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10 de julho de 1967. Monólogos de águias em montanhas hirtas de bronze

10 de julho de 1967. Monólogos de águias em montanhas hirtas de bronze

Afonso de Melo 10/07/2018 21:49

Guerra Junqueiro foi um dos Vencidos da Vida que contrariou esse nome. A sua obra e a sua vida foram profundamente preenchidas. Raul Rego escreveu uma das mais completas reportagens sobre ele e Trás-os-Montes. Hoje caiu no olvido

Em julho de 1967, Raul Rego, um dos nomes gigantes do jornalismo em Portugal, dedicou, no defunto “Diário de Lisboa”, uma série de reportagens a Guerra Junqueiro a que deu o título de “Roteiro Junqueiriano” e que se tornou uma das mais ricas peças alguma vez publicadas sobre um autor e sobre a influência das origens na sua obra. 

Abílio Manuel Guerra Junqueiro era natural de Ligares, Freixo de Espada à Cinta, e foi de tudo um pouco, de político a jornalista, de poeta a funcionário público e deputado pela nação. Dele escrevia Rego: “A paisagem, tanto as terras como o ambiente humano, de Freixo e povos comarcãos, lateja inteira nos livros de Guerra Junqueiro, podendo-se até dizer que quando ele fala do amor sente os vagalhões nas serras onde nasceu, até que ponto o empolado da frase, o grandiloquente característico do seu estilo foram influenciados por toda a magnificência de extremos da vida e da terra portuguesa cortadas da Castela sem fim apenas pela guilhotina do Douro.”

Guerra Junqueiro tornou-se, hoje em dia, um escritor esquecido. Ninguém mais o cita, os seus livros perdem-se na poeira dos alfarrabistas. 

Em 1967, Raul Rego foi ao fundo da sua obra e da sua terra. Durante várias semanas escavou não apenas as suas raízes, mas também as de Miguel de Unamuno, o enorme autor espanhol de quem Junqueiro foi, aliás, amigo. “Na prosa de Unamuno, basco enraizado em Salamanca, ressonâncias das mesmas gentes e da mesma natureza. Ambos procuravam traduzir na linguagem própria cheia de oratória, verdadeiros monólogos de águias, os calores tórridos de Verão, os cáusticos de brasas aplicados à terra pelo sol e aqueles gelos que tornam as montanhas hirtas de bronze, ou os nevões sem fim, muito brancos e silentes”.

Talvez a prosa e a poesia de Guerra Junqueiro tenha sons que a modernidade abandonou e, por isso, passasse a aborrecido e malquisto, não por culpa dele, claro, mas por culpa deste facilitismo cada mais arreigado no dia-a-dia pouco contemplativo e que nos vai tirando, a pouco e pouco, palavras e frases inteiras de uma língua que esmorece.

Uma língua de velhos, dirão os novos.

“Sinos a defuntos!, ai quem morreria!/ Olha, foi o pobre do Ti Zé, senhor!.../ Velho tão velhinho nenhum outro havia.../ P’ra cumprir cem anos lhe faltava um dia/ Há noventa e quatro que era já pastor./ Zagalzinho alegre, desde tenra infância/ Já de surrãozito cheio a tiracol/ A escalar montanhas com ardor e com ânsia/ Por pastagens bravas de auroral fragrância/ Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!”

Trás-os-Montes Quem leu Junqueiro sabe bem como Trás-os-Montes está, por inteiro, em “Os Simples”. Ou n’“A Velhice do Padre Eterno” e n’“A Morte de Dom João”. Às vezes faz falta lê-lo outra vez.

Ele próprio falava dos “seus quadros campestres e bucólicos” quando escrevia sobre a sua escrita.

Junqueiro viveu longe da sua terra muitos e muitos anos. Havia, por isso, saudades fechadas que precisavam de ser libertadas pelo dom da palavra. Voltemos a Raul Rego: “Facilmente se compreenderá que o poeta, saindo aos onze anos de sua casa, correndo Ceca e Meca desde a Coimbra Doutora às ilhas perdidas no meio do mar, para voltar, vinte anos depois, para comprar umas geiras encarrapitadas e sobranceiras ao Douro, mal tivera tempo de conviver demoradamente com a sua gente. Assim esta confundia-se em comunhão perfeita com a terra onde nascera e aonde voltaria, anulando-se nela, sem deixar nome.”

Muitos críticos argumentam que é esse o motivo para que as personagens de Guerra Junqueiro sejam mais arquétipos do que verdadeiramente estruturadas. Confundem-se com a paisagem, fazem parte dela, são inexistentes umas sem a outra.

“– Oh dor! Oh dor! – / E um caldo em prémio tu lhe deste/ Meu Deus.../ Seis filhos tu lhe deste...”

A mãe da família numerosa, o velho que empunha a enxada de sol a sol, os fantasmas que, ao meio-dia, oram às trindades nem precisariam de nomes porque são o povo por inteiro, teimando em ser inteiro.

“Gerou seis bocas... Que é do trigo!?”

A fome também não precisa de ter nome porque nem boca tem.

A Senhora dos Montes Ermos,Santa Bárbara, Santa Luzia: tudo gente que ouvia as queixas da miséria.

Raul Rego outra vez: “O poeta viveu distante da ninhada de gente que nascera no mesmo ano em que ele, que andara, depois, na escola com ele, para poder seguir o drama de cada um e especificar nos seus poemas os contornos de cada um. ‘Que a paz de Deus seja comigo!/ Que a paz de Deus seja comigo!.../ Disse, expirando, o cavador!’ Quem é esse cavador se não um dos milhares de anónimos que Junqueiro via partir em criança, logo de madrugada para os montes, e com os quais voltou a tomar contacto quando lançou ombros à tarefa de construir a sua Quinta da Batoca? Não se individualiza. É todo o mundo e ninguém. Essa terra de luares inteiros e temporais de rachar é a de toda a obra de Junqueiro, no seu tom bíblico e grandiloquente.”

Guerra Junqueiro morreria aos 72 anos, em Lisboa, e teve honras de Panteão e Santa Engrácia. Foi um dos Vencidos da Vida, mas teve, bem pelo contrário, uma vida plena. Houve tempos em que a sua poesia se sabia de cor, de “O Melro” a “Os Pobrezinhos”: “Pobres de pobres são pobrezinhos/ Almas sem lares, aves sem ninhos./ Passam em bandos, em alcateias/ Pelas herdades, pelas aldeias.”

Alcateias de pobres.

Não, não é algo que volte a estar na moda das literatices...

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