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António Luís Marinho 29/06/2018
António Luís Marinho

opiniao@newsplex.pt

O populismo, em nome do povo

Quando reclamam a exclusividade da representação popular, os populistas, de facto, assumem-se como adeptos do totalitarismo

“O povo só pode aparecer no plural.”
                                       
Habermas

Os recentes acontecimentos no Sporting, mais do que serem apenas vistos como uma tragicomédia, merecem uma reflexão profunda sobre um fenómeno que ainda não marca a política portuguesa, mas que já invadiu o futebol profissional: o populismo.

Vale a pena, por isso, estarmos atentos.

O denominado populismo tem sempre na sua génese um “chefe carismático”, alguém que se afirma contra as instituições vigentes, em nome do povo de quem afirma ser o único representante.

É, pois, em nome dessa entidade abstrata, o povo – ou os sócios, na linguagem futebolística –, que os candidatos a chefes totalitários ganham apoios e, por via deles, poder.

E, invariavelmente, depois de conquistarem o poder, querem-no todo, absoluto.

Na verdade, o populismo nasce e cresce à conta das fragilidades do sistema democrático e, sobretudo, da política tradicional, cada vez mais afastada dos eleitores.

O politólogo paraguaio Benjamin Arditi criou uma imagem para estabelecer a relação entre democracia e populismo:

“O populismo parece-se a um convidado bêbado num jantar: não está a respeitar as regras de etiqueta, é malcriado, pode mesmo começar a meter-se com as mulheres dos outros convidados; mas também pode estar a dizer despudoradamente verdades sobre uma democracia que se tornou esquecida do ideal da soberania popular.”

A razão que levou os sócios do Sporting a rejeitar um populismo galopante e delirante deve ser a mesma que leve os cidadãos a excluir um discurso que apela ao ressentimento e à frustração como fundamento para uma representatividade baseada num povo “moralmente puro e unificado”.

Quando reclamam a exclusividade da representação popular, os populistas, de facto, assumem-se como adeptos do totalitarismo, confundindo deliberadamente uma parte com o todo.

Será sempre bom desconfiar daqueles que falam em nome do povo sem que a maioria lhes tenha conferido esse mandato, ou dos que se agarram desesperadamente ao poder em nome de uma maioria que já não existe.

 

Jornalista

 

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