19/11/18
 
 
André Abrantes Amaral 12/07/2018
André Abrantes Amaral

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Limpar a consciência com a bondade dos outros

Mas se o salvamento daquelas crianças se deveu à capacidade heroica de uns tantos, a forma como foi tratado pela imprensa comporta um risco que é o da comoção gratuita, recebida de graça por quem, no conforto do sofá em casa ou numa esplanada a beber uma bica, se tem em grande conta porque, afinal, também sente. 

O mundo acompanhou preso aos ecrãs o salvamento de 12 rapazes e do seu treinador de futebol, fechados numa gruta na Tailândia. O mundo ou, pelo menos, aquele que conhecemos, que é o ligado à internet, ficou pequeno ao ponto de ter sido possível ver quase em direto no Instagram o percurso dentro da gruta cheia de água de um dos rapazes e de dois mergulhadores. A tecnologia, mas essencialmente o sacrifício, essa capacidade descomunal que o ser humano guarda dentro de si e solta cá para fora quando é preciso, foram essenciais para que tudo corresse bem. 

Uma comoção coletiva e em direto desta vez devido não a uma operação de salvamento na Europa, não a um ataque terrorista em Paris ou em Londres ou em Nova Iorque, mas por algo que sucedeu na Tailândia, no outro lado da esfera que é a Terra, noutra cultura, noutro lugar, com uma paisagem e um clima e as implicações que tudo isso tem na forma de estar, de viver, de quem ali habita, bem como a certeza de que, mesmo com essas diferenças, a paixão pela vida, o valor da família, a proteção do mais fraco, tudo o que nos é mais intrínseco é também de todos. Profissionais vindos do Reino Unido, Austrália, EUA, China e Japão juntaram-se às forças de resgate tailandesas. Cada vez mais o planeta é um só, minúsculo, uma rocha no meio do nada. 

Mas se o salvamento daquelas crianças se deveu à capacidade heroica de uns tantos, a forma como foi tratado pela imprensa comporta um risco que é o da comoção gratuita, recebida de graça por quem, no conforto do sofá em casa ou numa esplanada a beber uma bica, se tem em grande conta porque, afinal, também sente. 

O uso excessivo da tecnologia não é apenas responsável por miúdos e adultos que não largam o telemóvel, que estão sempre nas redes sociais e a escrever no WhatsApp. Traz também consigo um risco maior, porque massificado, de uma alienação social compensada por uma bondade à distância e que se esquece num minuto. Por muito comovidos que nos tenhamos sentido, heróis foram os miúdos, com a sua resiliência; extraordinários foram os homens e as mulheres que se ofereceram para os tirar dali. O mérito deve ser reconhecido a quem de direito, nunca usurpado pela consciência alheia.

Advogado 

Escreve à quinta-feira 

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