18/9/18
 
 
João Lemos Esteves 10/07/2018
João Lemos Esteves

opiniao@newsplex.pt

Protecionismo? Trump didn’t start the fire!

Barack Obama era o presidente de uma certa elite económica californiana e nova-iorquina. Para Donald Trump, vale tanto um americano da Califórnia como um do Ohio ou da Virgínia: onde houver um interesse americano, Donald Trump defendê-lo-á com empenho militante

1. Comemorou-se na semana transata o 242.o aniversário da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América. Há quem julgue que as datas de relevância política e histórica das nações devem ser somente assinaladas (e celebradas) pelas nações que as protagonizaram: portanto, só os cidadãos norte-americanos é que deveriam prestar homenagem ao documento genial, tão datado quanto atual, que ditou a consagração do direito de autogoverno às 13 colónias (até então britânicas) da América do Norte. Discordamos: a independência dos Estados Unidos da América mudou definitivamente o curso da história mundial. Mais do que a história dos Estados – entendidos como meras decisões de organização política –, a criação dos Estados Unidos provocou uma inflexão, no sentido positivo, da história da humanidade.

 

2. Não se tratou apenas da vitória de um povo, progressivamente cada vez mais nação, que reclamava para si a faculdade de gizar o seu próprio destino: tratou-se, antes, da vitória de uma ideia convertida em ideal – ou de um ideal do qual nasceu uma ideia. Uma ideia de uma sociedade livre, sem freios de origem social, onde a meritocracia fosse o critério de ascensão social. Uma sociedade guiada pela liberdade, não pelo valor ou pela “nobreza de sangue”. Uma sociedade assente na igualdade, e não na hierarquia social fundada em “privilégios históricos”. Claro que a interpretação dos conceitos de liberdade e de igualdade são mutáveis historicamente: o seu exato alcance e sentido oscila em função das conceções dominantes da realidade social, que é sempre historicamente localizada.

 

3. A Declaração de Independência, como todos os documentos jurídico-políticos, é o seu texto, o seu contexto – e o seu momento. Daí que sejam absurdas todas as tendências “revisionistas” da História, que visam condenar as gerações passadas à luz dos juízos jurídicos e morais do tempo presente. Em detrimento de questões menores e desprovidas de sentido (como discutir a incoerência de se proclamar a igualdade ao mesmo tempo que se mantinha uma prática tão censurável e desumana quanto a escravatura), importa é destacar a “revolução coperniciana” gerada pela Declaração de Independência dos EUA: a liberdade e a igualdade passaram a representar a “força motriz” da evolução da história da humanidade. O iluminismo não foi somente um sistema filosófico: graças ao heroísmo de George Washington, ao brilhantismo de Alexander Hamilton, à cultura de Thomas Jefferson e ao pragmatismo de John Jay, tornou-se um efetivo programa de ação política. Até hoje – e sempre em permanente construção.

 

4. Com esta curiosidade, que a memória e a vivência quotidiana revelam ser paradoxal: os valores e os juízos de condenação por certas práticas e discriminações mantidas no pós-1776 só são possíveis hoje em virtude da evolução dos valores que a Revolução Americana consagrou em lei e em fundamentos materiais estruturantes da organização do poder político. Aos pais fundadores dos EUA devemos, destarte, o primeiro passo dessa longa caminhada – ainda em marcha! – para a afirmação de uma sociedade justa, baseada na igualdade, na liberdade e na meritocracia. Continuemos (nós e as gerações futuras) a marcha! Evidentemente, não destoando do clima geral (paranoico) que hoje se vive, a imprensa portuguesa e europeia (acompanhando a mesma de sempre nos EUA) aproveitou para criticar o presidente Donald Trump, imputando-lhe mesmo um “antiamericanismo primário”. Porquê? Porque Donald Trump, segundo tal narrativa, é a negação dos valores americanos… porque revela um “desrespeito atroz pelos órgãos da União Europeia”. Interessante, esta conceção de americanismo das elites (?) europeias: o americanismo seria… a defesa da União Europeia pelos políticos norte-americanos! Compreende-se: já que a maioria dos líderes políticos europeus são fracos e incompetentes, estes resolvem delegar nos eleitos norte-americanos a defesa dos interesses da União Europeia. Há ainda quem pense que os EUA devem ser os “guardiões da galáxia” europeia: ora, ser aliado não significa ser o tutor permanente dos interesses europeus.

 

5. Aos políticos norte-americanos, designadamente ao presidente, compete zelar pelos interesses dos EUA – daqui não decorre, necessária nem essencialmente, uma ideia de patriotismo egoísta. Antes, os interesses dos EUA devem ser articulados e devidamente ponderados com os interesses dos seus aliados: a paz, a segurança e a prosperidades internacionais a todos aproveitam. Contudo, não é equilibrado – tão-pouco se poderá exigir – que países (como a Alemanha) assentem a vitalidade do seu comércio internacional a expensas de outros Estados, designadamente dos EUA. Neste sentido, devemos enquadrar a política do presidente Donald Trump no que respeita à relação com os Estados europeus (custa--nos falar da União Europeia, como se as unidades políticas que a compõem fosse absolutamente irrelevantes): comércio livre, mas justo. Restrições? Sim, com conta, peso e medida – o saldo global deverá ser positivo e… recíproco para ambos os Estados. Evidentemente que esta ideia de reciprocidade se poderá quedar por uma ideia de equivalência, partilhando os ganhos equitativamente pelos empresários e trabalhadores de ambos os Estados: é isto que o presidente Donald Trump pretende quando insiste no comércio justo e recíproco no que concerne, especificamente, ao setor automóvel. A verdade é que a indústria automóvel norte-americana começa a ressurgir, os empresários vivem um novo clima de confiança – e cidades como Detroit, no Michigan, parecem ganhar uma nova vida.

 

6. Por último, cumpre perguntar: a política (e o discurso) do presidente Donald Trump destoa assim tanto da seguida pelas administrações anteriores, nomeadamente do “Deus” Barack Obama? E foram os EUA a iniciar esta pretensa “guerra comercial”, na sequência de políticas protecionistas? Convém aqui reavivar a memória: quem iniciou a guerra comercial com os EUA foi a própria União Europeia. De facto, em 2015, a Comissão Europeia encetou uma longa perseguição administrativa (entretanto, também já judicial) contra as empresas norte- -americanas mais avultadas a operar em território europeu: por coincidência, praticamente todas do setor tecnológico, somando-se ainda marcas populares da distribuição alimentar (como a Starbucks e a Burger King). Na altura, como reagiu o presidente Obama? A trocar encómios com Angela Merkel, como hoje é frequente, nas suas numerosas deslocações a Berlim? Nada disso: o “Deus” da esquerda, Barack Obama, acusou os líderes europeus de adotarem medidas protecionistas contra as empresas de Silicon Valley com o fito de alavancar as startups europeias, maxime alemãs. O presidente Obama classificou mesmo os líderes europeus como “egoístas” por prejudicarem deliberadamente as empresas tecnológicas dos EUA contra as quais não “conseguem competir”. Mais: a maioria dos senadores, independentemente da sua filiação política (republicanos ou democratas), pronunciaram-se em uníssono contra as medidas protecionistas da União Europeia (que, em rigor, visaram proteger a Alemanha e prejudicar a Irlanda)! Talvez tenha sido esta a derradeira manifestação de bipartidarismo no Senado americano, nos tempos mais recentes…

 

7. Posto isto, cumpre questionar: com que moral podem a União Europeia e seus líderes acusar os EUA de protecionismo por pretenderem defender os seus interesses, equilibrando as relações comerciais com a Europa, quando, há menos de três anos, a Europa declarou guerra às multinacionais norte- -americanas, sendo acusada até por Barack Obama (esse ícone europeu!) de seguir um “egoísmo protecionista”? A diferença entre Barack Obama e o presidente Donald Trump é muito linear: Barack Obama pretendia proteger apenas as empresas de Silicon Valley; Donald Trump visa defender as empresas americanas, independentemente da sua origem – desde a Pensilvânia até ao Montana, passando por Michigan e Ohio, todos merecem a atenção e o esforço do presidente dos EUA. Barack Obama era o presidente de uma certa elite económica californiana e nova-iorquina, que julgava ser o seu suporte político-eleitoral; Trump quer ser o presidente dessa elite, mas sobretudo dos “forgotten men and women” que foram sucessivamente desprezados pelo sistema político. Para Donald Trump, vale tanto um americano da Califórnia como um do Ohio ou da Virgínia: onde houver um interesse americano, Donald Trump defendê-lo-á com empenho militante, parecendo, por vezes, até excessivo aos nossos olhos portugueses.

 

8. Terminamos evocando aqui a canção de Billy Joel de 1989 (esse ano mágico), adaptando-a à hipocrisia europeia: Burger King, Starbucks, Microsoft, Apple, Google, Uber, Airbnb, Netflix, Dublin, Angela Merkel… Trump didn’t start the (protectionist) fire!

 

joaolemosesteves@gmail.com

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