10/4/20
 
 
Moscovo. A PIDE, os pauliteiros de Miranda, o galheteiro e Lagardère
Jacinto João, uma das grandes figuras do Vitória de Setúbal, marcou um dos golos dessa primeira vez que um clube português defrontou um soviético para as taças europeias

Moscovo. A PIDE, os pauliteiros de Miranda, o galheteiro e Lagardère

Jacinto João, uma das grandes figuras do Vitória de Setúbal, marcou um dos golos dessa primeira vez que um clube português defrontou um soviético para as taças europeias DR Afonso De Melo Em MOSCOVO 29/06/2018 21:21

Em 1965, o Benfica foi convidado para ir à URSS, mas foi proibido pelo governo. Seria o V. Setúbal a primeira equipa portuguesa a pisar um relvado soviético

Portugal, isto é, a seleção nacional, só jogou pela primeira vez em Moscovo em abril de 1983, nove anos após o 25 de Abril, longe, portanto, do tempo em que os apparatchiks lambiam os beiços gulosos do molho que era servido com as criancinhas à hora dos pequenos-almoços. Tinha havido aquele Portugal-URSS em Wembley, em 1966, mas fora em campo neutro, não entrava para o rol dos complexos que separavam inequivocamente os dois regimes.

Aliás, essa tal viagem de 1983 terminou num massacre dentro de campo (5-0 para a União Soviética), com a lesão definitiva de Humberto Coelho e com as queixas de Bento em relação à porcaria da comida que lhe tinham posto no prato e que lhe valeria a pilhéria de ter acordado, certa manhã, com um fardo de palha à frente da porta de casa. Como se vê, nanja que comunista não possa ter sentido de humor. Não é incompatível nem exige depuração.

No dia 20 de outubro de 1971, a imprensa portuguesa dava à estampa com certa dose de sensacionalismo: “A primeira equipa de futebol portuguesa a pisar um relvado soviético!” Era o Vitória de Setúbal.

Seis anos antes, o Benfica tinha sido convidado para jogar em Moscovo um jogo particular, frente ao Spartak, em troca de um elevado cachê, mas o governo de António Oliveira Salazar achou tal viagem não fazia sentido. Que ia o Benfica fazer a um país com o qual Portugal não tinha relações diplomáticas? Não foi. Não foi o Benfica, não foi a Amália Rodrigues, nem a Fernanda Maria, nem o Carlos Ramos, nem os pauliteiros de Miranda, todos convidados pela agência soviética InTourist para que se levasse a cabo um intercâmbio cultural.

PIDE metida ao barulho, Albino André, o responsável pela Turexpresso, que tratava das viagens dos encarnados, foi interrogado para se perceber, preto no branco, como surgira a ideia mirabolante, e a direção do clube da Luz com uma atitude desafiadora: “É nossa intenção manter intercâmbio desportivo com clubes de todo o mundo!”

Vitória Não foi o Benfica, foi o Vitória de Setúbal, sorteado para defrontar o mesmo Spartak de Moscovo depois de ter afastado o Nîmes na eliminatória inicial da Taça UEFA de 1971-72.

Na segunda mão, no Bonfim, a abarrotar com cerca de 40 mil pessoas (afinal, não era todos os dias que havia exibições do Circo Moscovo!), os setubalenses venceram facilmente um adversário que também (quem diria?) viria a queixar- -se pela forma como foi recebido. Quatro a zero: dois golos de José Torres, um de Octávio e outro de Jacinto João, decidiram a peleja.

A primeira mão fora lá.

Temia-se o frio moscovita e as temperaturas desceram até aos sete graus negativos – para os sadinos, mesmo muito negativos. Ao contrário do que aconteceria com os portugueses, os russos estiveram-se nas tintas para essa equipa que vinha lá das areias da Ocidental praia. Não foram mais de 10 mil os espetadores que arrostaram com a tarde agreste e se sentaram no Estádio Lenine que suportava, à época – ainda não se chamava, como agora, Luzhniki (onde se jogará a final deste Campeonato do Mundo) –, cerca de 100 mil pessoas. A estátua de Vladimir Ilitch Ulianov, essa, estava lá tal como está agora. E bem imponente.

“Toi, Vladimir Ilitch, est-ce qu’au moins tu frissonnes/ En voyant les tiroirs de la bureaucratie ?”, cantou Michel Sardou. Burocrático: eis como se poderia classificar o tal primeiro jogo de uma equipa portuguesa sobre um relvado soviético.

Um zero a zero muito a zero.

Os moscovitas eram treinados por Nikita Simonian, um antigo internacional de renome, e tinham gente como Osianin e Mirsejev na frente, além de um guarda-redes de truz chamado Kavazetchi. Matine, Octávio e José Maria faziam um trio de meio-campo que parecia um galheteiro, mas deram conta do recado. O mestre Mário Zambujal, que esteve no Estádio Lenine, registou: “Os adeptos do Spartak escutaram de pé o nosso hino. E alguns confraternizaram, nas bancadas, com as dezenas de portugueses que foram, nesta volta da bola, acompanhar a equipa. Trocaram-se cigarros, emblemas e abraços. Só faltou trocar cartões--de-visita.”

O Vitória de Setúbal fora à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas! Merecia ponto de exclamação. Depois, em casa, Lagardère (como Pedroto chamava a Torres) saltou mais alto que a torre do Kremlin.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×