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Enxaqueca. A “dor de cabeça” que é mais que isso e rouba milhões por ano

Enxaqueca. A “dor de cabeça” que é mais que isso e rouba milhões por ano

Sofia Martins Santos 12/07/2018 14:17

Estudo mundial mostra que 60% das pessoas com enxaqueca grave faltam uma semana por mês ao trabalho. Os custos estimados chegam a intervalos surpreendentes: entre 18 e 27 mil milhões de euros na Europa e cerca de 20 mil milhões de dólares nos EUA

Liliana, agora com 34 anos, já não sabe quando começou a sentir as já tão familiares “dores de cabeça” que a deixavam de cama. Mas sabe que foi muito antes de saber usar a palavra enxaqueca. Hoje em dia, tem de ser acompanhada no Santa Maria. As consultas são mais frequentes do que gostaria, mas são também a garantia de que é acompanhada e de que começa, aos poucos, a saber lidar com o que muitos consideram ser “apenas uma dor de cabeça”, mas que para ela se traduz na impossibilidade de sair da cama. O tempo trouxe-lhe ainda a vantagem de começar a ter mais ferramentas de defesa. “Agora, assim que sinto os primeiros sintomas, sei o que vem a seguir. Sei que vou começar a ficar enjoada e que, se sair da cama, o dia vai piorar muito. Também aprendi que não ter luz ajuda muito. Mas a verdade é que, quando começa, não há muito a fazer. O que sei é que há dias em que não posso mesmo sair da cama para garantir que ao outro dia já estou melhor. Senão, é sempre a piorar.” 

O testemunho de Mara é em tudo idêntico. Com 28 anos, sabe bem o que é sentir que a “cabeça vai explodir”. Nesses dias não pode guiar, tem dificuldade em comer, ler, falar e ouvir. “Quando fico assim, não consigo fazer nada. Sinto-me muito doente e não consigo fazer nada o dia todo. Sei sempre que será um dia perdido. Sinto-me horrível e só aguento deitada. Ao outro dia, mesmo que esteja melhor, sinto-me sempre exausta.” E os testemunhos repetem-se, sempre com mais pontos em comum do que diferenciadores. 

Um estudo mundial, divulgado este mês, mostra mesmo que a enxaqueca afeta significativamente a vida pessoal e profissional de qualquer pessoa que experimente na pele o verdadeiro significado destes e de outros testemunhos do género. De acordo com a análise, pode dizer-se que a enxaqueca custa anualmente 27 mil milhões de euros na Europa e 20 mil milhões de dólares só nos Estados Unidos, incluindo custos indiretos tais como os associados a perda de produtividade.

A investigação sobre esta doença neurológica, que muitos consideram subvalorizada, envolveu mais de 11 mil pessoas de 31 países. Claro que as crises são de gravidade variável de pessoa para pessoa e nem todos os sintomas são sentidos da mesma forma, mas o mais comum é significar uma dor incapacitante. Os sintomas mais comuns são dor de cabeça, náuseas, vómitos e sensibilidade à luz. 

Para conseguirem chegar às conclusões do “My Migraine Voice”, os especialistas analisaram casos de homens e mulheres com pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês e uma percentagem predefinida de 90% de pessoas com pelo menos um tratamento preventivo. O resultado veio confirmar o impacto profundo na capacidade para realizar tarefas do dia-a-dia e o que a Organização Mundial da Saúde já tinha dito: estamos a falar de uma das dez principais causas de anos vividos com incapacidade. Até porque, de acordo com a análise em questão, em média, 60% dos entrevistados referiram ter faltado a quase uma semana de trabalho (4,6 dias) no último mês devido à doença.

“A enxaqueca é frequentemente subvalorizada como sendo apenas uma dor de cabeça. Estes resultados trazem uma nova perspetiva sobre uma doença invisível, ainda que debilitante”, afirma Elena Ruiz de la Torre, diretora executiva e ex-presidente da European Migraine and Headache Alliance (EMHA). “Apesar de viverem com uma condição altamente incapacitante, estas pessoas esforçam-se por ser produtivas, mas precisam de maior alívio dos sintomas e apoio no local de trabalho para conseguirem atingir o seu potencial em pleno. A EMHA está envolvida em várias iniciativas que estão apostadas em contribuir para esta causa.”

O estudo mostra ainda que, embora a maioria dos empregadores (63%) tenham conhecimento da condição destes colaboradores, apenas 18% ofereceram apoio. Além disso, uma grande parte dos homens e mulheres ouvidos para este trabalho admitem sentir-se julgados, “estigmatizados ou incompreendidos por faltarem ao trabalho”.

Quando o encontro fica marcado As pessoas que partilharam as suas experiências com o i confirmam que o dia começa quase sempre com uma leve dor de cabeça, tão leve que quase é possível esquecerem-se que a têm durante um tempo. Mas não muito porque, caso não consigam travá-la a tempo, a única solução poderá vir a ser trancarem-se num quarto, daqueles bem escuros. As associações entre causas e efeitos são muitas e nem sempre comprovadas. No entanto, Liliana não hesita na hora de dizer que a ansiedade, a falta de descanso e a menstruação são fatores desencadeadores de uma crise. De acordo com os especialistas, as causas são multifatoriais e variam de pessoa para pessoa. No entanto, é muito comum coincidirem stresse, qualidade do sono, alterações hormonais e tipo de alimentação. Ser obeso, sofrer de síndrome metabólica ou ter anorexia ou bulimia nervosa também se apresentam como grandes fatores de risco. 

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