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Festival de Teatro de Almada. Reagir para não chorar

Festival de Teatro de Almada. Reagir para não chorar

DR Davide Pinheiro 02/07/2018 20:42

Os cortes da Direção-Geral das Artes deixaram em risco o Festival de Teatro de Almada, o mais importante do país, mas a intervenção (financeira) da autarquia salvou-o do sufoco. Em “ano de grandes dificuldades”, reconhece o diretor da Companhia de Teatro de Almada, Rodrigo Francisco, há quatro estreias entre uma dezena de produções de companhias nacionais. De 4 a 18 de julho, o festival centra-se em Almada mas expande-se até salas lisboetas

Bigre – Mélo Burlesque

O povo também ordena e, no ano passado, escolheu a peça “Apre – melodrama burlesco” como Espetáculo de Honra. A encenação da companhia francesa Le Fils du Grande Réseau, de Pierre Guillois, abre de novo a programação do Festival de Almada, no Palco Grande da Escola D. António da Costa. A gargalhada parte de três habitantes de um
prédio suburbano que vivem a sua insignificância com episódios bem inesperados e caricatos. No ano passado recebeu o Prémio Molière para Melhor Comédia. E, além da função essencial de fazer rir durante hora e meia, tem elasticidade necessária para, a espaços, forçar a comoção. Apresentação a 4 de julho pelas 22h00.

Nada de mim

Produção dos Artistas Unidos em cena no Teatro da Politécnica em Lisboa, de 5 a 18 de julho, com encenação de Pedro Jordão e interpretação de Carla Bolito, Pedro Caeiro, Elisabete Pinto e Tiago Matias. “Um jogo de espelhos ou uma história de fantasmas”, introduz a sinopse. “Uma mulher madura e um homem mais novo que se mudam para um apartamento vazio. (...) Ali, o futuro já não existe e o passado está sempre a mudar, mas é radicalmente presente o confronto entre estes dois amantes, e de cada um consigo, e de ambos com o que veio antes – uma mãe, um filho, um marido, outras casas. E o perigo”, questiona--se na peça.

Lulu

Produção do Teatro Nacional São João, no Porto, para a temporada 2018, é o manifesto de uma mulher livre na sua sexualidade contra o sistema capitalista patriarcal. Lulu nem sempre é Lulu. Às vezes é Nelli, ou Eva, ou Mignon. Às vezes é uma esposa domesticada, outras é uma mulher infiel e devassa.  É esta versatilidade que explica porque é que a “femme fatale” de Frank Wedekind fascinou NunoCardoso, para quem a chave para a leitura desta tragédia pode ser encontrada na ferocidade descrita pelo dramaturgo Edward Bond. “É sobre sexo, dinheiro e violência: a história profética do capitalismo.” Dias 5 e 6  às 21h30 e 19h00.

Colónia Penal

Texto de Jean Genet com encenação de António Pires. Peça inacabada em que o autor reconstitui, em estilo biográfico, a sua própria experiência da vivência prisional. Não existem atos, mas sim uma sucessão de cenas ligadas entre si pela presença constante de personagens marginais que convivem, no meio do deserto, com os guardas e os administradores da prisão. Na história, Genet utilizou várias formas de linguagem: desde a poesia à prosa, passando pelo guião cinematográfico. A contaminação entre as várias formas de escrita inclui, portanto, o cinema. João Botelho realizou um “Quadro das vítimas”. No Teatro do Bairro de 5 a 17 de julho.

Kalakuta Republik

Kalakuta Republik foi o nome com que Fela Kuti batizou a sua casa. A cela em que  esteve preso pela primeira vez chamava-se justamente Kalakuta. Espetáculo coreográfico de Serge Aimé Coulibaly inspirado no saxofonista, ativista, precursor do afrobeat e opositor aos governos repressores em África. O espírito de Fela é o fio condutor de toda a performance. Contudo, este espetáculo não é uma biografia, é um estudo coreográfico emocionante de como o envolvimento artístico pode interferir a nível político. Um pedaço de África sem clichés, anuncia-se, e um êxito no Festival de Avignon. Para ver a 6 de julho pelas 22h00 na Escola D. António da Costa.

Philip Seymour Hoffman, par exemple

45 papéis desempenhados pelos cinco atores belgas estão em constante mutação. E o que tem o ator a ver com tudo isto? Diretamente, nada. Mas numa das histórias especula-se, por exemplo, como seria se os produtores do filme que Hoffman gravava quando se suicidou, em 2014, decidissem terminar a obra recorrendo a um avatar 3D. Texto do dramaturgo argentino Rafael Spregelburd, conhecido do festival por peças como “A Estupidez”, interpretado pela companhia belga Transquinquennal, que desde 1989 estreou 44 espetáculos e tem fim marcado para 2023. A 10 de julho pelas 22h00 na Escola D. António da Costa. 

Carmen

“Uma forma de homenagear a atriz de 94 anos, que se estreou no Trindade”, explicou Diogo Infante na conferência de imprensa de apresentação do festival. Imaginado após a publicação da autobiografia da atriz, “Vozes Dentro de Mim”, é um tributo do encenador a Carmen Dolores a estrear-se noTeatro da Trindade a 12 de julho, onde se manterá em cena até dia 15. Em cena, Natália Luiza será o veículo das várias vozes (presentes e passadas). Essas vozes são as das personagens de um lastro  teatral com quase 70 anos que dialogam com a mulher e atriz. As memórias e reflexões de “Carmen” são tão acutilantes e sinceras como sarcásticas.

A meio da noite

No dia do centenário da morte de Bergman, Olga Roriz apresentará no Palco Grande da Escola D. António da Costa o seu espetáculo de homenagem ao realizador. “A meio da noite” aborda, segundo explica, “a temática existencialista de Bergman, sendo simultaneamente uma peça sobre o processo de criação, numa procura incessante de si próprio e dos outros.” A coreógrafa encontra um paralelismo entre o seu percurso e a obra do realizador. A complexidade humana explorada nos filmes é praticada por Olga Roriz na dança. Na base desta criação está uma viagem à ilha de Fårö, na Suécia, onde Bergman viveu os últimos 20 anos de vida e foi sepultado.
 

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