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Esménio. Descobrir um autor no meio da chuva de meteoritos

Esménio. Descobrir um autor no meio da chuva de meteoritos

Shutterstock Diogo Vaz Pinto 09/07/2018 10:26

Fizeram deles gambozinos e, por isso, é o tipo de caça a que, hoje, só os ingénuos e os publicitários ainda se dedicam. Mas numa paisagem extremamente à procura, dessas que ajudam mais a espantar do que a encorajá-los, um autor desconhecido faz estalar a espera dos que estão cansados da sensaboria de tudo o que anda aí bem velho depois de vendido como novo

Finalmente, porra. Um livro de pasmar. Com aquela vantagem do diabo – a de vir sem se dar por ele, de um ângulo esquecido, o lado oposto ao dos Tártaros. Obra de um autor desconhecido e que mal se assina: Esménio...? Que raio de nome – nem próprio nem impróprio. Como quem, de fora das linhas de jogo, congemina uma maldade. E que bordoada. Desavisado, o leitor senta-se para saber que vem a ser isto – um livro que, em vez de letras, tem para título uns números, 56/25-31. E uma capa em tons de “não me pegues, segue caminho”. Tons acinzentados, uma espécie de névoa. Lá dentro, na folha de rosto, premiando a curiosidade, o título levanta um pouco a saia, deixa espiar um tornozelo: “Cinquenta e Seis – Vinte e Cinco da Terra e do Rio, Trinta e Um do Mar e dos Viajantes”.

É o terceiro livro de uma editora de que se dirá estar ainda em estágio, não se chamasse Flop, não tivesse por trás o género de engenheiros químicos que não se alongaram muito no cerimonial do parto, nem se deram àquele grande berro inicial que, tantas vezes, é a única coisa que se chega a ouvir das editoras que por cá despontam. Esta passou também à frente da estridente infância, poupou-nos à adolescência de trombas, e da juventude caiu no gosto daquele condenado que, na hora de esticar as pernas, sai da zona infeta e sente o ar fresco mexer-lhe mais com as células do que qualquer espécie de tabaco. Daniil Kharms (“Três Horas Esquerdas”) veio à frente com a catana, e foi depois a vez de Kaváfis, para se dominar a laustríbia copiando dos clássicos. E, agora, chega-nos este. O primeiro original, e de um autor português. Um que, para já, não se deixa fichar. Pode ser até que sobreviva bem aos elogios e resista lá no seu desinteresse pelas filas de escritores à espera de subsídios de inserção.

Mas vamos ao livro. Às primeiras linhas, sem o estampido de uma cena inicial, cai--se no meio daquilo e é a paisagem em torno que se compõe. Como se de um rádio batido soasse um ritmo que à volta do leitor dispusesse um arraial. Sentado na cadeira, travando-lhe o balanço, é nas árvores em volta que os pássaros espavoridos dão o primeiro sinal... Mas o que é isto?

Já se sabe como às vezes passam décadas e nada. Mas depois há obras que têm de ir buscar-nos àquela conversa de que nestas paragens nada soma, que os dias passam e só sabem fazer subtrações. São precisos, então, esses “momentos de embriaguez em que enfrentamos tudo, em que alegremente, de âncora recolhida, vamos em direção ao abismo, sem querermos saber mais da ilimitada queda do que de limites estabelecidos na origem, [e como esses] são realmente os únicos que nos deixam libertos do solo (das leis)” – George Bataille, “História de Ratos” (1988).

Para não parecer que deliro, ou me esqueci de tomar a medicação, deixo aí sobre a mesa um copo de três, para que diluam a desconfiança num pouco de balanço para o caminho: “Não era má gente, e o que aconteceu foi estupidez, uma briga sem razão nenhuma, começada por ele que fervia em pouca água. Depois, não sabendo onde me meter, enfiei-lhe o corpo numa serapilheira e atirei-o ao rio, como se fosse carcaça reles de talhante. Coisa sem jeito, triste até. Enfim. Enfim, enfim. Já o primeiro que matei foi lá na terra, vai uma valente carrada de anos, não devia ter sequer a tua idade. O Juiz Mouzinho, grande julgador da comarca. A mim não me fez mal nenhum, mas não lhe aguentava as manias de que era importante. Morto era uma merda. Além disso, andava metido às escondidas com certa moça que eu conhecia bem, armado em senhor do foral. Boa rapariga ela, muito mal encaminhada com ele. Ora, chegou o dia e dobraram os sinos. Enfiei um madeiro curto e pesadão no casaco, apanhei-o a passar sozinho, cumprimentei-o todo como deve ser – Senhor Doutor Juiz –, deixei que as nossas costas se cruzassem, rodei feito dobradiça e meti-lhe o lenho com toda a força entre o chapéu e a fonte. O corpo caiu na borda da estrada e a mim nunca ninguém me chateou. Mas pronto, tinha matado alguém e a coisa ficou a remoer-me de fininho. Parti por isso. Por isso e porque, falando verdade, nunca senti que tivesse parte, que tivesse herança naquele sítio donde vim.”

Não vos acalmei ainda os nervos compondo o laço sobre o género literário que há de medir a cintura a este ser arredio. É um pouco difícil. Pela insinuante passagem que acima transcrevi, espero que fique claro que o que tem de toada narrativa mede bem cada passo. Mas não se pode falar a propósito desta obra de um regime, uma vez que a andadura que ela leva faz com que a carne troque formas com a sombra que deita, e vá alargando a perspetiva para fulgores bizarros, num texto que se organiza por artigos numerados, alguns seguidos, e funcionando por capítulos numa ordem que se intui sem se presumir. A maioria deles são relativamente breves, outros alongam-se por algumas páginas, e, uma vez por outra, animam a ideia de destacá-los como se passassem por contos. Mas nesta obra há uma estranha coesão entre partes desavindas, fragmentos que se animam e tumultuam por meio de “uma forma de insistência ou retroação – por uma série de pequenas marteladas do finito, do nascente, da carência, do efémero, do desejo perdido, da destruição, da própria estrutura do tempo” (Pascal Quignard, “Um incómodo técnico em relação aos fragmentos”, ed. Deriva).

Não serve, assim, vir dizer que se trata de um livro-bomba, porque a sua diferença faz do arrepio algo mais desestruturante, próprio de uma granada de fragmentação. Ele nem precisa de evidenciar recusas, e se me ponho todo satisfeito, seguro de que descobri um autor, é também por acreditar que há margem ainda para um “entusiasmo sincero e barulhento perante o novo” quando tudo se reclama novo e, no fim, quase nada o é. E posso sentir as suspeitas, o eriçar do pelo dos que seguem despeitados, à caça de deslizes, e especialmente “os mais celebrados da Hora”, que estrategicamente partilham a ração neste tempo em que as vacas, de tão magras, mal se têm de pé. E, mesmo por isso, mais do que nunca, “mordendo-se pelas costas, disputando-se editores e clientela, numa ciumeira pegada”.

Não venho aqui reclamar nem os juros, pois não falo de uma promessa, mas de um autor que, se mais nada nos der, em vez de uma rima puxou logo por uma solução. Uma prosa súbita, rascante, que tem um furo feito bem no fim do mundo, e um trato com as coisas que parece uma hábil política de imigração. Surgem-nos pela frente, de repelão, uns personagens que ameaçam com o reconhecível, o género tido por castiço, mas afinal não perdem tempo a desmanchar a distância caricatural, e tantas vezes o ar fica fino, num realismo que coalhou, e o que nos parecia reconhecível volta para lançar-nos um esgar inesperado, com algo de sinistro.

As histórias destituídas de um fôlego íntimo, no indigesto registo que os rumores emprestam a tudo, fazem-se valer aqui daquela “potência clandestina do quotidiano”, e este livro não se reclama retrato de nenhum país, mas a sua fantasia agreste está prenhe dessa qualidade que nos mostra como a melhor literatura é aquela que confere realidade à vida.

Há aquele tique que denuncia a histeria num literato, quando procura mostrar que tem estudos para saber situar um novo autor, e, nisto, desata num chorrilho de comparações, a inventar linhagens, a destratar tudo. É desaconselhável também pelo gosto publicitário, mas neste caso, e sem atirar Esménio para essa marcha de finados, há uma ligação que, de tão justa, merece ser-lhe rendida. Deixando de lado as parvoeiras do realismo mágico, é no agre travo dos contos de Juan Rulfo, na pele de lagarto mudando subtilmente de cor, refletindo a árida paisagem da província mexicana, que encontramos um paralelo para o que Esménio faz neste livro.

Banhando-se em ecos bíblicos, urdindo uma trama rebuscada, vai trocando por miúdos as questões maiores, mas sem abrir aqueles maçadores parêntesis filosofantes. E sem paciência para o fio narrativo sequenciado que nos dá, tintim por tintim, as peripécias de um tipo qualquer, de uma família ou povoado – tantas vezes com aquele virote das diferentes gerações –, esta obra alivia-se de todo o regime protocolar. Esménio escreve com aquela presteza de alguém que mete cordas num estranho instrumento, afina as notas e toca para si mesmo. Em vez de procurar servir um público, leva e traz as suas notas de regiões ermas, onde estas, ao invés de soarem bem, o que parece é que uivam.

 

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