Europa. Razão: Donald Trump colocou a União Europeia no lugar cimeiro dos inimigos (foi esta a expressão difundida nos média europeus), antes da Rússia e da China. Ora aí está: eis a prova de que Trump tem um conluio com a Rússia, que encenou uma confrontação fantasiosa com a China para ganhos pessoais e pretende, no seu íntimo, destruir a União Europeia – tal foi a interpretação da quase totalidade dos jornalistas e comentadores políticos. Pois bem, esta narrativa que criaram é estimulante, tem contornos de romance de espionagem, sofrendo apenas de um pequeno, conquanto crucial, vício: o seu desfasamento face à realidade.

3. A realidade é, de facto, sempre bem mais fastidiosa, mais complexa e intelectualmente mais exigente que a mera invenção de teorias da conspiração para descredibilizar um presidente norte-americano em exercício de funções: não esqueçamos que Donald Trump derrotou também a maioria dos órgãos de comunicação social, que alinharam expressamente com Hillary Clinton. E estes não lhe perdoam (nem a Donald Trump, nem à maioria do povo norte-americano) o feito de questionar a sua hegemonia na formação e condicionamento da opinião pública. Não tenhamos dúvidas: hoje, o poder dominante é o poder mediático. Noutros tempos, só passava nos média aquilo que sucedia na política; atualmente, só passa na política aquilo que passa nos média. Já o havíamos demonstrado no nosso livro “O Dia D – o Dia de The Donald”, que versa sobre a eleição do presidente dos EUA.

4. Sabendo da desonestidade intelectual dos jornalistas europeus (e dos portugueses, por contágio: a maioria dos jornalistas portugueses abdicaram da sua autonomia e liberdade para se limitarem a reproduzir o que os jornalistas estrangeiros escrevem), fomos ver as declarações do presidente Donald Trump na íntegra. E confirmámos as nossas suspeitas: na verdade, Donald Trump não se referiu à União Europeia como um inimigo, equiparando-a, moral e estrategicamente, à Rússia e à China. O que verdadeiramente sucedeu foi que o presidente dos EUA – respondendo a uma questão sobre quem é o verdadeiro adversário da nação americana – afirmou que não há propriamente um adversário; há vários Estados que têm interesses divergentes (e, logo, competitivos) com os EUA. Neste contexto, se a Rússia disputa com os EUA interesses de ordem geoestratégica, a União Europeia é, presentemente, uma adversária comercial da nação norte-americana: daí que seja necessário forçar a revisão das barreiras ao comércio existentes à entrada de produtos dos EUA no espaço europeu, retificando o desequilíbrio comercial que os americanos correntemente registam.

5. Qual é a novidade desta declaração? Nenhuma – é uma constatação que tem um largo acolhimento quer na sociedade, quer nos políticos americanos, desde os democratas muito à esquerda até aos republicanos mais à direita. Qual é o choque desta asseveração de Donald Trump? Para as elites europeias, deve ser muito – é que estas há muito que desprezam a realidade, preferindo viver num mundo fantasioso que elas próprias criam. A reter: Donald Trump disse tão--somente que a União Europeia é uma rival comercial dos EUA, realçando que a dinâmica das relações internacionais do tempo presente é incompatível com a redução da política externa de um país à resposta às ameaças de um Estado em concreto. A lógica bipolar da Guerra Fria terminou: o mundo pós-unipolar em que vivemos produziu como sua consequência uma generalização das alianças e das amizades – que, por seu turno, conduziu a uma diluição dos interesses adversariais dos Estados. Anteriormente vivíamos numa época de generalização do conflito, com setorialização das alianças (e aproximações de várias índoles); presentemente vivemos numa época de generalização das alianças, com setorialização dos conflitos e dissensos.

6. Por conseguinte, dizer-se que os EUA e a UE são concorrentes comerciais não é mais do que constatar a evidência. Aliás, não deixa de ser curioso que a mesma UE que se mostra tão indignada com a declaração (reconhecendo a evidência) do presidente Donald Trump seja a mesma UE que mostrou resistências várias à aprovação do TTIP de Obama – com a tão tolerante e democrata França à cabeça… Razão tem, pois, Donald Tusk quando, em reação ao frenesim criado em torno da entrevista de Donald Trump, escreveu que quem disser que os EUA e a UE não são aliados estará apenas a difundir fake news. Pois bem, finalmente reconheceu que os média europeus tradicionais – ao descontextualizarem por completo as afirmações do presidente Trump – estão apenas a difundir notícias mentirosas… Foi uma bonita e importante defesa do presidente norte-americano feita pelo presidente do Conselho Europeu.

7. Mais estranho (ainda) é a completa omissão por parte da comunicação social portuguesa (e europeia em geral) sobre um problema candente e que, a prazo, poderá ter implicações graves para a segurança europeia e internacional: o jogo duplo que a Alemanha faz com a Rússia. Numerosos políticos alemães de relevo tornam--se, após a cessação do exercício das respetivas funções públicas, lobistas profissionais de empresas energéticas russas. Voltaremos a esta matéria. Já no que respeita à visita de Donald Trump ao Reino Unido, deixemos aqui duas brevíssimas notas: 1) Theresa May divulgou que Donald Trump terá sugerido uma ação judicial contra a UE, na sequência do Brexit, como retaliação pelo facto de Trump ser amigo de Boris Johnson (e não ter escondido esse seu estado de alma); 2) aí sucedeu o facto verdadeiramente importante para a nossa comunicação social: o balãozinho com a figura de Donald Trump com uma fralda, insinuando que o presidente dos EUA não passa de um bebé. Até a voz mais sábia de Portugal, esse arauto da sabedoria que é José Pacheco Pereira, considerou o balão uma “manifestação de protesto genial” (?!). Estamos a falar de um boneco com uma fralda! Se fosse o António Costa em fralda, em forma gigante, numa manifestação contra a geringonça em Torres Vedras, Pacheco Pereira diria que tudo não passaria de uma manifestação popularucha, folclórica e foleira de gente radical, ligada à direita radical que feriu a matriz do PSD! Ah, e financiada pelos grandes escritórios de advogados, o grande capital e os abutres que querem destruir o equilíbrio das relações de trabalho! Mudam-se as conveniências, mudam-se os discursos – é assim que Pacheco Pereira (e outros como ele) sobrevive há 40 anos no espaço político-comunicacional português…

8. Sobre o balão, aliás, o seu maior admirador é o presidente Donald Trump (que, sabemos, terá achado piada à “criação artística”). Isto porque, para efeitos políticos internos americanos, reforça a sua popularidade – a qual continua a subir em todas as sondagens, graças aos resultados que a sua administração tem alcançado em várias frentes. O melhor favor que lhe podem fazer, aqui na Europa, é, portanto, continuarem o trabalho de ridicularização de Trump, assumindo-o como um produto tipicamente americano. Como cantaria a Romana, esse nome maior da cultura pop portuguesa e certamente uma das referências do Ephemera na Marmeleira, continuem a chamar ao presidente Trump bebé…e depois vejam os índices de aprovação do presidente dos EUA. Aí, por favor, não chorem assim como um bebé… com uma fralda, claro.

 

joaolemosesteves@gmail.com

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