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26 de junho de 1952. A Cidade-Luz era velha como a noite

26 de junho de 1952. A Cidade-Luz era velha como a noite

DR Afonso de Melo 26/06/2018 21:27

Paris comemorava efusivamente os seus 2000 anos e, em Portugal, noticiava-se que um Constellation tinha batido o recorde de tempo de viagem entre a Portela de Sacavém e Orly: três horas e cinco minutos!

Paris tem dois mil anos!

E a França enchia-se de um orgulho tão completamente francês, esse orgulho que levou à santidade de Joana d’Arc e à vitória lendária de Austerlitz.

Ah! Esse orgulho francês misturado com o chauvinismo que é parte integrante da sua idiossincrasia.

Paris tem dois mil anos!

Era um grito, de certa forma.

Um slogan publicitário, seguramente.

O refrão de uma canção muito antiga de uma terra que se gaba de, em si, “tout finir avec des chansons”.

Na Notre-Dame, as gárgulas vigiavam a cidade e os seus habitantes em festa contínua pelas madrugadas.

No adro da igreja representava-se o Verdadeiro Mistério da Paixão.

Na Place des Vosges, evocações históricas à luz dos archotes.

Por cada esquina, cartazes explicavam tudo o que o povo podia procurar, em cada bairro, em cada boulevard, em cada praça: Saint-Germain-des-Prés (“Un quartier se penche sur son passé”); Uma Noite em Montparnasse; um Baile Balzac (com balzaquianas, suponho); exposição da Arte do Vidro, das Flores de França; feiras alegóricas, bailes populares, concursos de decoração de montras para os proprietários de lojas; os escaparates elegantes da Rue de la Paix; vigílias litúrgicas; quermesses de artistas; desfiles de indumentárias.

Nada era demais para a velha senhora parisiense, já com dois mil anos de idade.

Lutécia Foi no ano 52 a.C. que o nome de Lutécia surgiu pela primeira vez publicado nos célebres Comentários de Júlio César. Edric Loliée, conselheiro municipal que presidiu ao Accueil de Paris nessa festa do bilenário, escreveu: “Cada século ofereceu aos parisienses um copioso tributo de guerras, de invasões, de revoltas, de epidemias, de fomes. Em suma, esse conjunto de calamidades que se chama História. Mas cada século enriqueceu também o património de Paris com tesouros prestigiosos e escreveu novas páginas floridas no grande livro de honra da Cidade da Luz.”

E ia por aí fora com a pena engalanada pelo entusiasmo de um momento único: “Paris cresceu, alargou-se, estendeu os seus braços e floriu, como uma árvore majestosa de belos frutos doirados, à beira do Sena, esse rio bibliófilo e universitário, com a sua dupla sebe de poetas disfarçados de pescadores à linha, mais pescadores de luas do que de peixes.”

Havia poesia em Paris com dois mil anos e para sempre eterna.

De todas as partes do mundo, os turistas invadiam a capital da França, milhares e milhares de turistas ansiosos pela festa inesquecível, irrepetível.

Havia americanos do norte, argentinos, mexicanos, brasileiros. Vinha gente de mais perto: da Holanda, da Bélgica, da Alemanha, da Inglaterra.

Talvez portugueses também.

Paris babilónica.

Corria o champanhe em regatos nos hotéis e nas boîtes de Montmartre, como se a Place Pigalle estivesse ligada por um pipeline às caves de Reims e de Épernay.

Estas palavras não são minhas, mas tenho pena. Paris merece todas as palavras, construídas, concatenadas em frases que lhe percebam o sentido de urbe inevitável.

Paris, capital do mundo!

Dois mil anos!

As pessoas murmuravam, umas para as outras: dois mil anos...

Como conceber dois mil anos se não formos um Cristo? Como contá-los em meses, em dias, em horas e minutos?

Quem pode dizer que dois mil anos é uma conta certa se nem as contas sabemos fazer?

Teatros, restaurantes, cabarés, esplanadas, as corridas de cavalos, as madames de chapeuzinhos de sol em passos curtinhos, descendo e subindo os Campos Elísios.

E as pessoas?

Dois mil anos de pessoas!

Palhaços, comediantes, dançarinos, cançonetistas, escritores, homens simplesmente mundanos.

Dois mil anos de nomes!

Goulue no Moulin Rouge.

Yvette Gilbert no Eldorado.

Oscar Wilde e o seu spleen no Boulevard des Italiens.

Picasso e as suas mulheres coloridas.

Toulouse-Lautrec fascinado pelo can-cã.

La Mistanguette.

A majestade séria de Sarah Bernhardt.

Ernest Hemingway sabia: “Paris é uma festa!”

Papéis espalhados pela rua impressos com filosofia barata: “Nesta cidade encantadora, de perspetivas tão elegantes e de espírito tão claro, os estrangeiros sentem-se em casa. Nenhuma outra no mundo dá aos seus visitantes um espetáculo mais edificante de tolerância e mais comovente de humanidade.”

Dois mil anos, francamente.

Em dois mil anos também houve lugar para a banalidade e para o mau gosto.

Em Portugal, sempre tão virado para o seu umbigo nesses tempos que lá vão, anunciava-se que um Constellation da Air France tinha batido um tempo recorde na viagem entre Lisboa e Paris - três horas e cinco minutos da Portela de Sacavém a Orly.

Mas que diferença entre o Rossio e a Praça da Concórdia...

Dois mil anos e Paris vivia como nunca.

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