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Educação. Crianças, a aula vai começar: tirem os sapatos e vamos jogar

Educação. Crianças, a aula vai começar: tirem os sapatos e vamos jogar

Bruno Gonçalves Beatriz Dias Coelho 03/07/2018 12:31

Abriu recentemente uma escola de ensino não - convencional para crianças do primeiro ciclo. O plano curricular é o mesmo do ensino público, mas o método e a filosofia são diferentes. O i foi à Ericeira conhecer a Skool

Dizer sempre a verdade, tratar bem dos materiais, mexer nas janelas só com autorização, respeitar a vez para falar, falar com volume adequado – estas são algumas das 17 regras da Skool, uma escola de ensino não convencional na Ericeira vocacionada para o primeiro ciclo. Em nenhuma é usada a palavra não. “Quando elaborámos o documento com as regras da escola, a ideia era fazê-lo com uma ideia mais positiva. O não tem um efeito pesado e então foi um bom exercício para eles tentarem dizer as coisas de outra forma e vê-los desconstruir. Vivemos numa sociedade que negativiza muito as coisas”, defende ao i a coordenadora pedagógica e tutora – nome dado aqui a quem ensina – Cátia Zeferino, 33 anos. Tem a formação de qualquer outra professora de primeiro ciclo, mas percebeu que o método convencional não lhe enchia as medidas e começou a desenvolver outras metodologias.

A escola – Skool, como insistem que lhe chamemos – nasceu da mente de um grupo de 25 pais que estavam “fartos” do ensino convencional, explica ao i José Borralho, um dos pais, que é também o presidente. Tão fartos que decidiram não esperar mais e abrir ainda este ano letivo, a 14 de maio.

“Eles são muito mais livres aqui e nós, enquanto pais, gostamos disso”, continua. Criaram uma associação sem fins lucrativos e lançaram a Skool, que definem como “um espaço de apoio ao ensino doméstico” e que é frequentada por 14 crianças. “O regime de ensino doméstico é um regime em que os pais, tendo um determinado tipo de grau de escolaridade, assumem a responsabilidade pelo ensino dos seus filhos. Os pais inscrevem as crianças na escola primária do agrupamento a que pertencem – aqui é em Mafra –, mas dizem que a criança não vai frequentar o ensino público e vai estar em regime de ensino doméstico. A Skool surge como um espaço de apoio ao ensino doméstico. As pessoas que optam pelo ensino doméstico põem aqui as crianças e elas estão cá como se fosse uma escola”, explica José. Em Portugal, segundo os dados mais recentes disponibilizados pelo Ministério da Educação, existem 661 crianças neste regime.

Aqui ensina-se o plano curricular do ensino público, mas a filosofia e o método são diferentes. Os sapatos e a rigidez ficam à porta.

Cada um (mesmo) ao seu ritmo À chegada à sala principal da Skool, os sapatos das crianças estão à porta. “Eles andam descalços ou de pantufas na sala, por questões de limpeza e de cuidado com o espaço, até porque às vezes sentam-se no chão… e quando entra alguém até costumam dizer que tem de tirar os sapatos”, conta José, entre risos.
Mas as diferenças vão muito mais longe: ao contrário da escola comum, aqui não há primeira, segunda, terceira ou quarta classes, nem turmas. Existem dois grupos – o de iniciação, que corresponde à primeira e segunda classes, e o de desenvolvimento, equivalente à terceira e quarta classes. Mas como funciona, afinal, este método? “De manhã estamos em sala, cada um a trabalhar no seu plano, de forma autónoma. À tarde trabalhamos mais coletivamente, em oficinas de expressão dramática, musical, físico--motora ou outras”, explica a tutora Cátia.

Comum aos dois momentos é o facto de o exterior da Skool, além das salas no seu interior, ser também um espaço de aprendizagem. “Fazemos muito trabalho lá fora”, acrescenta José Borralho. “Por exemplo, quando aprendem o que é o metro quadrado, podem ir lá fora desenhar no chão e aprendem assim”, descreve. Por não se limitar às ferramentas tradicionais – aqui, os livros não são a única fonte de informação e as mesas não são individuais, por exemplo – é que, nesta Skool, o ano letivo dura mais tempo. “Este método exige mais tempo e, por isso, fechamos apenas em agosto”, justifica a coordenadora pedagógica. Por outro lado, os períodos convencionais de férias não existem. “Cada família leva a criança de férias quando lhe dá jeito e isso não a prejudica porque cada uma tem o seu ritmo e o seu plano individual”, explica Cátia.

Outra questão que assume especial importância neste método é o lado humano e social. “Queremos que as crianças aprendam a matéria de forma relevante e que saiam daqui seres humanos”, nota José Borralho. Uma das ferramentas utilizadas para desenvolverem esse lado é a ida semanal ao lar da terra. “É bom não só pelo encontro de gerações, mas também porque muitas destas crianças não estão habituadas a estar com pessoas mais velhas. Ficam tensas e envergonhadas, e aprendem a lidar com isso. É uma oportunidade de trabalhar essas questões sociais”, assume Cátia.

Na parte da manhã, os alunos aprendem, cada um ao seu ritmo, as suas competências. A matéria está organizada por disciplinas, em dossiês guardados nas estantes da sala, ao alcance de todos. Cada dossiê exibe o número um ou dois – correspondente ao grupo de iniciação ou ao de desenvolvimento. Lá dentro, os tópicos da matéria estão organizados e as crianças seguem as indicações. Para realizarem as tarefas tanto recorrem a livros como à escola virtual ou a jogos. “No roteiro 1 de Português, por exemplo, para eles conseguirem trabalhar de uma forma autónoma, existem símbolos de correspondência entre o que está no dossiê e as tarefas propriamente ditas. Para aprender o dê, sabem que começam com um jogo porque veem o símbolo. E o primeiro contacto com essa letra é a imagem que expressa uma palavra que a contenha, como dado, por exemplo. A segunda tarefa é aprender a desenhar a letra. E por aí fora. Claro que têm muito mais vontade assim do que se ficarem manhãs inteiras a repetir letras”, explica Cátia.

Quanto aos trabalhos de casa, são combinados entre a escola e a família. “Há famílias que não querem, outras que sim, outras que querem só de uma disciplina”, conta Cátia. “Enquanto tutoras, estamos atentas, e se acharmos que as crianças precisam de trabalhos de casa avisamos.” Além de Cátia, há outra tutora, Luísa Paços, 43 anos.

E também é assim com os testes? “Não”, responde a tutora. “Claro que há testes, até porque as crianças têm de estar preparadas para tudo, para não se sentirem desconfortáveis. ‘Vou treinar’ é a expressão que utilizamos. E esse treino tem um objetivo muito específico: ver o que eles precisam de treinar mais para saberem melhor, e não fazer a avaliação num sentido competitivo e para ver quem sabe mais.”

Quando chegam ao final do percurso – depois de completarem todos os objetivos dos grupos de iniciação e de desenvolvimento –, as crianças passam para o ensino público e são submetidas a um exame para testar conhecimentos antes de ingressarem no quinto ano.

Por mensalidade, a escola cobra 245 euros. As inscrições para o próximo ano letivo estão abertas até 31 de julho.

A sala mágica Ao lado da sala principal existe outra sala conhecida como sala mágica. “É uma sala onde nos reunimos para conversar, por exemplo”, esclarece a tutora Cátia.

A sala é um elemento determinante no desenvolvimento humano das crianças. Quando existe um conflito entre elas, e se não têm coragem de confrontar o outro no momento, é aqui que expõem as suas mensagens, que podem ser preocupações ou pensamentos. Mas é aqui que partilham também as suas alegrias.

Para tudo isso existe um quadro de cortiça dividido entre uma carinha sorridente, um envelope – que significa que a mensagem é secreta e destinada apenas a uma pessoa – e uma carinha triste. Às crianças, basta-lhes que coloquem a sua mensagem no sítio certo. “Eu gostei muito de vir para esta Skool”, lê-se num dos bilhetes, assinado pela Alice.

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