17/11/18
 
 
José Paulo do Carmo 22/06/2018
José Paulo do Carmo

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Ir arranjado ou abandalhado?

É natural que as modas se reciclem e os estereótipos se vão alterando, mas considero também que existem espaços, ocasiões e momentos que mereciam uma imagem muito mais cuidada, em vez do desleixo que parece ser quase imagem de marca e critério para se ser “à frente”, seja lá o que isso for

Esta semana, no decorrer de uma agradável conversa entre amigos no restaurante Aqui Há Peixe (há mesmo, e do melhor que Lisboa tem) depois de um evento para o qual todos havíamos sido convidados, veio à mesa o facto de, nos tempos que correm, as pessoas em Portugal já não se arranjarem para certo tipo de eventos como o faziam antigamente. E não falo de as pessoas irem em “filinha pirilau” a correr para a Kapital calçadas com sapatos de vela e camisa “para dentro”, como era apanágio há 20 anos, ou de aquilo que considero ser um excesso de uso do fato, ainda para mais quando não se sabe usar para o trabalho, seja ele um dia mais tranquilo ou a mais importante das reuniões.

É natural que as modas se reciclem e os estereótipos se vão alterando, mas considero também que existem espaços, ocasiões e momentos que mereciam uma imagem muito mais cuidada, em vez do desleixo que parece ser quase imagem de marca e critério para se ser “à frente”, seja lá o que isso for. Hoje em dia, as pessoas podem andar “bem” assumindo diversos estilos e, embora passe muito pela roupa, vai também do resto do corpo, do cabelo e do conjunto como um todo. Se eu percebo que, muitas vezes, as pessoas, quando vão beber um copo à noite, queiram ir mais relaxadas e por vezes não se queiram preocupar muito, já não entendo que assim seja para momentos especiais ou sítios que “pedem” outro rigor. Até para respeito dos mesmos.

E isso, de facto, só vejo ainda a perdurar em Portugal, embora no Porto e na Madeira as pessoas ainda se vão arranjando, sobretudo na passagem de ano e em alguns bailes e festas mais privados. Mas se for feito por estrangeiros, aí já é chique. As pessoas ainda se vão arranjando uma vez por ano no Algarve, no verão, mas pura e simplesmente passou a ser quase razão de vergonha ir a algum lado com classe. Não vejo isso lá fora, muito sinceramente. Embora haja festas para todos os gostos como cá, existem aquelas ocasiões de charme em que tudo parece brilhar, tais são os pormenores a que as pessoas vão. E é nestes momentos que as pessoas mais distinguem o bom gosto do gosto duvidoso - na forma como se arranjam para este tipo de cerimónias.

Deixou de ser o fato o espaço de consenso obrigatório ou os sapatos assim ou assado, mas sim a forma como interpretamos o nosso estilo, as nossas vontades e o nosso prazer em estarmos confortáveis mas, ao mesmo tempo, apresentáveis - e é isso que faz a diferença. Porque não se querem pessoas todas iguais, mas sofisticadas, muitas vezes simples, mas sempre com identidade. Não é o fato que faz um homem estar arranjado para um sítio especial nem o facto de ir de ténis torna a pessoa não elegível, à partida, para o sítio onde foi convidada. Há festas e festas, fatos e fatos, ténis e ténis. Depende do que escolhemos, de como o conjugamos e do sítio para onde vamos. Porque parece que há por aí pessoas que se acham tão alternativas e tão diferentes que consideram ser moda aparecerem em eventos importantes com ar de quem não toma banho e acabou de sair da cama.

Na minha opinião há um espaço de beleza, de cuidado e de satisfação por estarmos bem e por nos apresentarmos no nosso melhor que não deve ser perdido. Porque isso é também sinónimo de que temos gosto em sermos quem somos e em como nos apresentamos às pessoas mas, acima de tudo, é sinal de que respeitamos os sítios onde vamos e quem nos convidam. O ar abandalhado em certas situações pode ser reflexo de que se estão a marimbar para o esforço que foi feito em determinada ocasião, em prol do ego pessoal. Eu continuo a achar que há espaço para tudo, mas continua a haver para quem se quer bem e se preocupa com a forma como se apresenta como um dos seus cartões-de-visita mais poderosos. A sua marca. A sua essência.

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