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Uruguai. Do alto do Bom Gigante com vista para a Celeste

Uruguai. Do alto do Bom Gigante com vista para a Celeste

DR Afonso de Melo em Penza 27/06/2018 18:30

No dia 17 de junho de 1966, no Jamor, sob um calor ofuscante, Portugal e Uruguai defrontaram-se pela primeira vez. Vitória lusitana: 3-0

E, com a naturalidade própria das reviravoltas do futebol, os minutos finais do Portugal-Irão de Saransk e do Espanha-Marrocos de Kaliningrado ditaram uma outra realidade, diferente da que se ia desenhando durante a tarde. De repente, não mais que de repente, como no “Soneto da Separação” de Vinicius de Moraes, os lusitanos são atirados para Sochi e para os braços de um Uruguai que tinha acabado de sovar (3-0) uma até aí muito consistente Rússia, que parecia capaz de se apresentar com determinação e ambição no Mundial de que é anfitriã.

No próximo sábado, portugueses e uruguaios defrontam-se pela terceira vez na sua história. A primeira, relembramo-la aqui, foi num jogo de preparação para o Campeonato do Mundo de 1966, em Inglaterra. Ambos se tinham apurado para a fase final. O selecionador nacional, Manuel da Luz Afonso, era obcecado pelos pormenores. Tendo o Brasil como opositor na fase de grupos, em Manchester e Liverpool, teimou em defrontar uma seleção da escola sul-americana. A escolha recaiu sobre o Uruguai que, três dias antes, tinha imposto à Espanha, em Madrid, um empate meio inconclusivo (1-1).

Lisboa, fagueira, sempre pronta para festanças, encheu-se de entusiasmo e curiosidade. OUruguai é sempre nome que traz consigo o eco de um estilo no qual se mistura a elegância com a brutalidade e devolve-nos à lembrança gente como Schiaffino, Obdulio Varela, Ghiggia, ou José Leandro Andrade, a Maravilha Negra que se transformou em bailarino, emParis, dançou com Josephine Baker e foi amante de Colette, essa inesgotável escritora de Saint-Sauveur que ganhou o Prémio Nobel.

No domingo, 26 de junho, as bancadas de pedra do Jamor estalavam de sol. O público que rodeava o relvado impecável, fugia para as sombras escassas como vampiros aflitos com medo de expor às escâncaras as suas vulnerabilidades.

Cedo, as acontecências, ganharam sentido único. Portugal atacava e o Uruguai não. Teimosos, desconfiados, os rapazes da foz do Rio da Prata, juntavam-se uns aos outros como uma alcateia de lobos que fareja o perigo da pólvora.

Não tinham nomes lustrosos: Mujica, Esparrago, Sacia, o capitão.

Eusébio era grande, como sempre.

Torres, o Bom Gigante, não era, por seu lado, apenas grande de tamanho: trazia com ele uma magnitude de alma indizível e uma sede inesgotável de golos.

Faria os três nessa tarde sufocante.

Três-a-zero: um triunfo que prometia. E ainda ninguém adivinharia sequer aquilo que os Magriços seriam capazes de fazer nos campos imaculados de Inglaterra...

Logo aos sete minutos, funcionou uma jogada ensaiada, repetida até à exaustão, no Benfica e na equipa das quinas: canto de Eusébio, José Augusto salta na frente do guarda-redes, atrapalha-lhe a visão, este sacode a bola para a frente e Torres, de cabeça, mete-a na baliza vazia.

O céu parecia ferver, lá no alto.

O sol parecia estar a cair sobre as cabeças dos espetadores em raios ebulientes e ofuscantes.

Lentidão. Não era possível jogar-se a alto ritmo. A lentidão tomou conta das pernas e das cabeças. O jogo decaiu de qualidade, mas os portugueses não deixavam fugir a sua superioridade quase natural.

O árbitro concedeu 20 minutos de intervalo. Água! Água!, pareciam gritar todos como se estivessem perdidos no meio do deserto do Kalahari.

Entre a modorra pastosa do segundo tempo, Torres marcou mais dois golos. Aos 55 minutos, outra vez de cabeça, a concluir um livre de Simões; oito minutos mais tarde, de recarga, em voo, a uma bola chutada por Eusébio com tanta fúria que fez abanar toda a estrutura da baliza de Taibo.

José Torres espatifara a Celeste Olímpica, esse epíteto orgulhoso do qual os uruguaios se ufanam como se se tratasse de um apelido afidalgado. Depois, com dores no pescoço de tanto cabecear, foi substituído por Figueiredo. O Uruguai, duas vezes campeão do Mundo, saíra de Lisboa vergado ao peso de uma derrota absolutamente esclarecedora. Recuperaria a soberba quando, no dia 11 de julho, em Wembley, no jogo inaugural do Campeonato do Mundo, impôs aos britânicos um irritante zero-a-zero, assim muito noves fora zero.

Portugal estava à beira da maior aventura da sua história futebolística. A lenda dos Magriços via escreverem-se as primeiras linhas. Com a pena enfunada como vela de galeão do Raposão do divino Eça.

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