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El Olvido. Falar, beber, conspirar e esquecer
A oitava edição do Walk

El Olvido. Falar, beber, conspirar e esquecer

A oitava edição do Walk Mariana Lopes Cláudia Sobral 03/07/2018 22:03

Uma cantina guatemalteca em São Miguel. Pediram-lhe uma exposição, a artista Maya Saravia montou um bar no centro de Ponta Delgada. Espaço de intimidade e da confrontação necessária para abrir espaço para política – e poesia. Entre imagens de guerra e Caetano Veloso. “El Olvido” é uma das exposições inauguradas na abertura de mais um Walk&Talk

Quantos habitantes tem a Guatemala? “Uns 16 milhões. Talvez mais, é impossível saber-se ao certo, não houve censos.” Não? “Não. Na Guatemala, o Estado é inexistente. Com a erupção do Vulcão de Fogo, foi muito estranho perceber que o número de mortos e desaparecidos é muito inferior ao número de casas destruídas. Nunca saberemos quantas pessoas morreram.” Pausa. “Costumamos dizer que na Guatemala há duas leis: a lei do Estado e a lei maia.” Vista daqui, a Guatemala é isto. Pouco mais do que as descrições de Maya Saravia dentro de um carro na viagem que se faz de Ponta Delgada até às Furnas, para o piquenique de cozido que todos os anos marca o fim de semana de abertura do festival Walk&Talk, em São Miguel.

Conhecemo-la daqui, já do ano passado, quando aterrou na ilha como uma das artistas em residência nessa edição para descobrir como “é bonito o portuñol”, mas que em versão açoriana não chegava. Encontrávamo-la por aí. Ponta Delgada, Rabo de Peixe, sem fazermos ideia que o que marcaria essa sua viagem estava na hemeroteca da ilha. “Foi por sorte, mesmo por sorte, que descobri nos arquivos dos jornais de 1954 que era um jornal açoriano a dar destaque ao golpe de Estado que acontecia na Guatemala.” Era o “Diário dos Açores”, que ainda existe e que na altura se fazia de apenas oito páginas.

Oito páginas que chegaram para 23 primeiras páginas dedicadas às movimentações que levaram à queda de Jacobo Arbenz Guzmán, presidente da Guatemala entre 1951 e 1954, justamente, que ao pôr em marcha uma reforma agrária que perturbou o monopólio das empresas americanas no país (para a História ficou a United Fruit Company) acabou alvo de um golpe de Estado apoiado pela CIA.

Entre a Checoslováquia e o Iraque Daqui, deste arquipélago no meio do Atlântico onde em 2003 se decidia o futuro do Iraque, 50 anos antes, o assunto eram então as supostas armas com que a Checoslováquia se preparava para armar Arbenz. “A par da deposição de Mossadegh, no Irão, em 1953, a deposição de Arbenz, em 1954, é um caso paradigmático para o estabelecimento do método das intervenções norte-americanas em territórios estrangeiros. Não houve uma intervenção militar, mas foram criadas uma série de ligações e de propaganda de forma a convencer a opinião pública de que era importante tirar aquele presidente do poder porque era comunista”, explica a artista, que não trabalha aqui pela primeira vez as associações entre guerra e propaganda e que tem como tema recorrente da sua obra os processos da construção da memória coletiva na História.

“Isto determinou o seu modo de operação, mas é também um momento determinante para a história da Guatemala por ser o momento em que se parte entre a possibilidade de um futuro democrático e uma série de ditaduras militares, de corrupção e de violência. É um momento fundamental para se compreender de onde vêm o desastre da democracia guatemalteca, a corrupção, a guerra, o genocídio [dos maias, durante as sucessivas ditaduras militares]. Isto é muito importante para nós, mas foi muito estranho para mim descobrir esta informação num jornal açoriano.” E diziam o quê, essas primeiras páginas? “Era um discurso muito típico da Guerra Fria, alinhado com a propaganda da CIA.”

De São Miguel voou para Madrid, onde viveu por sete anos e vivia ainda na altura. Saiu com a ideia de um documentário, abandonada mal regressou de vez a casa, a Cidade da Guatemala, onde voltou às cantinas que se enchem de gente que bebe, muito, de gente das classes mais baixas. Mas também de intelectuais, jornalistas e artistas.

“A Cidade da Guatemala não tem propriamente uma vida noturna. É um lugar muito interessante porque tudo acontece às escondidas, em segredos. E muitas coisas funcionam de forma ilegal, não são propriamente reguladas pelo Estado.” Exceção não haverá para as cantinas. “Muitas delas são mercearias em que ao fundo há uma porta que se abre para uma cantina. São espaços muito privados, tens quase de ser amiga do dono para poderes entrar.”

Nada secreto será o mais conhecido de todos, El Olvido. Jornais, guias, já todos escreveram sobre ele. “É um bar com uma aura muito especial, um lugar muito melancólico. As cantinas da Guatemala são lugares melancólicos. Não são necessariamente lugares de festa. São lugares para conversar, conspirar – as pessoas são muito políticas, discute-se muito questões políticas.” Lugares para esquecer – na Guatemala, já vimos, esquecer também será preciso.

A cantina universal O que Maya Saravia percebeu quando há três meses voltou à Cidade da Guatemala. “Regressar tornou muito claro que o tipo de trabalho que queria fazer tinha a ver com experiências, não com contar mais histórias. Queria criar uma experiência.” Quis então regressar a esse lugar, recriá--lo juntamente com “essa ideia de estarmos constantemente a ser bombardeados”. Com propaganda, palavra para tudo. “Neste tempo em que vivemos não é possível evitarmos saber o que Trump disse.” Ou ignorar a poeira levantada e que já não baixa pela reação de Madrid às reivindicações da Catalunha.

Poeira, nuvem de fumo, foi então como a encontrámos no regresso aos Açores, para o Walk&Talk, que arrancou este fim de semana com a inauguração da exposição que saiu disto tudo, e talvez por isso não seja uma exposição “El Olvido”. Talvez por isso seja um lugar, um bar, uma cantina guatemalteca bem no centro de Ponta Delgada – no Instituto Cultural (Rua José Maria Raposo Amaral, 101). “Interessa-me a abstração, adoro retirar informação. Em vez de dizer qual é a minha opinião, acho mais interessante explorar as zonas cinzentas e, quando começas a retirar informação, sobra um espaço muito estranho onde pode acontecer política, mas também poesia.”

Eis o que faz uma cantina, como será esta a que aqui convirá chamar bar. Ao balcão, Maya serve cervejas com bases de copos como folha de sala. “El Olvido – Bar, Maya Saravia, Walk&Talk.” Bases de copos como folha de sala, móveis emprestados de uma verdadeira tasca, das daqui, açorianas, cortinas douradas a lembrar que uma cortina pode ser o contrário de um muro. Até porque, citação de Caetano Veloso, “There’s nothing you can show me from behind the walls.”

“Interessava-me perceber o que acontece nestes momentos de intimidade em que somos quase bombardeados com informação.”

Bombardeados será a palavra certa para o que nos acontecerá aqui. De um lado, um espelho, do outro, um televisor. As imagens não são afinal de arquivo, são de agora, do YouTube, a guerra e a propaganda deste presente. Diz Maya que é “o teatro da vida, pequeno e grande” que se desenrola sozinho neste lugar de hashtags #cantinastristes e #baresdemalamuerte. Ninguém disse que era para ser bonito isto – ainda que pareça.

 

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