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O futebol como o último fio da narrativa épica num tempo profano

O futebol como o último fio da narrativa épica num tempo profano

DR Diogo Vaz Pinto 21/06/2018 16:54

O mito de que o estilo de jogo das seleções exprime o caráter de uma nação foi há muito desmontado, mas é inegável que o futebol ainda oferece um laboratório privilegiado para a psicologia dos povos e as questões de identidade nacional

Reduzi-lo a uma simples modalidade desportiva seria proferir uma terrível blasfémia. Se não dá fogueira, só isso falta. Como bem viu o poeta e aficionado Eduardo Galeano, o futebol é nos nossos dias “a única religião que não tem ateus”. É quase impossível alhearmo-nos do seu efeito de contágio, furar o cerco desta absorvente “peste emocional”. Mesmo quem não quer escapar à sua sedução reconhece os efeitos nefastos do futebol--espetáculo, ao ver como o capitalismo se apropriou desta fábrica de mitos, gizando um modelo de negócio ultralucrativo, e são hoje os mais apaixonados que reconhecem o perigo de estes poderosos interesses políticos e financeiros arrasarem a estranha magia do futebol. No célebre livro que dedicou à grande “festa pagã” (“Futebol ao Sol e à Sombra”), Galeano vincava como “a tecnocracia do desporto profissional vem impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia”.

Este não será, contudo, outro texto elencando os perigos desta dinâmica, até porque a realidade mediática, a esse nível, não cessa de nos providenciar exemplos dos obstáculos que ameaçam a lenda do futebol numa sórdida operação contabilística. O facto é que, a partir do momento em que se tornou um desporto de massas, a devoção que o futebol desperta sempre foi alvo de suspeita. Já em 1880, em Londres, Rudyard Kipling mostrou o seu desdém por esta modalidade, referindo-se aos seus adeptos como “almas pequenas que podem ser saciadas pelos enlameados patetas que a jogam”. Mas se não faltaram figuras vultuosas que o atacaram como “ópio dos povos”, Galeano lembra que não houve entre os intelectuais qualquer unanimidade sobre a grandeza ou baixeza deste desporto. Dá o exemplo do marxista italiano Antonio Gramsci, que elogiou “este reino da lealdade humana exercida ao ar livre”.

O certo é que o futebol há muito é visto como um espelho que cedo acusa as transformações na sociedade, e o alemão Hans Ulrich Gumbrecht – um teórico da literatura que se dedicou a um estudo profundo da ideia dos “estilos nacionais” na forma de as seleções jogarem futebol como expressão de essências nacionais –, num artigo publicado na “Folha de São Paulo”, frisava que “aquilo que chamamos de ‘desporto’ nunca, durante toda a história da humanidade, nem mesmo na Grécia Antiga, teve um papel social tão complexo como o que ganharam o desporto de massas e o desporto profissional, após o lazer se ter transformado, nas sociedades burguesas, num direito reivindicado por todas as classes sociais”. 

Gumbrecht aplica-se neste artigo a desmontar a convicção que há muito envolve o futebol – e acima de qualquer outro desporto – de que as seleções, no seu estilo de jogo, revelam características próprios de cada nação. Destacando a tendência para o domínio dos desportos de equipa junto das massas a partir do início do séc. xx, ele nota que o que houve de historicamente novo foi o reconhecimento da “bela jogada como fascinação estética central” nestas modalidades. E adianta que “não há nenhuma outra modalidade desportiva que apresente uma tipologia com um grau de diferenciação tão pronunciado” como acontece no futebol. É essa margem, segundo ele, que “nos permite diferenciar entre a disciplina dos italianos, que dão preferência à defesa, o inspirado ataque integral dos holandeses e a bem-sucedida vontade para o sacrifício dos alemães; entre a elegância retilínea dos argentinos e a arte dos brasileiros, cujo modelo e influência se faz sentir também no jogo da seleção portuguesa e de algumas das seleções africanas”.
Ao contrário do que acontece em desportos como o futebol americano, o básquete e o handebol, em que a bola é movimentada sobretudo com as mãos e em que a equipa que detém a posse da bola está numa “situação de nítido contraste com a adversária”, o futebol abre-se a uma gama tão grande de possibilidades justamente porque, como o artista plástico e ensaísta Nuno Ramos refere, lida com “a impossibilidade de fixar a bola com os pés, de retê-la fora do alcance do adversário, o que cria uma alternância constante de posse de bola”.

Num ensaio que publicou em 2006, n’“O Estado de São Paulo” (“Lá está ele, trágico como a vida, rugindo como o mar: o futebol”), Nuno Ramos entra em diálogo com Gumbrecht e outros, e combinando o seu fenomenal instinto para sacar ilações preclaras com a inveterada paixão pelo futebol, liga esta impossibilidade de a bola ser detida a uma “dispersão, uma peregrinação de povo sem terra, uma ausência de objetividade constitutivas do futebol: a bola deve ser tocada sem parar, deve girar, girar, numa interrogação permanente”. E para ilustrar a carga trágica que torna este jogo um convite tão aliciante, diz que ele “carrega uma ferida interna insaciável, que apenas as partidas com enorme disparidade entre as duas equipas conseguem aquietar, pois toda a promessa das jogadas, das bolas na trave, das chances desperdiçadas, dos penáltis inexistentes ou não marcados vem cobrar a sua vez, como uma alma penada à espera de justiça”.

Nesta alternância da posse de bola, o próprio golo – o objetivo maior do jogo – aparece como um momento de rutura, num hiato, só ele comove “o severo juiz do placard”, o qual, finda a partida, emite um juízo, uma única leitura que se demonstra tantas vezes “violentamente avassaladora”, tendo em conta a gama imensa de possibilidades que o jogo abrira. Gumbrecht analisa a forma como, no futebol, a fluidez que há na passagem do ataque para a defesa faz com que este ofereça “mais espaço para a intuição e para as reações rápidas de mudança de tática do que outras modalidades desportivas que permitem o toque da bola com a mão”. E pelo grau de incerteza que lhe é próprio, “a implementação direta de programas é tão limitada que só podem tornar-se efetivos enquanto sugestões iniciais para os jogadores”. O alemão traça ainda um contraste “entre uma fascinação geométrica (no caso do básquete ou do futebol americano) e um gesto existencialista (no caso do futebol)”. E é aqui que, depois de se reconhecer que é difícil ligar os estilos de jogo com determinadas táticas ou programas, a porta fica escancarada para que estes possam ser relacionados com “conceitos de identidade relativamente vagos, como os de carateres nacionais”.

Nesta encruzilhada, podíamos seguir Gumbrecht na forma como ele recua aos primórdios do séc. xx e se faz valer dos textos que, na falta de material iconográfico, permitem reconstituir a forma como se jogava antes da “junção” deste desporto com os média televisivos, e como ele vai demonstrar paulatinamente que, “mais do que os carateres nacionais, foram o modelo, a influência e, sobretudo, o sucesso de determinados jogadores, determinados técnicos e suas equipas os fatores decisivos na configuração de estilos nacionais de jogar futebol”. Não é isso, no entanto, o que faremos.

Aqui, a verdade desportiva interessa-nos menos que a perspetiva do futebol como palco para uma “guerra dançada”, na expressão de Galeano. Se a cultura é menos uma linha fixa do que uma que se projeta com cada passo que damos, é evidente que o futebol assumiu um papel decisivo naquilo que subsiste do esforço de formação das identidades nacionais.

Num contexto de economia global, e de um ambiente progressista que, além de abolir fronteiras, pretende humilhar todos os traços de nacionalismo em nome da prevenção contra modelos totalitários que voltem a apoiar-se nas velhas feridas, nos regionalismos atávicos e nos ódios identitários, quando às nações não resta senão agarrar-se àquelas tradições até ao momento tidas por inofensivas, e que não estão ainda debaixo de fogo, restam esses momentos de suspensão da atividade censora, eventos como o Campeonato do Mundo de Futebol para, a cada quatro anos, reviver um certo fulgor patriótico. E se as narrativas históricas estão hoje abertas a uma revisão implacável, com a mentalidade progressista a puxar a História para o tribunal da boa consciência, condenando e humilhando o passado, os povos devem hoje contentar-se com rituais que recuperam um simbolismo entre o nostálgico e um misticismo frívolo. O fuzué em volta do Mundial, a altura em que, antes de cada jogo, tocam os hinos e as bandeiras são hasteadas, é então que se instaura uma espécie de recreio para as tentações nacionalistas. 

Como o colunista Luiz Zanin observou num texto de homenagem a Nelson Rodrigues publicado na revista da USP (dezembro/fevereiro 2012-2013), “as partidas, e a disputa em si, seriam embates bélicos sublimados no campo lúdico”. E acrescenta: “Um jogo não é apenas um jogo, mas uma luta entre duas identidades nacionais. Uma seleção forte expressaria uma nação forte, mas, dialeticamente, uma seleção vencedora tornaria ainda mais forte a nação que representa.”
Atribuindo responsabilidades a Nelson Rodrigues por carregar de simbolismo aquilo que se passava nas quatro linhas, carregando na hipérbole que, com a exuberância que lhe era característica, logo saltava para o terreno dos mitos, e porque a sua eloquência lhe permitia tudo, não havia acontecimento que, não contente com dar cabo dos tambores da emoção, não adquirisse logo contornos trágicos, quando não épicos. “Assim, Nelson não diz que a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950 foi terrível, porque soaria fraco. Ele diz que a derrota foi uma tragédia pior que Canudos. Mais: foi a nossa Hiroshima.”

Já em 1958, depois de o Brasil se sagrar campeão do mundo com uma vitória por 5 a 2 na final, face à Suécia, Nelson Rodrigues deitou o champanhe da sua hipérbole sobre aquela conquista e reforçou o poder transformador do futebol. A tese era a de que “uma vitória na Copa poderia nos levantar dos porões do mundo subdesenvolvido e levar-nos ao destino de grandeza que seria o nosso”, resume Zanin. E cita a triunfal crónica em que Nelson garante que o título do Mundial tinha até curado um dos maiores males do país, o analfabetismo: “A partir do momento em que o rei Gustavo da Suécia veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofreu uma alfabetização súbita. Sujeitos que não sabiam se gato se escreve com ‘x’ iam ler a vitória no jornal.” E, adiante: “Já ninguém tem mais vergonha da sua condição nacional. E as moças, na rua, as datilógrafas, as comerciais, as colegiais, andam pelas calçadas com um charme de Joana d’Arc. O povo já não se julga mais um vira-latas. Sim, amigos: – o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na generosa totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas.”

Também isto, como é fácil de ver, é um recreio para a verve, o estilo, um modo do génio de Nelson Rodrigues celebrar-se à boleia de uma hora tremendamente feliz, dando folga ao espírito para correr em celebração, vingando-se dos “dias, pequenos charcos”. Porque é preciso escolher esses momentos de afinação coletiva para que o talento individual, dentro ou fora das linhas, contribua com “a bela jogada” que enturma um povo numa mesma “fascinação estética”.

Não há coisa mais natural que os que vivem em comum e hoje partilham existências dominadas pela rotina, a repetição que humilha cada um a um nível íntimo, busquem estes momentos de evasão, e o futebol providencia esses campos de batalha simbólicos onde se projetam as ânsias que a sociedade frustra, quebrando o elo entre os homens. Ora, é ali que se retomam, em fuga e, por vezes, em desafio à realidade, que os homens se sentem de novo unidos em volta da camisa de um clube ou de uma bandeira e simulam o fervor dos exércitos que, mais do que um avanço, buscavam a glória.

E aqui vale a pena abrir um parêntesis para ilustrar, através de um exemplo histórico, como o futebol, muitas vezes, mais do que ser um lugar de expiação ou catarse, deu margem a uma revolta e transgressão impossível fora das quatro linhas. É Galeano quem refere no seu livro o monumento que, na Ucrânia, lembra a coragem dos jogadores do Dínamo de Kiev de 1942. Sob ocupação nazi – e sabendo-se como aquele regime tinha o futebol na conta de uma questão de Estado, e encarava as vitórias desportivas como demonstração da superioridade ariana –, aqueles jogadores cometeram a mais audaciosa das loucuras: derrotaram a seleção de Hitler no estádio local. E não é que não tivessem sido avisados do preço que esse resultado cobraria. Entraram na morte de olhos abertos, depois de terem entrado no estádio resignados a perder. Foi assim que começaram o jogo, tremendo de medo e com fome. Mas, trocando a bola, esta animou--lhes o espírito e puxou um lustro ao desejo de uma última dignidade. Os onze foram fuzilados no alto de um barranco quando a partida terminou. Morreram envergando a camisola da seleção.

Se a bola já se confunde para alguns com a própria bandeira, se há muitos regimes autoritários e também democráticos que não passam ao lado da importância do futebol como fator de aglutinação nacional, sabendo os políticos e dirigentes da vantagem de receber as seleções, tratar como heróis os jogadores, Nelson Rodrigues cultivava “a complexidade shakespeariana” de cada partida. “Se o jogo fosse só a bola, está certo. Mas há o ser humano por trás da bola, e digo mais: – a bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. E o lindo, o sublime na vitória do Santos é que atrás dela há o homem brasileiro, com o seu peito largo, lustroso, homérico” (“O Globo”, 19.11.1963). 

Diz-se que Homero era cego. É mais um traço que aproxima Nelson Rodrigues do grande narrador épico. Foi o seu amigo e seguidor Armando Nogueira que lhe chamou “Homero do futebol brasileiro”, e no primoroso texto que assina na badana da primeira seleção das crónicas de futebol do outro (“À sombra das chuteiras imortais”), conta que Nelson “não enxergava direito. De longe, então, era incapaz de distinguir Fulano de Beltrano. No Maracanã, que deixa o torcedor a léguas do campo, não conseguia ver o jogo sozinho. Tinha que ter alguém soprando no ouvido dele os lances que a vista curta não alcançava. E, no entanto, ninguém jamais retratou um jogo de futebol com a dimensão épica que o leitor vai encontrar neste livro”.

Nelson é a prova de que, às vezes, só uma vista fraca ultrapassa a tentação de se pôr a comer às colheres da taça de um jogo de futebol. É dentro de uma certa cegueira que se torna possível recuperar esses invisíveis contornos entre os quais se debate a fome dos povos por uma identidade mítica.

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