16/12/18
 
 
Laura Soveral. Morreu a “rainha branca” do cinema português

Laura Soveral. Morreu a “rainha branca” do cinema português

DR Jornal i 12/07/2018 19:21

Marcelo honrou a atriz que morreu na madrugada de ontem, aos 85 anos, afirmando que foi em Laura Soveral que os nossos cineastas pensaram quando quiseram que o cinema português fosse moderno

Instante a instante ela se volta, e, se olha ao espelho, provoca uma terrível desordem. Quantos olhares, qual das personagens deve ele fixar nessa tensão superiormente controlada por ela. No primeiro dia do passamento de Laura Soveral, a grande atriz portuguesa viu-se rodeada do afeto e da admiração de tantos dos que criaram com ela, e dos muitos que mal deram pela atriz entre as suas muitas encarnações. O realizador Miguel Gomens, que dirigiu Soveral em “Tabu”, faz já sete anos, disse tê-la sentido pisar o palco da saudade ao ser-lhe pedido que comentasse a morte da atriz ao início da madrugada de hoje, aos 85 anos. Falou da sua “enorme versatilidade”, da capacidade que tinha para, “num piscar de olhos, mudar de um registo para o outro”.

Depois de uma carreira imensa, os últimos anos reservaram-lhe uma outra luta. A atriz sofria de esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que acabou por impedi-la de aceitar novos convites. Residia na Casa do Artista, tendo recentemente sido internada no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde morreu pouco depois da meia-noite. E a família informou que não iria haver lugar a cerimónias fúnebres, porque num último ato de humildade e generosidade, Soveral quis doar o corpo à ciência.

A notícia da morte foi dada pela Academia Portuguesa de Cinema (APC), e o seu presidente, o produtor de cinema Paulo Trancoso vincou a saudade que deixa, como viva “deixava em nós uma sensação de prazer por termos estado com ela”. Quanto a títulos, Trancoso não hesita em afirmar que se trata de “uma das nossas imortais”. E a secundá-lo esteve o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa: “Não esqueceremos as personagens que nos deixou, altivas como a Maria Prazeres de ‘Uma Abelha na Chuva’, comoventes como a Aurora de ‘Tabu’, porque foi em Laura Soveral que os nossos cineastas pensaram, quando quiseram que o cinema português fosse moderno”, lia-se na mensagem de pesar publicada no site da Presidência.

Acompanhando a trajetória do cinema e da televisão desde a década de 1960, Rebelo de Sousa fala de uma “presença fundamental do cinema português”, e destaca ainda outros momentos em que Soveral riscou o céu com a sua fulgente passagem, fosse em “Francisca” ou “Vale Abraão”, de Manoel de Oliveira, fosse em filmes de José Fonseca e Costa, José Álvaro Morais, João Botelho e Teresa Villaverde.

Tendo-se estreado como atriz, em 1964, no Grupo Fernando Pessoa, dirigido por João d’Ávila, além da marca que deixou no cinema e na televisão, o Presidente da República fez questão de sublinhar as interpretações de Soveral nos textos de grandes autores como Kafka e Arthur Miller, com o Grupo de Ação Teatral, no Teatro Villaret, em 1970/71. De resto, antes de chegar aos palcos, frequentou Filologia Germânica, na Faculdade de Letras. Acabou por enveredar pela representação depois de fazer o curso da Escola de Teatro do Conservatório Nacional.

Maria Laura do Soveral Rodrigues nasceu em 23 de março de 1933, na cidade de Benguela, Angola. Viria a fixar-se em Lisboa no início da década de 1960, e não demorou a trilhar um caminho nos palcos, trabalhando com companhias como o Teatro da Cornucópia, o Teatro Experimental de Cascais, o Novo Grupo/Teatro Aberto e A Barraca. Em televisão, começou por ser chamada para declamar poesia, no programa Hospital das Letras de David Mourão-Ferreira. No pós-25 de Abril, fixou-se no Brasil, tornando-se na primeira atriz portuguesa a trabalhar para a rede globo, com papéis em “O Casarão” e “Duas Vidas”.

A última vez que integrou o elenco regular de uma telenovela foi em “Belmonte”, que foi emitida em 2014 pela TVI. Antes, e desde a década de 1980, foi-se tornando uma das caras mais familiares do público português em produções televisivas como “Os Putos”, “Um Táxi na Cidade”, “Chuva na Areia”, “Os Melhores Anos”, “A Viúva do Enforcado”, “Fúria de Viver”, “Morangos com Açúcar”, “Liberdade 21”, e a nova versão de “Vila Faia”.

A sua despedida dos palcos deu-se em 2013, entrando em  “O Público”, sobre textos de Federico García Lorca, com encenação de António Pires, numa produção do Teatro São Luiz com o Teatro do Bairro, em Lisboa. No cinema, as últimas atuações de Laura Soveral, depois de “Tabu”, passaram por “Cadências Obstinadas”, de Fanny Ardant, e “Os Maias – Cenas da Vida Romântica”, de João Botelho.

Miguel Gomes não poupou elogios à atriz, afirmando que Soveral “tinha uma elasticidade inacreditável; era quase como uma atleta de ginástica”. “Como atriz, o que era espantoso é que as coisas lhe saíam com uma naturalidade incrível. Parecia que não tinha medo de nada”, adiantou. O realizador contou ainda que, no decorrer das filmagens de “Tabu” tinha por hábito dirigir-se-lhe por “rainha branca”, e a justificação para esta alcunha era haver “sempre nela qualquer coisa de aristocrático”.

A APC distinguiu-a em 2013, com o prémio de carreira e, em 2017, com o Prémio Bárbara Virgínia, de homenagem a mulheres do cinema português. Por essa altura, a academia justificou a homenagem afirmando que Laura Soveral representa “um extraordinário exemplo de determinação e profissionalismo para gerações futuras”.

Em 2006, Graça Castanheira realizou para a RTP o documentário “Laura, A Inquietação de Estar Viva”, esboçando um retrato intimista de “uma atriz maior”, e que celebrava a “presença notável, a voz audaz e articulada, os traços de recorte distinto, a agilidade precisa dos gestos, a inteligência interpretativa e um talento inequívoco”. 

E em jeito de despedida, há uns versos de Vinicius de Moraes que Laura Soveral gravou num disco – “Poesia Portuguesa e Brasileira”, a meio de um poema chamado “Ausência”, há muitos anos, ela lia: “Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados/ Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada/ Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.”

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