21/9/18
 
 
Alfredo Barroso 09/07/2018
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@newsplex.pt

A plataforma comum de esquerda está a ruir?

Se o fim da solução de governo se confirmar, não votarei em nenhum partido nas próximas eleições europeias e legislativas – o que me acontecerá pela primeira vez desde o 25 de Abril

É sabido que, no PPD-PSD, praticamente ninguém se revê em qualquer dos fundamentos da social-democracia. Há muito que este partido, cujas raízes mergulham na Acção Nacional Popular do Estado Novo, não passa de uma federação de interesses materiais e pessoais no seio dos quais avultam as ambições de poder de muita gente sem quaisquer escrúpulos ideológicos ou qualquer ideário político, movida simplesmente por um pragmatismo sem princípios e pelas vantagens que o poder confere.

O mesmo se pode dizer em relação a uma minoria bastante significativa de dirigentes e militantes do PS que vieram ocupar o vazio causado pela quebra da tensão ideológica e pela progressiva substituição da moral do serviço público pela moral política, em prejuízo dos princípios éticos. Há mesmo quem, entre os dirigentes do PS, proclame que não se revê em nenhum “ismo”, num curioso lapsus linguae de quem se esqueceu que o fundamento ideológico basilar do PS é o socialismo democrático.

É neste desenraizamento dos dois principais partidos políticos do regime que se baseia a demanda de um novo “bloco central”, e não na suposta necessidade de se unirem para enfrentar uma suposta crise económica e financeira, como sucedeu com a aliança entre o PS de Mário Soares e o PPD-PSD de Mota Pinto, entre 1983 e 1985, desfigurada desde a saída de Mota Pinto e condenada pela ascensão de Cavaco Silva à presidência do PPD-PSD e a sua cumplicidade com o então Presidente da Republica, Ramalho Eanes, ambos decididos a derrubar Mário Soares.

A aliança desfez-se, mas sobreviveu e reforçou-se a ideia de um “bloco central” de interesses baseado na gestão clientelar das ofertas de cargos e empregos na administração pública, com as nomeações pelos partidos tendo em vista o controlo não só da burocracia, mas também da gestão e administração das empresas e organismos autónomos do sector público. Um “bloco central” cheio de “janelas de oportunidade” tornou- -se, assim, paraíso do carreirismo e do pragmatismo político sem princípios.

Foi esta lógica “paradisíaca” sustentada pelos dois principais partidos – numa alternância de maiorias absolutas ou relativas sem verdadeiras alternativas – que o PS de António Costa veio quebrar, recusando apoiar ou coligar--se com o PPD-PSD de Passos Coelho e negociando com o BE de Catarina Martins, o PCP de Jerónimo de Sousa e o partido Os Verdes acordos de incidência parlamentar que se traduziram numa “plataforma mínima comum de esquerda” que, há já três anos, viabiliza e sustenta na Assembleia da República o actual governo minoritário do PS.

É essa “plataforma mínima comum de esquerda” (como eu a designo há muito tempo) que estará a ser posta em causa a pretexto da negociação do Orçamento do Estado para 2019, último ano do mandato do governo até às próximas eleições legislativas, se não houver interrupção.

Perante as exigências do PCP e do BE, o presidente do PS e do grupo parlamentar do partido na AR, Carlos César, veio fazer publicamente – com a arrogância e a hipocrisia que cada vez mais caracterizam as suas intervenções políticas – uma espécie de “ultimato” aos seus aliados de esquerda no parlamento, “ameaçando-os” com o regresso ao isolamento de onde o PS os terá resgatado, esquecendo-se que foram esses partidos que resgataram o PS duma oposição colaborante a um novo governo de direita, caso António Costa não tivesse decidido “virar à esquerda”.

É evidente que não aprecio o estilo arrogante e hipócrita deste presidente do PS – tão do agrado da minoria de direita, dentro do partido, favorável à constituição de um novo “bloco central” –, mas convém reconhecer que o PCP e o BE têm estado a fazer tudo e mais alguma coisa para questionar e pôr em causa a “plataforma comum de esquerda” com o PS.

Há poucos dias, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, proclamou urbi et orbi uma espécie de decreto revogatório: “Terminou o mito de que era possível fazer a quadratura do círculo: corresponder à reposição de direitos (…) e aceitar a submissão aos ditames da União Europeia e do euro.” Como se só agora Jerónimo de Sousa tivesse percebido que este governo do PS nunca iria abandonar o euro e a UE, durante esta ou em qualquer outra legislatura. Tratar-se-á de um caso de compreensão lenta? Nem pensar! É mais certo ter Jerónimo de Sousa chegado à conclusão de que é preciso voltar a pôr no poder um governo de direita – ou outro do bloco central (o que é o mesmo) – para que o PCP reconquiste votos e amplie o seu eleitorado tradicional, tentando ultrapassar de novo o BE, que (aqui para nós que ninguém nos ouve) Jerónimo de Sousa e o PCP desprezam tanto como detestam qualquer governo do PS.

Perante esta atitude do PCP, é óbvio que o BE percebe que não pode ser transformado em tábua de salvação do actual governo, como porventura desejaria o PCP, e também acaba, assim, por se colocar numa posição de ataque frontal ao executivo, fazendo “marcação directa” ao PCP nas chamadas “reivindicações impossíveis” (que eu até apoiaria em contexto diferente do actual). É claro que ambos os partidos sabem que, no actual contexto, muitas dessas reivindicações são mesmo inaceitáveis para o governo. E também é claro que a direita quer aproveitar a actual onda de greves e reivindicações para malhar forte e feio num governo que odeia e quer derrubar, nem que seja à custa de apoiar os comunistas.

Não quero precipitar-me fazendo agora previsões que venham a revelar-se erradas. Sei bem que os jogos políticos e de poder implicam sempre o recurso a fortes doses de cinismo e hipocrisia, a ameaças de ruptura, a acusações mútuas que chegam a roçar o insulto. Está sempre presente no meu espírito esta caricatura: “Tenho a maior estima e consideração por V. Exa., embora o considere um grandessíssimo filho da mãe!” Faz-me lembrar o exemplo da “graça pesada”, tão pesada que o destinatário não percebe que é só uma graça e acaba por matar ou suicidar-se.

O regresso do PS a nova versão do “bloco central”, atraído pelo canto de sereia da nova liderança do PPD-PSD, seria um desastre para o PS e para o país. Porventura confortaria o PCP e o BE num novo prolongado estágio na oposição, mas seria fazer política às arrecuas como os caranguejos. E a abstenção dos cidadãos eleitores iria crescer e consolidar-se.

Para muitos parece, infelizmente, que se aproxima a grande velocidade o fim da actual solução de governo, baseada em acordos de incidência parlamentar entre PS, BE, PCP e PEV. Tenho-a defendido publicamente nos últimos 25 anos (e até me desfiliei do PS em Fevereiro de 2015). Se esse fim porventura se confirmar, não votarei em nenhum partido nas próximas eleições europeias e legislativas – o que me acontecerá pela primeira vez desde o 25 de Abril. Tenho 73 anos e nunca me furtei a um único acto eleitoral desde então, fossem eleições autárquicas, europeias, legislativas ou presidenciais. Mas hesitarei entre abster-me ou votar em branco. De resto, balanço entre o cepticismo e o pessimismo!

 

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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