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Espanha. Médicos que roubaram bebés na era de Franco em julgamento

Espanha. Médicos que roubaram bebés na era de Franco em julgamento

AFP Ricardo Cabral Fernandes 26/06/2018 19:24

A acusação pede 11 anos de prisão para Eduardo Vela, médico ginecologista, por roubo de uma bebé

Um dos lados mais negros da ditadura de Francisco Franco, em Espanha, chegou hoje à barra do tribunal: o roubo de bebés recém-nascidos e a sua entrega a famílias que apoiavam o regime. O primeiro a ser julgado pelo crime é Eduardo Vela, de 85 anos, ginecologista e antigo diretor da Clínica San Ramón, em Madrid. Vela é acusado de ter, em 1969, retirado Inés Madrigal, hoje com 49 anos, à sua mãe biológica e de a ter entregue a outra mulher, falsificando documentos. A acusação pede 11 anos de prisão pelos crimes de adoção ilegal, detenção ilegal, falsificação de documentos e certificação de falsos nascimentos. No entanto, Vela parece ser apenas a ponta do icebergue de uma vasta rede que contou com a colaboração ativa de médicos, enfermeiras, freiras e padres. Às mães biológicas era-lhes dito que os bebés tinham falecido ao nascer. 

O roubo de bebés de mães e pais republicanos e comunistas tornou-se uma prática corrente durante o regime de Franco, que desejava extirpar a Espanha de qualquer influência marxista. Mas a partir da década de 50, a prática alargou-se às famílias pobres e às mães solteiras. 

Os primeiros casos vieram a público ainda em 1982, quando uma revista publicou uma reportagem de investigação sobre a prática na clínica de San Ramón, sob direção de Vela. Calcula-se que cerca de 2000 bebés foram retirados às suas famílias durante o regime franquista. Uma prática com semelhanças ao que aconteceu na Argentina durante a ditadura militar (1976-83), com mais de 500 bebés a sofrerem semelhantes destinos.

À porta do tribunal, cerca de 50 mães e manifestantes aguardaram a chegada de Vela, empunhando cartazes e gritando palavras de ordem. “Uma mãe nunca esquecerá o seu bebé”, disse Inés Madrigal. “As mães querem dizer aos filhos que não os abandonaram, mas, acima de tudo, querem saber se estão bem”. Agora, as mães esperam que se faça justiça, mas, principalmente, que se possam reencontrar com os seus filhos.

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