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Alguns ícones do místico reino do futebol

Alguns ícones do místico reino do futebol

Diogo Vaz Pinto 27/06/2018 12:58

Tem de haver um poderoso antídoto que leve a que o futebol, com a sua “triste viagem do prazer ao dever, de um desporto para uma indústria” nas últimas décadas, consiga ainda cativar multidões e converter por instantes, às vezes ao longo de 90 minutos, adultos em crianças

 

Tem tudo contra e tudo a favor. O futebol é um paradoxo com a bola nos pés. Nem a paixão de Páris por Helena saiu tão cara. E o pior é como nos custa imaginar que nem sempre foi assim, e que houve um antes desta rendição incondicional ao espetáculo, antes de o futebol se tornar o terreno das sete novas pragas (e agora vamos ver se safo uma enumeração que carregue o diabo da metáfora): começando pela tecnocracia que tirou o gosto ousado, a alegria de um jogo de rua, engoliu a alma e cuspiu esta guerra de trincheiras, coisa tática, mesmo se veloz, extenuante; a gestão corporativa dos clubes, que provoca suores frios em lugar da febre a que o incerto destino da bola levava, a corrupção impante, o génio trapaceiro - tendo aprendido todos os vícios da política, hoje já lhe dá lições -, essa impunidade de que goza por a justiça ter mais ou menos assente que o futebol profissional é intocável, na estreita correlação com a sua popularidade; a chulice, a vampirice dos negócios que o rodeiam, o bando de sanguessugas que vivem do talento dos jogadores - os agentes, os managers, as mães, os primos e as tias -, todos os que fazem fortunas extorquindo o que há de fabuloso no futebol para engordar os números; o marketing incessante, descarado, essa exaltação insossa que provoca enfarte, colesterol emocional; o lado teatral e trágico que cedeu à telenovela, com os comentadores e ideólogos desportivos formando filas num beatério de eternas ofendidas tão dadas a chiliques; por último (ufa!), essa forma degenerada do fanático de um clube ou seleção, o hooligan, o bronco que se aferra a uma camisola com um tal fervor como se assim amortalhasse as frustrações da sua vida, como se na derrota do clube rival, no mais estúpido dos dias da semana (o domingo), pudesse apagar, ou mesmo vingar-se, da trepa que tem levado a vida inteira, e que, chegando segunda-feira, lá está de cinto na mão, sorrindo da sua humilhação.

Mas se o outro lado da moeda parece perder algum do brilho quando o tema é a corrupção endémica no futebol, é inegável que este continua a ser um campo de afetos e que o destempero é a lógica própria de um reino à parte, onde a verdade se deixa dobrar para que a lenda encontre o seu caminho. E porque não faltam enredos de segunda, intrigas de lixo, alçapões onde perder o ânimo, necessário são os subsídios para o encanto, nuvens que segurem e elevem os verdadeiros amantes, aqueles que continuam acompanhando a saga para saber o desenlace dos seus mitos, partilhando a glória dos heróis, amparando-os nos momentos trágicos...

No fim de contas, o futebol resiste a toda a baixeza, aos poderosíssimos interesses políticos e financeiros que dele se apropriam, porque os seus milagres se renovam, e estão aí para ser vistos, e hoje captados de todos os ângulos, para deliciar o olhar da multidão que, como o da mosca, como o dos deuses, apanha do detalhe mais negligenciável, e guerreia por uma migalha, ao mais soberbo, ao contorno mais forte que fere a memória para sempre. Afinal, o futebol é uma permanente infância, são 90 minutos de exceção, nesse templo onde os homens se desfazem dos traços que os distinguem para caírem nos braços uns dos outros. Os personagens mais sisudos, os mais descrentes aproveitam essa brecha e consolam-se, como selvagens da emoção, indígenas do reino mágico do futebol.

O Estádio, o Templo

Eduardo Galeano, o poeta uruguaio que desapareceu em 2015, foi um dos grandes teólogos e adoradores da “festa pagã” e é autor de um dos mais exaltantes livros de horas dedicados ao futebol. “Futebol ao Sol e à Sombra”, um título que chegou a ter edição portuguesa (Livros de Areia) mas que, hoje, só dificilmente aparece nos alfarrabistas. A Antígona está a editar a obra do autor, mas não anunciou ainda a reedição deste clássico. Entretanto, valendo-nos da edição brasileira - disponível na internet -, vale a pena lembrar o curto capítulo que Galeano dedica ao estádio de futebol. “Já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém.

Em Wembley ainda soa a gritaria do Mundial de 66, que a Inglaterra ganhou, mas aguçando o ouvido pode escutar gemidos que vêm de 53, quando os húngaros golearam a seleção inglesa. O Estádio Centenário, de Montevideu, suspira de nostalgia pelas glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua chorando a derrota brasileira no Mundial de 50. Na Bombonera de Buenos Aires trepidam tambores de há meio século. Das profundezas do Estádio Azteca ressoam os ecos dos cânticos cerimoniais do antigo jogo mexicano da pelota. Fala em catalão o cimento do Camp Nou, em Barcelona, e em euskera conversam as arquibancadas do San Mamés, em Bilbau. Em Milão, o fantasma de Giuseppe Meazza mete golos que fazem vibrar o estádio que leva o seu nome. A final do Mundial de 74, ganho pela Alemanha, continua sendo jogada, dia após dia e noite após noite, no Estádio Olímpico de Munique. O Estádio do Rei Fahd, na Arábia Saudita, tem palco de mármore e ouro e tribunas atapetadas, mas não tem memória nem grande coisa que dizer.”

O Orgasmo do Futebol

Da infância, nem todos saem vivos. E com os seus dons nem uma maioria, só uma ínfima parcela. E depois há quem não cerre as portas, quem atravesse o espelho e saiba contar a história da sua adoração pelo futebol começando do princípio. É o caso do artista plástico Nuno Ramos, também escritor, com um talento desgraçado para tudo, um criador desses que começou puto, jogando muito à bola. Diz que na sua infância quase não fazia outra coisa. Numa entrevista jurou, face à incredulidade do entrevistador, que o seu recorde de toques na bola ultrapassava os mil. “Quem faz cem faz mil”, garante. Mas este pequeno craque que teve de largar o futebol porque jogava até ficar doente tornou-se um dos mais interessantes teóricos do desporto e tem um conjunto de ensaios dedicado ao tema no livro “Ensaio Geral” (Ed. Globo, 2007). A propósito disso mesmo deu a tal entrevista “ao redor do futebol” em que explicou que o golo, nesta modalidade, “reordena tudo”: “A existência do golo propõe um novo jogo. Quem sofre golo, por exemplo, sofre contra-ataque o resto do tempo. Em geral, há uma espécie de knockdown quando uma equipa sofre golo. E tem coisas muito curiosas, como acontece quando uma equipa sofre golo e empata na jogada seguinte, justamente porque a outra equipa relaxa, não concentra. É também muito comum na saída de bola haver já uma jogada de perigo, que é como se o princípio de prazer de fazer um golo desse uma baqueada na outra equipa. Então, o golo tem uma potência de imantação do jogo.”

Já Eduardo Galeano falava do golo como “o orgasmo do futebol”. E adiantava que, tal como o orgasmo, o golo “é cada vez menos frequente na vida moderna”. Talvez isso explique o entusiasmo que provoca, como perante um “milagre”: “A multidão delira e o estádio se esquece que é de cimento, se solta da terra e vai para o espaço.”

O Futebol Fala Grosso

Se o futebol não poucas vezes é encarado como uma saga épica, então não se pode passar ao lado desse que ficou conhecido como o “Homero do futebol brasileiro”, o grande narrador da época de ouro da nação que se empresta ao fervor de todas as viúvas, as traídas, as maltratadas, ou seja, os adeptos que têm o seu encanto pelo futebol frustrado pela seleção dos seus países. O Brasil, a sua seleção de futebol tornou-se a grande ama-seca que cuida dos muitos órfãos nas bancadas em volta da arena mundial. Com o seu estilo desabusado, “lírico e cortante”, pleno de poderes hiperbólicos, capaz de invocar os poderes da natureza para dar mais ênfase às suas sentenças, Nelson Rodrigues provou nas suas crónicas de futebol que é possível ressaltar em cada partida, até na mais sórdida, “uma complexidade shakespeariana”. E foi ele quem, lembrando-se de um episódio da sua infância, recuperou a figura de um “anjo de boca suja”, “um garoto que era tido como o anticristo da rua” onde ele brincava. A mãe proibiu-o de se dar com ele, mas Nelson descobriu que esse miúdo é que tinha razão. E porquê? Porque sabia que “cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível”. Assim, e a propósito do futebol, ele traça uma analogia com as Descobertas, lembrando “os nautas camonianos” para dizer: “Sem uma sólida, potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.” E mais: “Retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível. Como jogar ou como torcer se não podemos xingar ninguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. (...) Pois bem: - está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incentivo constante dos rijos e imortais palavrões da língua.”

O Mártir do Futebol

Agora estamos embalados, e se já nos fizemos valer da verve, da razão imperiosa de Nelson Rodrigues, para quê baixar o lume das palavras? O melhor é dar-lhe ainda o espaço para deitar contorno a uma das figuras decisivas no futebol. Uma espécie de Cristo que paga não só pelos pecados, ainda pelas frustrações de toda a humanidade que alguma vez levou no coração o jogo e o apostou no destino de uma bola de futebol. O árbitro tem de ser uma das grandes figuras trágicas do teatro futebolístico. Como diz Nelson, ele “é um crucificado vitalício. Seja ele o próprio Abrahão Lincoln, o próprio Robespierre, e a massa ignara e ululante o chamará de gatuno. Dirá alguém que ele percebe um bom salário. Nem assim, nem assim. Não há dinheiro que o compense e redima, nenhum ordenado que o lave, que o purifique. E, no entanto, ele não renuncia às suas funções nem por um decreto. Pergunto: - por que esta obstinação? Amigos, a vaidade o encouraça, a vaidade o torna inexpugnável, a vaidade o ensurdece para as 200 mil bocas que urram: - “Ladrão! Ladrão! Ladrão!”

Para exemplo dos martírios que sofre este personagem - e valia a pena fazer um estudo psicológico do tipo de indivíduo que aceita ser o saco de pancada de todo um estádio, às vezes de uma nação inteira, e que se mantém firme, de negro, como um padre que dá os sacramentos (do batismo à extrema-unção) na vida fulminante que decorre entre as quatro linhas -, passemos da pena de Nelson para a de Eduardo Galeano: “Este é o abominável tirano que exerce sua ditadura sem oposição possível e o verdugo afetado que exerce seu poder absoluto com gestos de ópera. Apito na boca, o árbitro sopra os ventos da fatalidade do destino e confirma ou anula os golos. Cartão na mão, levanta as cores da condenação: o amarelo, que castiga o pecador e o obriga ao arrependimento, ou o vermelho, que o manda para o exílio.”

O Desmancha-prazeres

Sem sair das grandes figuras do drama trágico que o futebol sabe pôr em campo, não podemos deixar de assinalar o grande exemplo estoico que este nos serve: o guarda-redes. Tem de ser uma forma muito particular de angústia essa que aguenta o homem que guarda a última fronteira nessa arena onde às vezes um golo sofrido é veneno que dá morte a multidões. À margem do jogo, como quem ouve o outro lado da história, todos devíamos ser obrigados a ouvir o sabor particular que a derrota tem na mais solitária das suas vítimas. É o guarda-redes que, mesmo na hora em que come os seus frangos, os seus perus e que mantém a dignidade, não se deprime, não se degrada, é esse o herói tantas vezes silenciado, esquecido, atirado com os anónimos para a vala comum das nossas desilusões. Se o futebol vive na ânsia de um golo, desse furo no jogo que divida o estádio entre o céu e o inferno, cabe ao guarda-redes impedir esse desequilíbrio. Um empate a zero, o mais aborrecido, o mais desastroso dos resultados é aquilo para que trabalham aquelas duas figuras seguindo a partida de longe. Numa tensão entre os postes que só pode ser comparada à daquele que aguarda sozinho o fuzilamento. É Eduardo Galeano quem traça este paralelo, e é ele também que chama ao guarda-redes desmancha-prazeres, aquele que nega ao futebol a sua festa. “Os outros jogadores podem errar feio uma vez, muitas vezes, mas se redimem com uma finta espetacular, um passe magistral, um tiro certeiro. Ele, não. A multidão não perdoa o guarda-redes. Saiu em falso? Catando borboleta? Deixou a bola escapar? Os dedos de aço se fizeram de seda? Com uma só falha, o guarda-redes arruína uma partida ou perde um campeonato, e então o público esquece subitamente todas as suas façanhas e o condena à desgraça eterna.”

O Adepto e o Fanático

O futebol só é um jogo tão apaixonante pela forma como negoceia com a improbabilidade. Ele abre uma perspectiva sobre o infinito no modo como, com o apito inicial, todas as apostas se volatilizam, e há momentos em que o impossível nos convence nesse ápice que se mede entre duas batidas do coração. Às vezes é tão súbito que até nos rouba uma, duas batidas. Tem já um impressionante cadastro no que toca a desfalecimentos. Falando da sua paixão pela bola, Galeano confessa que a paixão do futebol não teve outro meio de se exprimir senão pela pena, uma vez que cedo percebeu que era o pior perna de pau que já passou pelos campos do meu país. Mas este que foi um dos grandes poetas do futebol, assume que mesmo como adepto deixava muita a desejar. Queria odiar o talento das equipas rivais, das selecções rivais, mas era um desses emocionais da bola, fácil de comover pelo génio com a bola nos pés, e as tantas vezes que se viu obrigado a reprimir a vontade de aplaudir o “inimigo” levou-o a confessar-se enfim a sua identidade: “não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre - sem me importar com o clube ou o país que o oferece.” Sobre o adepto mais comum, esse que se define por uma lealdade às cores de uma camisola mais do que ao futebol, Galeano mostrou que este é um desesperado que, uma vez por semana, foge de casa e vai ao estádio: “A cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades.” E adiantou: “Enquanto dura a missa pagã, o torcedor é muitos. Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores, todos os juízes estão vendidos, todos os rivais são trapaceiros.” Sobre a variante do fanático, diz que é o adepto no manicómio: “Metido numa turma da barra-pesada, centopeia perigosa, o humilhado se torna humilhante e o medroso mete medo. A omnipotência do domingo exorciza a vida obediente do resto da semana, a cama sem desejo, o emprego sem vocação ou emprego nenhum: liberado por um dia, o fanático tem muito de que se vingar.”

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