25/9/18
 
 
António Cluny 17/07/2018
António Cluny

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O prazer do verão e as causas do desorientado ressentimento nacionalista

Que ventos contraditórios sopram nos corações dos europeus que ora os empurram para demonstrações de admiração para com povos que descobriram e visitaram recentemente, ora os voltam contra eles?

O verão, por muito bizarro e conturbado que se apresente este ano, vai paulatinamente subvertendo os nossos hábitos quotidianos e renovando os nossos rituais sazonais.

Onde trabalho, os meus colegas preparam-se para ir regressando ao longo das próximas semanas aos seus países, ou para viajar.

A felicidade que a proximidade da data da partida produz espelha-se, nítida, nas caras e nos comportamentos mais distendidos de todos, inclusive dos que, de turno, irão ficar por mais uns tempos.

A indumentária de todos eles mudou já, mesmo que o clima e as obrigações sociais e profissionais ainda existentes não acompanhem, necessariamente, a razão de ser daquela renovação espontânea.

É assim todos os anos e, de cada vez, ouvem-se as descrições antecipadas dos prazeres que cada um espera gozar durante este período na sua terra e, mais ainda, nos sítios mais acalorados que a maioria pretende procurar fora, na busca de umas férias retemperadoras.

Este ano, mais do que noutros, Portugal está na moda e, por isso, sou sucessivamente consultado sobre as zonas mais interessantes e apetecíveis para visitar.

Desde os monumentos aos restaurantes e dos petiscos aos vinhos, passando pelas cidades e pelas praias mais cálidas ou mais frescas, tudo me é perguntado.

De repente, dou comigo a fazer de guia turístico e promotor de vinhos, loiças regionais, museus, fado, festivais e desportos marítimos.

E, ao ir respondendo a tantas e tão variadas perguntas, começo a notar em mim uma redobrada saudade que havia escondido com esforço e cuidado, para me ir iludindo.

Também eu, assim, começo a sentir uma excitação própria da descoberta dos sítios e produtos de Portugal que, afinal, já conheço, mas quero urgentemente revisitar neste verão.

Vendo, porém, a emoção dos outros com tais visitas ao meu país, pergunto--me, perplexo, como é possível que esta Europa possa, de novo, continuar a caminhar, inexorável mas firmemente, para um abismo onde campeiam os nacionalismos, chauvinismos, racismos e belicismos de todos os tipos e de todas as gravidades.

Que ventos contraditórios sopram nos corações dos europeus que ora os empurram para demonstrações de admiração e afabilidade enorme para com os países e povos que descobriram recentemente e, em simultâneo, os voltam depois, já em casa, contra esses mesmos povos e culturas que poucos dias antes tanto elogiaram?

Que fica, afinal, em cada um deles de tantas viagens e tanta cultura, recolhida, tantas vezes, com empenhado entusiasmo e transbordante e evidente prazer na terra dos outros?

Será que, em vez de admiração e respeito, a maneira de os outros viverem, de comerem, de ouvirem música e de se expressarem apenas suscita, finalmente, inveja e desejo de apropriação ou de forçado servilismo?

Ou será que as pessoas que costumam viajar não são as mesmas que exprimem nos seus países os sentimentos nacionalistas, chauvinistas, racistas e belicistas?

Serão estes e não os outros os que, revoltados, não tendo oportunidade de viajar neste e noutros verões, se fizeram, por desenganados, portadores de tão perigosos e cruéis sentimentos?

E não será, afinal, que tão perversos sentimentos são, na verdade, dirigidos, mesmo que errada e desorientadamente, contra os que, do seu país, tiveram oportunidade de viajar e pouco ligaram aos problemas reais dos que ficaram, por não terem tido meios para tanto?

Quem manipula tanto ressentimento e com que motivos e fins?

 

Escreve à terça-feira

 

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