19/11/18
 
 
Pedro Ferros 05/07/2018
Pedro Ferros
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Crónica sobre o que diz que eu disse

Tal como a história da expansão portuguesa de 500 anos, a via do último século para a tal sociedade socialista com que Joana Mortágua sonha também “é a dos seus horrores e a das suas vítimas”.

Num quadro temporal em que a política vem sendo feita da exploração mediática dos temas fracturantes e do extremar das aparentes cisões filosóficas entre a esquerda e a direita tivemos, há pouco, a oportunidade de reflectir sobre a questão da escravatura e dos Descobrimentos e ficámos, sem surpresa, a saber que a deputada Catarina Martins, a quem se devem algumas das mais brilhantes, desempoeiradas e profundas reflexões filosóficas sobre a nossa história e o nosso passado, entende que a expansão portuguesa merece, pelas práticas que teve à luz da moral de então, uma censura pública e oficial dos celebrantes do 10 de Junho à luz da moral de hoje, no que não estará sozinha. 

Tive oportunidade de comentar esse posicionamento e, diga-se que bem, Joana Mortágua, neste jornal a 20/6, entendeu comentar o que escrevi.

Celebro com redobrada alegria a possibilidade real e a liberdade de poder concordar com alguma coisa e discordar com muito mais do que Joana Mortágua entende que eu disse ou quis dizer e os argumentos com que o faz, e ainda, a espaços, do próprio estilo, que é o seu, no qual não me revejo e que, portanto, resisto a devolver-lhe.

Aceito, no mais e também, o desafio de não querer tolerar, acriticamente, todas as práticas dos nossos antepassados (alegados ou não), sejam eles mais ou menos remotos ou, para o caso, muito próximos. 

Porventura ao contrário da sugestão de uma ideia branqueadora de uma prática que nunca tive, nem me sinto obrigado a justificar ou sequer ter de desculpar-me por ela, é para mim evidente, ontem e hoje, que a escravatura e muitos outros fenómenos, alguns extintos e outros menos, são do ponto de vista moral execráveis, mas a evolução das mentalidades, dos conceitos éticos e das culturas vive de avanços e regressos e é muito fácil, neste quadro, apontar a árvore mas não ver toda a floresta.

À minha intervenção é, apesar de tudo, indiferente quem o BE e seus apaniguados apoiam de facto e onde. 

O que referi é que há uma justiça do tempo histórico diferente daquela que não esteja enquadrada pelo seu circunstancialismo e que, se filosoficamente não conseguimos aceitar isto, os resultados, que são no fundo a crítica que fiz ao tweet de Catarina Martins, são necessariamente inaceitáveis.

Ou seja, se quisermos fazer uma leitura simplesmente objectiva e desapegada das pessoas nas suas circunstâncias de tempo e espaço, teremos de admitir que, independentemente das motivações, do tempo histórico e quadro político e social, como a leitura de Catarina Martins sufragada por Joana Mortágua permite, uma pessoa que mata outra é necessariamente e sempre, apenas e só um assassino e quem assalta bancos não pode deixar de ser apenas e só um ladrão. 

Neste cenário, em que as circunstâncias do seu tempo não interessam, como Joana Mortágua parece defender, reconhecer terroristas ou proclamar heróis antifascistas será sempre e só, também na mesma lógica, a tal interpretação da História à la carte...

Dito isto, interessa pouco ir discutir se, caso a caso, o BE e Catarina Martins apoiam neste momento este ou aquele regime mais ou menos torcionário, dos que enumerei (as diferenças que Joana Mortágua diz existirem relativamente aos tais regimes que apontei - com a eventual excepção da Coreia do Norte - podem facilmente demonstrar-se, estas sim, muito falaciosas, desonestas e rasteiras, se nos lembrarmos do que pensava, escreveu, levou à votação no parlamento ou disse o BE sobre Fidel Castro ou Nicolás Maduro no lado certo da História, em diversas ocasiões).

Recentrando, e se vejo bem, tweetava Catarina, não sobre específicos personagens da História, mas sim sobre políticas e ideologias desses tempos, pelo que me parece que não errarei por muito se disser que Catarina Martins e o Bloco de Esquerda - e, já agora, Joana Mortágua - defendem, pelo menos do ponto de vista ideológico, as mesmas exactas ideologias (socialistas) de cada um desses referidos regimes, independentemente de cada um dos seus actuais intérpretes, tendo, aliás, saudado publicamente alguns dos anteriores acima referidos, com públicos aplausos a um e também rotunda em Alfragide ao outro - ou será que estes disparates não aconteceram e são delírios da JP ou do Nuno Melo?

Não me repugna, no mais que não reclamo para mim nenhuma superioridade moral, admitir que, à luz de critérios de hoje, coisas que aconteceram pelos séculos fora até 1961 e mesmo depois são moralmente discutíveis e erradas, e mais referiria que em países democráticos e com economias liberais consolidadas e edifícios de direitos humanos fortes persistem situações como a pena de morte, trabalhos forçados e várias outras violências que Portugal, entretanto, e apesar de tudo, já expurgou.

O que Joana Mortágua não quis ver no meu texto, quando apontou à árvore sem vislumbrar a floresta, foi que o ponto de reflexão que o artigo pretendia era o de que, em cada momento, cada regime, ou ideologia, pode ser chamado a “ajustar (as tais) contas com a verdade”, como quando me referi, no caso dos socialistas defensores do socialismo real, às grandes fomes do Holodomor na Ucrânia e não só.

Mas para o seu caso poderíamos falar também no processo doutros fenómenos da implementação do socialismo real, do séc. xx e não dos Descobrimentos, da perseguição dos culaques e dos cossacos, das fomes do Tartaristão, dos gulags, dos massacres de Katin ou de Teodósia, da repressão na Hungria ou na Primavera de Praga, do Camboja, do Vietname, da China, dos regimes comunistas em África e de todo um rol de atropelos brutais muitíssimo mais recentes cometidos em nome da ideologia que o BE professa (apoiando os seus agentes ou não) e do socialismo real. 

Neste quadro, é verdade que pode parecer uma relativização fazer o enquadramento histórico do mundo antes e depois dos Descobrimentos para concluir que, pese embora tal hoje nos repugne, à data dos Descobrimentos, a escravidão e o negócio negreiro eram uma realidade transversal que os precedia e que, infelizmente, não morreu com eles.

Mas também é verdade que quem aponta isto, como eu, não tem necessariamente de ter uma agenda de branqueamento histórico, porque também não tenho nenhuma responsabilidade pelo que se passou nesses processos e nesse ínterim, nem pretendo nem tenho nenhuma agenda política de direita reaccionária, inorgânica ou outra, para voltar a implementar onde quer que seja tráfego negreiro ou escravatura, contrariamente à Joana Mortágua e ao BE, que independentemente do julgamento histórico, que é óbvio e demolidor, ainda pretendem e labutam diariamente para instituir por cá o socialismo real.

Tal como a história da expansão portuguesa de 500 anos, a via do último século para a tal sociedade socialista com que Joana Mortágua sonha também “é a dos seus horrores e a das suas vítimas”.

Todos os caminhos se fazem caminhando e neste é muito evidente a quem serve melhor branqueá-los (nem que seja aumentando o ruído sobre outros temas) para evitar julgamentos morais ou cumprir agendas ideológicas, e não sou eu!

 

Advogado na norma8advogados

pf@norma8.pt 

Escreve à quinta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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