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Manuela Gonzaga. António Variações é pr’amanhã e depois, e depois...

Manuela Gonzaga. António Variações é pr’amanhã e depois, e depois...

Teresa Carvalho 27/06/2018 15:46

Manuela Gonzaga reviu e ampliou a biografia do homem estranhamente popular que cantava com a urgência do inadiável. Estava esgotada há vários anos. O resultado é um volume exemplar, nada preocupado com essa ideia da virtude que produz panegíricos enfadonhos.

António Joaquim Ribeiro, o Variações, tinha a duplicidade que complica as coisas e torna interessantes certas existências. Exuberante e discreto, arrojado e tímido, expansivo e secreto, desabrido e delicadíssimo, magnético, atravessou como um meteoro o Portugal pasmado, escuro, de brancas  peúgas, pouco tolerante a adereços estranhos e objectos ao dependuro.  

Ave raríssima lhe chamaram, difícil de catalogar, de enquadrar, de encaixar, difícil até de descrever. Numa curiosidade insaciável, às vitrinas do primeiro salão de cabeleireiro unissexo do país, de Isabel Queirós do Vale, onde exerceu com enorme sucesso a sua profissão de barbeiro (sempre recusou o título de cabeleireiro) afluiu um rio de gente para ver e fotografar a sua figura exótica. Como conta Manuela Gonzaga, que conheceu Variações em 1982, de um mero lençol, de peças de lona de toldos de praia extraia modelos nunca vistos que faziam arremelgar os olhos do Portugal pequenino do cu da Europa, pouco habituado a cortes ao arrepio das tendências, a cores insolentes. Vistoso, fazia parar o trânsito ao descer a Avenida da Liberdade, vestido de branco, chapéu colonial e papagaio colorido de madeira encarapitado no ombro. Um sapato de cada par, uma meia de cada cor, como se a sua figura fosse incapaz de acertar com as regras do bom uso e do bom-tom. E depois havia as botas cardadas, as invernosas pantufas de feltro e roupão aos quadrados, a fazer as vezes do sobretudo – tudo a compor um “espectáculo público, gratuito e fascinante”. Na festa “Depois do Modernismo”, em janeiro de 1973, Variações caprichou: collants, rede de capoeira moldada à camisola, onde vinham fixar-se fechaduras e dobradiças de portas, cadeados, numa aparatosa toilette de fazer saltar os parafusos ao mais férreo pós-modernista. Um fenómeno.

Com a tesoura celebrou um pacto: “a tesoura ganha para a música”. E o som da tesoura fez-se ouvir na sua própria barbearia, "É pró menino e prá menina". Era ainda antes da aura de prestígio que haveria de envolvê-lo no início dos anos 80 e do tempo do ícone que rapidamente viria a ser o António Variações, um nome que o próprio fez questão de aclarar: “Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo”. 

Cantor e compositor inimitável, renovou a música ligeira portuguesa e marcou a história das mentalidades do Portugal contemporâneo: voz surpreendente, de larga amplitude, impregnada de fado, conjugando originalmente o folclore com sonoridades cosmopolitas – o rock, o pop, o blues; música difícil de catalogar, tanto assim que o próprio a descreveu como coisa situada “entre a Sé de Braga e Nova Iorque”; letras poderosas contendo o registo da observação quotidiana e a sua vida de solidão imensa; energia avassaladora a ondear num corpo que exibe o seu lado de performer extraordinário – como nenhum antes nem nenhum outro depois; imagem única, com uma popularidade visual que fez dele um artista antes mesmo de o ser, decorriam então em Portugal os anos 70, adoecidos de tristeza.

Nasceu em 1944 no lugar do Pilar (Amares, Braga), “demasiado cedo” – disse com a lucidez de quem se sabe para além do seu tempo. É, aliás, através do que muitos classificaram de heresia que António Variações emerge no mercado discográfico, em Junho de 1982, depois de algumas aparições extraordinárias na Rádio (“Meia de Rock”, da Renascença) e na Televisão (O Passeio dos Alegres, de Júlio Isidro) e de quatro longos anos sobre o contrato assinado com a Valentim de Carvalho. “Povo que Lavas no Rio” era essa “heresia”, uma versão do tema de Amália, integrando o lado B do maxi single “Estou Além”. A musa torceu o nariz, zangou-se mas depois rendeu-se àquele cantar inqualificável. Seguiu-se o LP “Anjo da Guarda” (1984), incluindo os êxitos “O Corpo é Que Paga” e “É P’ra Amanhã”, temas que continuamos a trautear e que, na altura, silenciaram as vozes mais detractoras.

Quando “Canção de Engate” (“Dar & Receber”, 1984) invade as rádios portuguesas, já a morte o cercava numa cama de hospital, pois nele o triunfo coincide com o fim. Broncopneumonia aguda seria a causa apontada para a morte do cantor, mas os cuidados extremos que se seguiram (queima da ambulância que o transportara, da cama, da roupa de cama) e a selagem do caixão “por constituir perigo para a saúde pública” agravariam as suspeitas de Sida, o primeiro caso conhecido em Portugal.

Em vida foi-lhe atribuído um único prémio: um dos mais mal vestidos do país. Recebeu o galardão, em 1983, não sem contestar a capacidade do júri para avaliar estilos de bem-vestir: “o estilo sou eu!”. E estava certo.

Sonhou, desde a primeira infância, repartida entre os estudos e o trabalho no campo a que se furtava, com a música e o mundo do espectáculo. Num desfile de modelos excêntricos e adereços bizarros, ao olhar de uma Lisboa que então sofria acentuadamente da doença da homogeneidade, fez da rua o palco que, ao fim de vários anos de tentativas e muitas decepções, se multiplicou por fim em espectáculos ao vivo.

Inconformado com a imobilidade do berço minhoto, à capital chegou, menino feito adulto, em 1956, iniciava a Radiotelevisão Portuguesa as suas emissões experimentais. E há-de sustentar-se de trabalhos tão variados quanto ocasionais. Depois do serviço militar, feito em Angola onde chegou a dar catequese, ruma a Londres para uma estadia breve. Segue-se Amesterdão, cidade onde todas as diferenças se conjugam. Aqui, adquire um significativo pecúlio de vivências e um curso de cabeleireiro.

 Foi um ser em mudança, uma existência em trânsito, cantada numa busca sempre insatisfeita de que Manuela Gonzaga, a biógrafa exemplar que lhe calhou em sorte, dá desenvolvida conta neste “António Variações – entre Braga e Nova Iorque”. Quando foi publicada pela primeira vez, em 2006, pela Âncora, esta biografia, há muito esgotada, teve um acolhimento pouco habitual num país com pouca tradição biográfica, como se tudo pudesse caber num mero verbete de enciclopédia ou num necrológio de jornal.

Composta por dez arejados capítulos de apelativos títulos, dir-se-ia que este volume, agora relançado pela Bertrand, possui aqueles ingredientes que por vezes estragam certas biografias e nos fazem desapetecer um género literário que mal pega entre nós (pese embora a nossa curiosidade mexeriqueira) e que a poderiam transformar num lento cortejo fúnebre: factos alinhados segundo um critério cronológico – do nascimento, no coração do Minho, à “Vida depois da morte” –, acúmulo de informações, notícias da imprensa escrita, multiplicação de testemunhos. E, no entanto, esta biografia lê-se com o prazer e a sofreguidão com que se lê um bom romance ou se contempla um bom retrato, o do Portugal nas décadas de 40 a 80, do interior à capital, incluído. A escritora e activista Manuela Gonzaga, com uma mão já longamente afeita ao género biográfico, domina a arte da evocação e da recreação, da montagem de tipo cinematográfico, de tal modo combinadas que, a uma distância isenta que não apaga as marcas da passagem da biógrafa, faz reviver uma existência de marca única que se apagou há 34 anos. É um livro com um lugar reservado na história da cultura e mentalidades da segunda metade do século XX português.  

A macular este volume de mais de 300 páginas, resultantes de um trabalho de investigação de grande rigor, apenas essa ave inconveniente que dá pelo nome de gralha – mais que a conta.  

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