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Kamasi Washington. Desempoeirar o jazz

Kamasi Washington. Desempoeirar o jazz

DR Davide Pinheiro 28/06/2018 18:16

Foi música de dança, emancipou e transformou a cultura afro-americana, regenerou-se e foi usado como matéria-prima mas, nas últimas décadas, o jazz foi interdito das ruas e perdeu a capacidade de comunicar. Kamasi Washington lidera uma geração de renovadores que o resgata dos livros

Não tem de haver um início e um fim nesta história mas há cenas que antecipam os próximos capítulos. E quando Kendrick Lamar deu um pontapé nas probabilidades e escolheu fazer de “To Pimp a Butterfly” um megafone das ruas com banda sonora de matéria negra recolhida no jazz e no funk, não escolheu só subverter as convenções digitais de inspiração sulista que passaram a dominar o hip-hop. Optou por voltar às bases, rodeando-se de alguns dos que a reinventavam. E entre esse grupo restrito de iluminados, estava KamasiWashington, saxofonista de Los Angeles com a escola toda de Miles Davis, John Coltrane e dos mestres da fusão Weather Report, que, na Califórnia, crescera a ouvir o rap gangsta dos N.W.A. – o clássico “Straight Outta Compton”, de 1988, é um dos álbuns da sua vida. 

Nascido em 1981, cresceu numa era pré-Internet sem tutorais de YouTube e tanto aprendeu com o trompetista Gerald Wilson, como com conhecido músico Raphael Saadiq, como absorveu o verbo de Snoop Dogg. E do pai Rickey, também ele um músico de jazz, herdou o gene. Sob o sol da Califórnia, fundou, os Young Jazz Giants com o pianista CameronGraves e os irmãos Ronald (baterista e Stephen Bruner (baixista, mais tarde conhecido como Thundercat – membro da Brainfeeder de Flying Lotus, fulcral para o romance do jazz com as novas arquiteturas do hip-hop via eletrónica experimental). Há um único álbum do coletivo, de 2004, hoje uma peça em processo gradual de redescoberta.

Por ingenuidade ou pretensão, o quarteto adivinhou o futuro.

O impacto e visão de “To Pimp a Butterfly” chamaram de tal forma a atenção que “The Epic”, editado apenas dois meses depois a 5 de maio, foi uma Nossa Senhora da Reaparição. A do jazz, há tantos anos fechado nos livros e nos conservatórios, refém dos intelectuais e do neo-conservadorismo elitista de cidade, era devolvido às ruas. E voltava a dar sentido à música enquanto ato comunicativo e expressão criativa democrática. Para multidões ou pequenos círculos restritos, já é uma consequência e não uma causa.

E músicos como Kamasi Washington cresceram com essa visão desempoeirada e livre em que o jazz pode conviver com o universo dos videojogos. Heresia! O vídeo de “Street Fighter Mas”, estreado na semana passada, é um tributo ao jogo em que se achava o maior da galáxia. O consolo, e não a consola, seria o saxofone, na solidão do quarto, mas agora “o jazz está a sair do isolamento”, defendeu em entrevista à “Fader”. “Não sou a favor da ideia de divisões musicais, porque quando ouço rock, escuto ligações ao funk e ao jazz. A música americana vem da mesma árvore, mas às vezes há momentos da história em que esquecemos de onde as coisas vêm e as compartimentamos”, justificava à revista em pleno Coachella onde Beyoncé haveria de dar espetáculo com elementos sonoros como uma “secção de metais”, usava Kamasi Washington como exemplo.

“Heaven and Earth”, o titânico novo álbum tem 124 minutos. Duas horas e quatro minutos de transcendência, espiritualidade, transformação e...sentido de humor (sim, o jazz não precisa de ser superior e carrancudo). E segue-se ao não menos espesso “The Epic” de 173 minutos, ou seja três horas menos sete minutos, de 2015, e ao mini-álbum “The Harmony Of Difference”, do ano passado. Ambos recebidos em delírio xamânico, ou não estivessem a repisar terra que nunca esteve queimada. 

Sobre subversão de regras, o pai Rickey recordava em palestra na Red Bull Music Academy de Bonnaroo que “quase toda a gente duvidava que um disco do Kamasi resultasse por ter solos de 11, 13 e 15 minutos”, quando “não é isso que acontece” num mundo de “hip-hop de dois minutos e meio”. Mas o céu desceu à Terra – ou foram os pés que se soltaram do chão – com a monumentalidade de uma orquestra clássica, a visão espiritual de Alice Coltrane, os ideais transformadores de Herbie Hancock, a perfeição formal das pautas e a liberdade de quem brinca. A sério mas sem nunca deixar o recreio. 

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