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1924-1928. Sobrevoando a Europa num lindo balão azul-celeste

1924-1928. Sobrevoando a Europa num lindo balão azul-celeste

Afonso De Melo em Penza 28/06/2018 11:44

Antes de haver Mundiais, eram os torneios olímpicos que marcavam a diferença. O velho mundo com a habilidade única dos uruguaios

Quando, em abril de 1896, se disputaram os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em Atenas, o futebol era um parente menor de todos os outros desportos. Tanto assim que os registos sobre o torneio desse ano desapareceram quase por completo. Sabe-se que estiveram em Atenas um selecionado dinamarquês, uma equipa formada por jogadores da cidade de Esmirna, na Turquia, e, como não podia deixar de ser, uma seleção representativa da capital grega. Tem-se como certo, apesar de não muito, que a vitória da Dinamarca sobre o conjunto de Esmirna por 15-0 representou a final da competição e a medalha de ouro (só a medalha de ouro foi entregue) atribuída aos nórdicos parece confirmá-lo.

Em St. Louis, em 1904, foi a vez do Galt FC, de Ontário, representando o Canadá, arrecadar o ouro, depois do confronto com dois representantes dos Estados Unidos, o Christian Brothers College e o St. Rose Kickers.

Em 1906, nas Olimpíadas intermédias de Atenas – ainda estavam os gregos convencidos de que poderiam organizar os seus próprios Jogos Olímpicos de quatro em quatro anos, alternando com os jogos convencionais –, já os participantes foram quatro: a Dinamarca, um selecionado de Esmirna, outro de Atenas e ainda outro de Salónica. Vitória do conjunto turco, encerrando esta fase “pré- -histórica” e incipiente do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos.

Londres e o Estádio de White City viram enfim nascer oficialmente, em 1908, o Torneio de Futebol Olímpico. A participação foi restringida a cinco países e exigia-se a presença de verdadeiras representações nacionais. A Inglaterra sairia vencedora, batendo a Dinamarca na final (2-0), cabendo a medalha de bronze à Holanda. O futebol conquistava importância nos Jogos e na edição seguinte, em Estocolmo, durante o mês de junho de 1912, já era um dos principais polos de atração, suscitando um enorme interesse no público, que se deslocou em massa ao novo Stockholms Stadiom, ao Traneberg-Sportplatz e ao Rasunda. Inglaterra e Dinamarca repetiriam a final anterior, com nova vitória dos ingleses (4-2), enquanto a Holanda esmagava (9-0) a Finlândia no jogo pela medalha de bronze. Mas foi o Alemanha-Rússia o jogo mais falado da competição: os alemães venceram por 16-0 e o avançado Fuchs cometeu a proeza de apontar dez (!) golos.

Sul-americanos A I Grande Guerra viria a interromper brutalmente um torneio que começava a ganhar a dimensão de um verdadeiro campeonato do Mundo. Foi preciso esperar por Paris-1924 e Amesterdão-1928 para se chegar a expoentes máximos da qualidade do jogo na época, sobretudo por via da presença das seleções sul-americanas, que deslumbraram a Europa com um estilo de futebol nunca visto até então a leste do Atlântico. A fama desse futebol bailado e musical espalhou-se como fogo em campo de palha seca, mantendo-se viva pelas décadas que se seguiram.

Chegados à Europa de navio com bilhetes de terceira classe, os uruguaios realizaram em Espanha nove encontros de preparação para os Jogos Olímpicos e venceram-nos todos. Em Paris, a história repetia-se: 3-0 aos Estados Unidos com três golos de Petrone. O escritor Henry de Montherlant, que fora também desportista e especialista dos 100 metros, escreveu: “Uma revelação! É este o verdadeiro futebol! Aquele que nós conhecíamos, aquele que nós jogávamos. Comparado com isto, tudo o resto não passa de um divertimento para estudantes.”

O Uruguai venceria com certa facilidade um campeonato disputado já por 22 equipas e repetiria o feito quatro anos depois, ganhando a aura de melhor seleção do mundo – confirmada com o arrebatar, em 1930, do primeiro título mundial – e o epíteto de Celeste Olímpica, graças ao azul-claro das suas camisolas. Héctor Scarone, El Mago ou o Gardel del Fútbol, que nos treinos entretinha o público fazendo tombar garrafas de água à distância com pontapés certeiros, e Pedro Cea eram duas das grandes estrelas uruguaias. As suas tabelinhas, os seus zigue-zagues, os seus dribles surpreendentes lançavam a desorientação entre as defesas contrárias. Na estreia, no Estádio de Colombes, a vítima chamou-se Jugoslávia. Resultado: 7-0. Os apaixonados pelo jogo começavam a saber de cor o nome desta gente que parecia capaz de o reinventar e de lhe dar outro brilho: Arispe, o talhante, José Nasazzi, o pedreiro, Perrucho Petrone, o vendedor de legumes, José Leandro Andrade, a Maravilha Negra, o limpador de fatos.

Frente à França, nos quartos-de-final, Andrade recebeu uma bola a meio do campo, levantou-a para a cabeça e com ela equilibrada na testa correu durante mais de 3 metros em direção à baliza contrária para a deixar depois cair no caminho de um remate fulminante que não deu golo por pouco. Nas bancadas, o público arregalava os olhos de espanto e soltava “oooohs!” de incontida admiração. Scarone (2), Petrone (2) e Romano assinavam mais uma vitória sem discussão: 5-1. Apenas a meia-final, face à Holanda (2-1), inquietou os uruguaios que, na final, voltaram a vencer folgadamente (3-0), agora a Suíça. Os Jogos acabavam em glória para a Celeste. Andrade deixou-se ficar por Paris, tornando-se durante meses um boémio frequentador de cabarés, um príncipe de Pigalle, de sapatos de verniz e casacos de pele, frequentador habitual das colunas sociais. Nunca deixou de ser a Maravilha Negra.

 

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