20/9/18
 
 
Joana Mortágua 20/06/2018
Joana Mortágua
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Crónica sobre o branqueamento da História

A história da expansão portuguesa também é a dos seus horrores e a das suas vítimas. Branqueá-la para evitar julgamentos morais sempre serviu melhor a direita reacionária do que o prestígio dos nossos alegados antepassados

No dia 10 de junho, Catarina Martins usou o Twitter para antever um dia “em que os discursos oficiais serão capazes de reconhecer a enorme violência da expansão portuguesa, a nossa história esclavagista, a responsabilidade no tráfico transatlântico de escravos”. Em resposta, Pedro Ferros publicou neste jornal a “Crónica da devoção do BE a algumas ideologias esclavagistas”.

Argumenta Ferros que o Bloco de Esquerda não tem legitimidade para “alegados” acertos morais com a História porque tem no currículo o apoio a regimes esclavagistas contemporâneos, como a Coreia do Norte. 

Como o tema é sério, deixemos todos os disparates desse texto para os anais da vergonha alheia. Seja por desonestidade oportunista ou por ignorância rasteira, apontar a “confluência do Bloco” com regimes como a Coreia do Norte, a Venezuela ou Cuba é uma acusação que está ao nível do Facebook de um militante da Juventude Popular, que nem Nuno Melo chega a tanto delírio. 

A desonestidade do argumento é agravada pela tentativa de justificar o desacordo com Catarina Martins pela coerência, e não pelo conteúdo. Como se fosse uma denúncia de oportunismo. Pela lógica, seria então de esperar que Pedro Ferros usasse a sua própria “alegada” legitimidade moral para reconhecer que a prematura abolição oficial da escravatura conviveu com a prática do tráfico de escravos até muito mais tarde e de trabalhos forçados nas colónias pelo menos até 1961. E que tudo isso faz parte do nosso “legado para a humanidade”.

Mas a crónica não vai por aí. Salta diretamente para a cartilha defensiva e justificadora sobre o contexto histórico da expansão e o papel insignificante que Portugal teve na realidade da escravatura, “que já existia e continuou a existir”. A comparação com impérios ainda mais esclavagistas é igualmente estéril, todos transportaram a barbárie. Os factos são factos, o problema é continuar a abusar do relativismo para reduzir a complexidade histórica a um relato fantasioso sobre a brandura da expansão e a ternura do colonialismo. 

Quem o faz não procura exaltar o legado de um pequeno país periférico que se fez potência, mas impedir o surgimento de perspetivas críticas que iluminem essa história para além da sua versão única e oficial. As provas estão aí, já todos passámos pelo currículo de História do ensino obrigatório. Da mesma forma, não seria sério contestar os contributos para a globalização, a marinhagem, a ciência e o comércio. Mas construir a memória comum escolhendo à la carte acontecimentos ou factos históricos cumpre uma agenda política e ideológica.

Este debate não é sobre pecados capitais nem sentenças eternas – cruzes, cada um carrega as que quer. Não há ajustes de contas a fazer com o passado, a História não tem alternativa ao que foi. Mas há contas a ajustar com a verdade. Foi esse o pertinente reparo que Catarina Martins fez. A história da expansão portuguesa também é a dos seus horrores e a das suas vítimas. Branqueá-la para evitar julgamentos morais sempre serviu melhor a direita reacionária do que o prestígio dos nossos alegados antepassados. 

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