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Joana Mortágua 04/07/2018
Joana Mortágua
Cronista

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O mapa cor-de-rosa

O PS escolheu marchar ao centro da avenida para tentar a maioria absoluta. A orientação foi oficializada no congresso

No segundo dia das jornadas parlamentares do PS, Carlos César decidiu apontar baterias à esquerda e disparar recados sobre as votações importantes que se avizinham, as alterações à lei laboral e o Orçamento do Estado para 2019. Segundo o líder parlamentar do PS, a esquerda deveria arrumar já o assunto e resumir o debate a uma escolha entre a “responsabilidade” ou o “regresso ao isolamento”.

Mais do que passar um cheque em branco, os deputados da esquerda deveriam aceitar um cheque careca com a assinatura “governo”. Com base em quê? Segundo César, no “orgulho” pelos sucessos governativos destes três anos, porque “nem o PS se desviou do seu percurso, nem os partidos que têm apoiado o governo querem voltar a um regime de isolamento e a uma falta de influência na política portuguesa”.

César acerta no reconhecimento que tem de existir em relação ao que melhorou. Portugal está cada vez mais longe de ser o país que treme a cada conferência de imprensa do governo por receio de novas subidas de impostos, mais cortes salariais ou privatizações. Mas esconde que isso só foi possível porque o PS se desviou brevemente do seu percurso.

Comparar o programa eleitoral do PS de 2015, o mais à direita de sempre, com os feitos da geringonça é um exercício que só se explica pelos acordos. Basta relembrar, como exemplo, que o PS adiava a eliminação dos cortes salariais, propunha a redução do valor real das pensões, colocava o Estado a financiar os baixos salários, previa a redução da TSU patronal, facilitava os despedimentos coletivos e não se definia em relação a privatizações.

O PS sabe que a diminuição do desemprego não se deveu ao Código do Trabalho imposto pela troika, mas à recuperação económica. No entanto, abandonou o trabalho conjunto com o Bloco sobre o combate à precariedade para defender uma reforma laboral negociada com os patrões e abençoada pelo PSD.

O mesmo alinhamento ao centro repete-se em relação ao diploma de descentralização de competências ou à recuperação da carreira dos professores. Enquanto o primeiro-ministro repete a ladainha requentada de que é preciso escolher entre mais funcionários ou salários, obras no IP3 ou o direito à carreira, há muita gente que continua a escolher entre o almoço e a farmácia, e ainda há muitos compromissos por cumprir.

A Carlos César, porque sempre nutriu uma maldisfarçada desafeição pela geringonça, sai com natural exuberância o discurso arrogante de quem substitui o debate político por lições de autoridade. Mas isso não lhe dá estatuto de exclusividade na nova postura do PS, que escolheu marchar ao centro da avenida para tentar a maioria absoluta.

Essa orientação não é circunstancial e foi oficializada pelo congresso do PS, que fechou o parêntese da geringonça para afirmar um partido de centro capaz de negociar tanto à esquerda como à direita. O problema dessa espargata é a política, como tem vindo a tornar-se evidente desde a eleição de Rui Rio.

Perante isto, qual é a responsabilidade da esquerda? Certamente não é cobrir as costas ao governo enquanto o PS regressa ao business as usual. O Bloco não se move por ultimatos e não desiste de influenciar a política à esquerda. Neste Orçamento, como sempre, o PS só está condenado a governar com a direita se quiser governar como a direita.

 

Deputada do Bloco de Esquerda

 

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