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Professores. A voz de quem faz greve

Professores. A voz de quem faz greve

Gargalo Ana Petronilho 24/06/2018 11:20

Há duas semanas que está a decorrer a maior greve de professores desta legislatura. O i ouviu vários docentes para perceber os motivos da contestação e o clima que se vive nas escolas  

“São poucos os adjetivos para conseguir descrever o sentimento”, diz Maurício Brito. Mas, no leque de opções, o professor de Educação Física do agrupamento de escolas de Ponte Lima ainda encontra palavras como enganado, injustiçado, revoltado ou magoado. É este o estado de espírito de quem dá aulas há 23 anos e ouve o ministro da Educação e o primeiro-ministro dizerem que os últimos nove anos, quatro meses e dois dias do seu trabalho não vão ser tidos em conta para efeitos de progressão na carreira e acertos salariais. 

Maurício Brito não está sozinho. O sentimento é partilhado por milhares de professores que há duas semanas estão em greve às avaliações, o que já levou largas centenas de reuniões de Conselhos de Turma – onde são aprovadas as notas dos alunos – a serem adiadas entre seis e oito vezes. 

“Sinto uma grande desmotivação. E não sou só eu. Estou a falar-lhe de todos os professores”, desabafa Celeste Oliveira, professora há 33 anos das disciplinas de Português-Francês, de momento colocada do Agrupamento de Escolas de Azeitão. Também o professor de Matemática na Escola Secundária da Amadora, João Narra, confessa que se sente “traído, desiludido e sem expectativa alguma”. 

“A desmotivação é natural e muito grande. Já vem arrastada de há muitos anos”, continua Maurício Brito, para quem não é fácil conciliar estes sentimentos com o dia a dia na escola. Tem de dar o seu melhor aos alunos sem ver “reconhecimento” do seu trabalho.

Apesar do descontentamento e desânimo que impera nos corredores das escolas, os professores, ouvidos pelo i, avisam que estão com força para protestar e que “não há outro caminho que não a greve”, sendo esta a “arma” da classe, frisam. E a determinação e união dos professores em torno da greve está a cimentar “movimentos espontâneos” que estão além dos sindicatos, dizem em uníssono os três docentes. “Por nove anos de serviço até perco as férias se for preciso”, faz saber João Narra, que dá aulas há 23 anos. “Vou continuar a faltar até onde pudermos”,  frisa também Celeste Oliveira. 

Este é o momento mais tenso que se vive no mundo da Educação desde que este governo tomou posse, com um braço de ferro que, para já, não tem fim à vista. Além das greves já agendadas até ao final de julho, em cima da mesa há ainda paralisações previstas para 14 de setembro, dia em que começam as aulas do próximo ano letivo, e para quatro dias da semana de 5 de outubro, quando se assinala o Dia Mundial do Professor. 

Todos os docentes com quem o i falou dizem não ter tido dúvidas em aderir às greves. “A revolta é muito grande”, avisa Maurício Brito, sublinhando que não estão dispostos a ceder.

A não contabilização dos nove anos e quatro meses na carreira dos professores tem um “grande impacto” na vida dos docentes. Maurício Brito, por exemplo, está nos quadros há 23 anos e no 3.º escalão de um total de dez escalões que compõem a carreira docente. Caso fosse tido em conta o período congelado, progredia para o 5.º escalão, com uma diferença salarial de cerca de 200 euros mensais. O mesmo acontece com João Narra, que ao fim de 23 anos de serviço está também no 3.º escalão. No seu caso os nove anos e quatro meses representam “uma parcela substancial” porque o docente, de 49 anos, quer reformar-se “dentro de uns anos e os nove anos vão fazer bastante falta” para impedir que o valor da sua aposentação tenha sofra um eventual corte por falta de tempo de serviço.  

Já Celeste Oliveira está nos quadros há 33 anos: está no 7.º escalão e passaria para o 9.º escalão. A professora diz que o seu salário – que é menos de 1700 euros  – “é mais baixo do que recebia há dez anos, porque em 2007 trazia para casa mais de 1700 euros”.      

O fantasma de Maria de Lurdes Rodrigues  No geral, o clima é idêntico ao que se viveu durante os anos em que a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues esteve aos comandos da tutela, partilham os professores. Foi durante esses anos, sobretudo em 2008, que se registaram as maiores manifestações da classe. Há dez anos foram várias as manifestações em todo o país e cem mil docentes desfilaram em protesto nas ruas de Lisboa. Até agora, foi esse o marco da maior contestação de professores. 

Mas a dimensão das greves em curso deixam adivinhar um impacto semelhante. De acordo com os sindicatos, a adesão continua a rondar os 95% e há várias escolas onde ainda não se realizou qualquer reunião de avaliação. Desta forma, o final deste ano letivo vai atrasar e há milhares de alunos que estão a ir a exames sem saber a nota do professor. “Já faltei a seis reuniões de Conselho de Turma”, conta Celeste Oliveira, que diz que na sua escola, em Azeitão, até ao momento não se realizou nenhuma reunião de avaliação turmas dos 5.º aos 8.º anos de escolaridade. Também na escola de Maurício Brito, em Ponte de Lima, até à data não decorreu “nenhuma reunião”. Já João Narra, professor da Amadora, decidiu não dar aulas no próximo ano por precisar de “ir respirar outro ar” e conta, entretanto, com “12 horas de greve”. 

Estão ainda frescas as memórias dos tempos de contestação de há dez anos e não são poucas as vezes que os professores regressam a esse passado, fazendo comparações entre o tumulto que se vive agora e o que se viveu naqueles anos. “No tempo de Maria de Lurdes Rodrigues, diria que o sentimento de revolta foi aumentando com o passar dos meses. Agora está a ser um sentimento mais agudo e mais rápido”, retrata Maurício Brito.  

E, tal como naquela altura, surgem agora situações de pressão em algumas escolas, com diretores a desincentivar os professores de fazerem greve. “Sofremos pressões de forma velada, sobretudo as colegas mais novas: há conversas a lembrar que é melhor cumprir a nota informativa e que podem vir a ter problemas”, conta Celeste Oliveira.   

Os professores fazem também comparações entre o atual ministro da Educação e a ex-ministra de José Sócrates, que classificam como tendo sido a “pior” governante de todos os responsáveis pela pasta Educação. “Depois da Maria de Lurdes ficámos muito frustrados, acabrunhados e caímos numa certa apatia”, conta Celeste Oliveira, que diz que só agora, “com os movimentos espontâneos dos professores para a greve, as pessoas voltaram a ter um brilho nos olhos”.    

“Temos tido azar” Ao longo dos vários governos, os professores “sempre foram maltratados, sobretudo com o PS mas também com o PSD”, sublinha a professora de Azeitão. “Temos tido azar com os ministros”, remata.

Tiago Brandão Rodrigues não é exceção desta avaliação. “O ministro aparenta ser uma excelente pessoa. Ponto”, refere Maurício Brito, para quem o governante “é uma figura decorativa” que “assume o papel de quem, equivocamente, está à frente do que se desenvolve. Mas as ideias são da secretária de Estado Alexandra Leitão e do secretário de Estado João Costa”. Também para João Narra este ministro “não tem muito tempero”. Celeste Oliveira acrescenta ainda que “a conversa da ‘Paixão pela Educação’ e ‘temos muito respeito pelos professores’ é tudo tretas”. A docente frisa que os professores foram “muito lesados”, havendo “mitos” de que têm uma série de regalias quando “a profissão está cheia de situações que causam um profundo desgaste”, como a enorme quantidade de burocracia, o “trabalho em casa” e os desafios de gerir uma turma com crianças e adolescentes.   

A viagem do ministro à Rússia para assistir ao jogo da seleção desta semana no Mundial, quando decorre a maior greve com este governo, é mais um motivo para o descontentamento. Para os professores, não há outra descrição: foi mais uma “enorme falta de respeito” para com os docentes.  

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