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Ronaldo. Quando o patinho entrou no lago dos cisnes

Ronaldo. Quando o patinho entrou no lago dos cisnes

Shutterstock Afonso de Melo 25/06/2018 08:16

No dia 17 de junho de 2006, já lá vão 12 anos, Cristiano Ronaldo marcava o seu primeiro golo numa fase final de um campeonato do mundo. Foi em Frankfurt, de penálti, aos 79 minutos, contra o Irão 

Irão: vem de Airania Vaejda, a Terra dos Arianos.

No dia 17 de junho de 2006, em Frankfurt, nesse país onde outros arianos quiseram tomar conta do mundo, Portugal e Irão estavam frente a frente. Seria um dia único na vida de Cristiano Ronaldo, já na altura titular da equipa de Portugal comandada por Luiz Felipe Scolari. Estive lá, vi e vivi.

Uma vitória límpida e clara como os olhos da Julie Christie no “Doutor Jivago”, enchendo de azul a tela do Cinema Paris da minha adolescência.

O golo inicial de Deco, o penálti sobre Figo. E Ronaldo frente a frente com o guarda-redes Mirzapur. Pontapé certeiro. 79 minutos: o seu primeiro golo num campeonato do mundo.

A nossa vida talvez não se repita, mas a História, às vezes, tem destas coincidências. Já lá vão 12 anos. Cristiano Ronaldo era um menino de 20. Um patinho acabado de entrar no lago dos cisnes, com licença de Tchaikovsky.
Agora é o capitão, o centro de todo o futebol da seleção nacional. 

Especial Em 2006, pela primeira vez, a seleção nacional carregou para um Mundial o peso da exigência e soube merecê-la. Em 1966, a exigência não existia e Portugal foi muito para além dela. Miguel Torga chamava-lhe “desígnios da vontade”. “Gente pobre que ganhou a vida”, dizia o selecionador Manuel da Luz Afonso. Em 1986, não houve exigência, nem crença, nem talento. Em 2002 houve a exigência desmerecida de quem não está preparado para ela. Em 2006 houve tudo: exigência, crença, talento. E medimo-nos com o impossível quase o tornando possível. 2004 obrigou-nos à exigência; 2006 fez com que a exigência nos respeitasse. 

“De um momento para o outro pode entrar/ Um pássaro que levante o céu...”: Alexandre O’Neill. Em 2006, Ronaldo começou a ser um pássaro que levanta o céu. Em pleno campeonato do mundo, em plena guerra mundial disputada por outros meios, descobrimos, de um momento para o outro, que ser português é bom. Onze homens em campo representando aquilo que a gente é ou aquilo que a gente quer ser. De um momento para o outro, 11 homens levantando o céu. Solidários, valentes, talentosos, amigos, personalizados, ambiciosos, alegres, lutadores, justos, corretos: são assim os portugueses? Não sei se são. Sei que sentem orgulho em serem vistos como bandeira destas virtudes. Sei que sobre a relva, disputando esse campeonato do mundo de todo o mundo – Angola, Irão, México, Holanda, Inglaterra, França... –, Portugal era isso tudo. E a luta tornava-se desigual, porque eles eram equipas e nós éramos uma pátria. Eles eram muitos, mas nós éramos um só. 

Trago aqui um daqueles detalhes brasileiros que nós ainda não conseguimos criar. Dois homens, sentados à mesa de um café, tomam chope e veem o primeiro jogo do Brasil no Campeonato do Mundo de 1998. As coisas estão feias, sem alma. Diz um: “Já vi que vai ser o mesmo vexame de 94.” E o outro: “Noventa e quatro?! Mas em 94 ganhámos a Copa.” Conclui o primeiro: “Ora... mero detalhe.”

Conclusão: ganhar não é apenas ganhar, é muito mais do que isso. As vitórias, os golos podem não passar de pormenores. Já assisti a enormes vitórias de grandes derrotados.

No universo das coisas inesquecíveis há algo mais importante do que os simples factos: os sentimentos que lhes ficam por cima.

Aleksandr Blok, poeta de Sampetersburgo, chamava a tudo isto a Grande Orquestra Universal das Artes: valorizar por igual a poesia, a música, o desporto e qualquer manifestação artística como parte de um todo.

Som e fúria; luzes e sombras.

“Mãe Coragem e os Seus Filhos”, escreveria Brecht. Os seus filhos portugueses.

É assim a amizade: irem uns no lugar dos outros, nas falhas dos outros.

Nação valente!

Em 2006, de forma absolutamente injusta, Ronaldo perdeu o prémio de melhor jogador jovem do Mundial para Podolski, muito convenientemente alemão, apesar do apelido.

Mas naquela tarde de Frankfurt não falhou. Era o prenúncio de que haveria, algures no futuro, um campeonato do mundo preparado para registar o seu nome por entre os imortais.

Depois daquele penálti ao Irão, estava pronto. Hoje estará mais pronto do que nunca.

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