23/7/18
 
 
Carlos Zorrinho 11/07/2018
Carlos Zorrinho
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O alerta de Mogherini

Uma UE baseada no princípio de “cada um por si” ou em pequenas coligações circunstanciais contará pouco, mas os seus cidadãos pagarão caro a fatura do declínio

Numa recente troca de opiniões no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, a vice-presidente da Comissão Europeia e alta representante para a Ação Externa Federica Mogherini alertou os eurodeputados presentes para o risco associado à continuação do desmantelamento dos sistemas que permitiram à União Europeia (UE) viver mais de 60 anos em paz e liberdade, podendo mesmo significar o fim deste extraordinário projeto comum e, em consequência, do mundo tal como o conhecemos.

Nas últimas décadas, e sobretudo após o Tratado de Lisboa, a dimensão comunitária da União foi sendo enfraquecida em detrimento da progressão dos mecanismos intergovernamentais. A decisão do Conselho Europeu sobre as migrações abriu uma nova página ao legitimar os acordos bilaterais como formas de resolver problemas que beneficiariam, pela sua natureza, da solidariedade entre todos os Estados-membros.

No Parlamento Europeu são também cada vez mais visíveis os movimentos para fazer deslizar processos legislativos fundamentais para o próximo ciclo, que se seguirá às eleições de maio de 2019, na expetativa de que, nesse ciclo, a força dos nacionalistas, populistas e antieuropeus seja ainda maior do que é atualmente.

As tendências antes identificadas são altamente preocupantes e devem fazer--nos refletir e agir. A quem serve a morte lenta da UE? Aos seus competidores geopolíticos, certamente, pelo menos na perspetiva da consolidação dos poderes agora instalados, mas não contribuirá em nada para uma vida melhor para os cidadãos da união, da Europa e do mundo em geral.

O alerta de Mogherini é um desafio contra a passividade, a tentação de deixar tudo como está e de apenas gerir o dia-a-dia. Lança um repto implícito aos líderes europeus, exigindo uma visão global e corajosa, mesmo que não paga em votos e popularidade de curto prazo.

A nova desordem mundial, que veio para ficar, está em permanente reconfiguração. Uma UE baseada no princípio de “cada um por si” ou em pequenas coligações circunstanciais contará pouco para a dinâmica dessa equação, mas os seus cidadãos pagarão caro a fatura do declínio, da ausência de regras partilhadas e do salve-se quem puder.

Nos valores que alicerçam o ideal europeu estão muitas das respostas para desatar os nós com que a humanidade se confronta. Esses valores têm sido traídos por campanhas de desinformação e medo que visam a conquista do poder. Os líderes que o fazem poderão ganhar um lugar imediato na governação dos seus países, mas ficarão registados na História pela sua frivolidade e ganância.

Num momento em que se começam a apresentar os projetos e os candidatos para liderar o próximo ciclo do projeto europeu, é com expetativa e esperança que espero que os candidatos, em particular os candidatos das famílias pró- -europeias, se afirmem pela grandiosidade da sua visão e pela capacidade de mobilizar os europeus através da recuperação da confiança nos valores e na possibilidade de os transformar em políticas concretas que melhorem a vida dos europeus e criem padrões globais de relacionamento melhores para todos os povos do mundo.

Eu sei que é pedir muito, mas pedir menos já não chega.

 

Eurodeputado

 

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