22/9/18
 
 
Pedro Ferros 12/07/2018
Pedro Ferros
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Crónica sobre caminhos das pedras

A verdade é que, hoje em dia, a retórica de que Passos Coelho era contra o SNS, perante este cenário de horror, parece um momento de fantasia delirante

De há algum tempo a esta parte, os portugueses tinham deixado de ouvir, nas mais variadas formas e construções, os nossos governantes repetirem, como antes, a estafada frase “qual é a parte de ‘não há dinheiro’ que vocês não ouviram?”.

Com efeito, mais ou menos repetido o elenco governativo do pré-troika, e devidamente revogadas umas quantas alegadas reformas estruturais, é com um estranho sentimento de desânimo que, depois de termos três auto-estradas concorrentes que chegam ao Porto vindas do sul e do tempo do pré-troika, os habitantes e simpatizantes do eixo Coimbra--Viseu, onde me incluo, na presença de um pouco mais do mesmo elenco governativo, são confrontados, depois de três anos das mais variadas alegadas facilidades, com o estigma do odioso de termos de ter a estrada que, finalmente, nos servirá como a contrapartida do não aumento dos professores.

É de certa forma sintomático do estado das coisas que tenha sido o beneficiável IP3 a via por cujas bermas uma importante parte dos incêndios de Outubro também se propagaram.

Para quem a conheça, aliás, a referida estrada tem um historial de sinistralidade que apenas deixa perguntar por que razão só agora se lhe acode.

Mas esta pequena imagem da estrada em oposição às reformas mais não é que a parábola do país da geringonça em tempos de fim de boda.

Com efeito, bastará atender às últimas notícias sobre os casos sucessivos de pré--colapso dos serviços de saúde - e hoje, também, da frota da CP - para se perceber aquilo que a história do nosso défice e dívida pública tão bem documenta, e que é que somos um país de fraquíssimos recursos, com uma incidência fiscal paralisante e um peso da máquina estatal perfeitamente anacrónico, ineficiente e desajustado, e que gasta demais a privilegiar clientelas.

É, para quem esteja relativamente atento, profundamente aterrador o estado generalizado de asfixia financeira dos serviços e das suas cada vez mais profundas ineficiências, sendo igualmente deplorável a constatação diária de toda uma mole de utentes por atender, vitimados do fogo amigo trocado entre o governo e a geringonça, com as greves a tudo e a todos, para início de posicionamento eleitoral.

A verdade é que, hoje em dia, a retórica de que Passos Coelho era contra o SNS, perante este cenário de horror, parece um momento de fantasia delirante se compararmos os níveis de atendimento durante o resgate financeiro com os de depois do fim da austeridade!

É hoje por demais evidente que Mário Centeno descobriu a quadratura do círculo e distribuiu em rendimento dos funcionários públicos o dinheiro necessário ao funcionamento dos serviços e transportes públicos.

Das recentes palavras do PM parece muito claro que também aí atingimos o limite quer das possibilidades orçamentais, quer da bazófia da devolução dos rendimentos sem alarme social.

É hoje muito evidente um tema verdadeiramente fracturante nas esquerdas unidas: é que, ao que parece, a devolução dos rendimentos (para quem ainda a não teve) chegou também ao seu próprio caminho das pedras, como o é hoje em dia para se chegar a Viseu.

E ao que parece não vai haver, como dantes, três caminhos paralelos para sair daqui.

 

Advogado na norma8advogados

pf@norma8.pt 

Escreve à quinta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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