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A missão quase impossível de ser médico imigrante em Portugal
A Fundação Calouste Gulbenkian e o Serviço Jesuíta aos Refugiados estão por trás de um programa de integração profissional de médicos imigrantes no Serviço Nacional de Saúde que facilitou os processos

A missão quase impossível de ser médico imigrante em Portugal

A Fundação Calouste Gulbenkian e o Serviço Jesuíta aos Refugiados estão por trás de um programa de integração profissional de médicos imigrantes no Serviço Nacional de Saúde que facilitou os processos Shutterstock Beatriz Dias Coelho 26/06/2018 19:01

Um dos problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é a falta de médicos especialistas. Numa altura em que os processos de reconhecimento de habilitações de médicos imigrantes atravessam um período particularmente complicado, com atrasos significativos, o i foi revisitar a vida de duas médicas que trocaram os seus países pelo nosso e que conseguiram exercer devido a um programa especial 

Elzara Aliyeva era médica oftalmologista no principal hospital da cidade de Teodósia, na Crimeia. Um dia, uma das suas pacientes, numa consulta, perguntou-lhe se podia dar o seu número de telemóvel a uma pessoa. Elzara, pensando que seria um doente, disse que sim. E foi então que conheceu o homem com quem viria a casar.

“A minha paciente deu o número ao sobrinho dela, que vivia em Portugal. Queria que nos conhecêssemos. Durante seis meses namorámos por telemóvel e depois, ao fim desse tempo, ele tirou duas semanas de férias e foi à Crimeia para nos conhecermos”, recorda ao i. Elzara tinha acabado de tirar alguns cursos de microcirurgia e planeava seguir a carreira na Crimeia. “Bom, a minha ideia era conhecermo-nos, ele voltar a Portugal e, se realmente fôssemos feitos um para o outro, ele acabava por ficar na Crimeia comigo”, pensou na altura. “Mas não foi isso que aconteceu. Quando me conheceu ao vivo, disse que se eu aceitasse ia começar a tratar dos documentos para eu ir para Portugal”, conta Elzara. E assim foi. Casaram na Crimeia, em 2006, e em janeiro de 2007, com 29 anos, Elzara estava em Portugal. Ao pai de Elzara, o seu marido tinha feito uma promessa: que faria tudo para garantir que ela seguia a carreira médica em Portugal.

Um processo difícil Além da distância e das saudades da família, o maior desafio de Elzara era a língua. Para poder ser médica - para poder fazer fosse o que fosse -, tinha de aprender português, “o que para uma pessoa cuja língua materna é o russo é especialmente complicado”. Inscreveu-se num curso de português para estrangeiros, enquanto aproveitava o tempo que tinha livre para tratar dos documentos e da legalização. 

“Foi um processo que correu bem. O meu marido pediu reagrupamento familiar, foi muito mais fácil”, descreve.

Enquanto aprendia português engravidou da primeira filha. Nos primeiros tempos, sentia a vergonha natural de quem ainda está a aprender a língua, mas quando a filha nasceu viu-se obrigada a falar e a vergonha passou. “A minha filha ficou internada 10 dias no hospital por causa de complicações no parto”, conta. Entretanto, em 2008, dois anos depois da sua chegada a Portugal, a oportunidade de exercer medicina surgiu. “O meu marido andava sempre a ver o que podia fazer mais para cumprir a promessa e fomos  ao Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), que também dá apoio aos imigrantes. Aí, aos 31 anos, recebi um bilhete para o meu futuro cá em Portugal”. O bilhete chamava-se Programa de Integração Profissional de Médicos Imigrantes e era uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian em parceria com o JRS. 

Era já a segunda edição - a primeira decorreu entre 2002 e 2006 e o sucesso que teve chamou a atenção do Ministério da Saúde, que propôs à parceria uma segunda edição. 

“Era muito frequente encontrar-se nos jornais referências de que havia falta de médicos no interior e que os médicos de família não conseguiam fazer a cobertura da população toda. Quando nos apercebemos de que havia muitos médicos imigrantes cá, vimos que havia uma oportunidade de se matar duma só cajadada dois coelhos: resolver um problema que o país tem e ao mesmo tempo facilitar um processo de integração”, recorda Luísa Valle, diretora do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano e um dos membros da equipa por trás do programa.

Ao i, Cláudia Santos, técnica social do JRS que integrou a mesma equipa, explica que o objetivo do programa era apoiar 150 médicos. “O programa dava uma bolsa de 852 euros aos participantes. Era efetuado um reembolso de despesas de tradução com os documentos de que precisavam para entrar no programa e fazer o reconhecimento das habilitações, bem como das despesas relativamente à inscrição na Ordem dos Médicos e nas faculdades de medicina. A par disso tinham apoio ao nível do ensino da língua portuguesa e do português técnico na área da medicina. Depois, efetuávamos os pedidos de equivalência junto das faculdades de medicina e ajudávamos também na procura de creches para as crianças quando os médicos tinham filhos e também apoiámos a nível de alojamento e de procura de trabalho para os cônjuges”, recorda.

Na segunda edição, além da candidatura de Elzara, 95 outras foram aceites. Contudo, a aprovação no exame de português, obrigatória para frequentar o programa, deixou alguns candidatos pelo caminho. Continuaram 89 - 55 mulheres e 34 homens, com uma média de idades entre os 40 e os 44 anos - distribuídos por faculdades de medicina de norte a sul do país. No fim, 56 conseguiram o reconhecimento do diploma. A maioria dessas pessoas - 85% - vinha da Europa de Leste.

“Não estou arrependida de ter vindo para Portugal”, diz Elzara. Quando chegou o momento de escolher a especialidade, já estava grávida pela segunda vez, de gémeos. Escolheu patologia clínica. Hoje, com 39 anos, é especialista e trabalha no Hospital Amadora-Sintra. Considera o Serviço Nacional de Saúde (SNS) um dos melhores, apesar de defender que “podia dar mais vagas a médicos jovens. Vejo todos os dias como o meu hospital sofre imenso com a falta de médicos”.

Não é a única a pensar assim. Lina María Hernández, médica imigrante que também participou na segunda edição do programa, criou o grupo “Médicos Imigrantes em Portugal” no Facebook com o objetivo de disponibilizar informação aos colegas de profissão e conhece bem o que se passa. “Há muitos médicos a virem para cá. Se o SNS precisa de profissionais de saúde - porque precisa -, porque não olhar um bocadinho para a frente?”, questiona.

Nascida na Colômbia, imigrou para a Venezuela com os pais aos oito anos. Foi lá que viveu, estudou e exerceu medicina durante quase 10 anos, até vir para Portugal, com 36 anos. A motivação é semelhante à de Elzara.

“Conheci na Venezuela um português que foi lá passar férias, estava com um grupo de amigos, e houve o clique. Tivemos uma relação à distância, até que passado dois anos ele perguntou-me se eu queria vir para cá para nos casarmos. A situação na Venezuela tinha começado a ficar um pouco difícil em algumas coisas no governo de Hugo Chávez. Peguei na minha vida profissional e pessoal, meti-a numa mala de 20 quilos e atravessei o Atlântico”, conta ao i.

Chegou a Portugal em outubro de 2006 e, três meses depois, casou. Quando chegou, aconteceu-lhe o mesmo que a tantos colegas seus no programa - antes de conseguir voltar a exercer medicina, passou por inúmeros outros trabalhos. Teve de começar do zero: foi administrativa numa clínica e teleoperadora. Acabou por se demitir. “Queria mesmo ser médica. Tinha estudado medicina durante muito tempo... Eram muitos anos de estudos desperdiçados”, conta.

Decidiu então ir ao JRS e foi assim que soube do programa de integração profissional de médicos imigrantes. Candidatou-se e entrou. Hoje, aos 48 anos, é médica de saúde pública no Agrupamento de Centros de Saúde da Arrábida. “A única coisa de que não gosto é que sou boa clínica e em saúde pública não tenho muito contacto com pacientes. Por isso, há três anos que faço bancos de clínica geral no Hospital de Santarém”, conta.

Lina não pensa voltar para a Venezuela. Já não está casada com o homem que a trouxe para Portugal, mas a mãe  seguiu-lhe as pegadas e veio viver para cá há dois anos, já reformada. Além disso, o filho, de nove anos, “é português”. Por isso, “hei de ficar aqui até fechar os olhinhos”, diz. “Estou imensamente agradecida a Portugal, aos contribuintes portugueses e a toda a gente que mora aqui, porque consegui entrar num programa que foi pago pelos portugueses e consegui fazer uma especialidade que foi paga pelos portugueses e aqui estou, ao serviço dos portugueses. E aqui continuarei”, acrescenta.

Elzara pensa da mesma forma. Voltar a viver na Crimeia não é uma hipótese, apesar de toda a família viver lá. E visitar? “Íamos lá uma vez por ano, mas desde que começou a mudar a situação política na Ucrânia, deixámos de ir porque não sei se vou conseguir entrar com tanta facilidade. Já ouvi dizer que é muito difícil”, remata.

No final, ambas as médicas não poupam elogios ao programa e consideram que o reconhecimento das habilitações pela via normal teria sido mais demorado e, acima de tudo, muito mais dispendioso.

Atrasos no reconhecimento Nos últimos meses, não têm faltado relatos de atrasos no reconhecimento das habilitações dos médicos imigrantes. O mais gritante é o denunciado pela Associação de Médicos Luso-Venezuelanos (Assomeluve), que no final de maio avançava ao “Público” que “dos seus 250 membros, cerca de 120” tinham “tentado emigrar para Portugal depois da crise socioeconómica e política” no país - e que, desses, apenas 25 continuavam a tentar fazê-lo.

Segundo a associação, os médicos formados em universidades venezuelanas que vêm para Portugal esperam entre dois e três anos pelo reconhecimento de habilitações.

Mas os médicos luso- venezuelanos nãosão os únicos a serem afetados pelo atraso; é transversal aos médicos licenciados fora da União Europeia. Já para quem estudou na UE, o reconhecimento de habilitações é automático.

O atraso deve-se ao facto de o Conselho das Escolas Médicas Portuguesas ter em curso uma revisão das regras que regem o reconhecimento de habilitações a médicos imigrantes, motivo pelo qual as faculdades de medicina do país não terão aberto candidaturas para reconhecimento de habilitações.

Tal como Lina, a médica de saúde pública, afirma, também a Assomeluve argumenta que a integração de médicos imigrantes no SNS seria um meio de combate à falta de especialistas. O Conselho das Escolas Médicas Portuguesas estima que a revisão esteja concluída em julho.

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