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Alexandra Duarte 02/07/2018
Alexandra Duarte

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Quem vai tomar conta dos nossos filhos nas férias: gadgets, televisão ou consola?

Muitas crianças ficam em casa gerindo o seu próprio tempo, até que os pais cheguem. A companhia eleita para que o dia passe mais depressa é quase sempre a consola, o iPad, o computador, a televisão ou o telemóvel

Começaram as férias grandes. A alegria dos filhos é o desespero de muitos pais que veem no tempo livre dos filhos uma preocupação, por terem de encontrar formas de os manter ocupados e acompanhados, enquanto eles continuam a trabalhar.

As ofertas no mercado para entreter as crianças até aos 12, 14 anos são diversas; o que já não é diverso é o custo associado a programas semanais de atividades que podem ir desde a prática de desportos até a programas mais culturais ou mesmo de aprendizagem de uma língua estrangeira. Nem todos os pais têm capacidade financeira para optar por um programa de férias para os filhos que lhes permita continuarem a trabalhar descansados enquanto não chega o dia em que começam as férias de toda a família.

Muitas crianças ficam, por isso, em casa, gerindo o seu próprio tempo, até que os pais cheguem. A companhia eleita para que o dia passe mais depressa é quase sempre a consola, o iPad, o computador, a televisão ou o telemóvel. Mas não é só nestes dias e nestas situações que estes instrumentos são solicitados, fazendo parte integrante da vida destas gerações dos millennials.

São cada vez mais os estudos que alertam para o vício e dependências que estas tecnologias podem suscitar nos nossos filhos, para além dos atrasos cognitivos e do défice de atenção que resultam em complicações na aprendizagem, não esquecendo que podem vir a ser crianças que têm dificuldades em lidar com sentimentos como a raiva ou a frustração. A par destas implicações, não esqueçamos a obesidade infantil e a privação do sono, em casos mais extremos.

Quem tem filhos adolescentes sabe bem o desafio que enfrentamos no momento em que nos apercebemos que uma noite, à nossa revelia, o telemóvel não ficou no lugar previamente acordado, ou que o nosso filho está online quando já devia estar no segundo sono. Torna-se uma batalha diária e com muita “teoria da estratégia” à mistura, que vai desde a negociação à aplicação de sanções – um desassossego a acrescentar a muitos outros, próprios desta fase do crescimento, e que pode provocar ainda mais tensão na relação entre pais e filhos.

Mas não é na adolescência ou nas férias que as nossas crianças descobrem os gadgets e as redes sociais, ou jogos como o Free Fire e o Minecraft.

Apesar do que os pediatras e os psicólogos recomendam, as crianças convivem com esta realidade desde muito cedo, muitos ainda antes da idade escolar. O uso controlado e supervisionado de telemóveis tem sido aconselhado somente a partir dos 12 anos; contudo, não é raro vermos crianças de três e quatro anos “sossegadinhas”, com o dedo em riste, a olharem para o ecrã colorido e animado de um tablet ou de um smartphone. As consequências? São inúmeras, quando não há controlo do tempo de utilização. As crianças estão sempre em modo de alerta, sem conseguirem desen-volver capacidades para parar o cérebro e ficarem quietas, sem fazer nada. É importante conseguir estar sem fazer nada porque é nestes momentos que a criatividade acontece, que nos recolhemos ao nosso interior, que refletimos sobre o que se passa à nossa volta e retomamos o nosso caminho. Dificilmente se pode esperar que uma criança que não tenha esta capacidade consiga estar numa sala de aula a aprender e a sistematizar a informação. Tudo a levará a dispersar-se porque o seu cérebro está ávido de informação rápida e estimulante, idêntica à que o alimenta sempre que está em frente a um ecrã a jogar ou numa rede social. Até mesmo neste contexto, a velocidade da informação é determinante para captar a atenção do utilizador: as mensagens mais longas ou sem imagens são mais improváveis de serem lidas do que aquelas mais objetivas e de leitura imediata, para passar à seguinte. Digamos que se treina o cérebro para mais quantidade do que para a qualidade da informação.

Assim estão as nossas crianças a crescer, dentro de todas estas fronteiras ainda desconhecidas e com impactos que só agora começam a desvendar-se, perante a inabilidade dos pais em dar outro rumo a uma adição silenciosa já instalada. Por estas e outras razões mais graves, a OMS veio classificar os distúrbios com os videojogos como uma doença mental.

Não é fácil, às vezes nem mesmo para os adultos, controlar esta tendência tão sedutora e inebriante e que dá tanto jeito em certos momentos – um “babysitting” sempre disponível que proporciona momentos de silêncio onde há confusão. Um silêncio que é sinónimo de afastamento, de alheamento, de vício, de descontrolo e até de solidão.

As férias estão aí… tempo e mais tempo para outros jogos, outras atividades, novas responsabilidades que se podem aprender, livros que contam histórias deste mundo e do mundo da fantasia, joelhos que se esfolam num jogo de bola disputado, tempo para nada fazer ou tempo para ficar a pensar no que se pode fazer…

 

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