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Alexandra Duarte 19/06/2018
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

A saúde mental em Portugal

O número de camas nos hospitais psiquiátricos tem vindo a diminuir, mas o número de doentes mentais não. Quem acompanha e trata destes doentes são as suas famílias ou profissionais em infraestruturas que não estão vocacionadas para o seu tratamento

Portugal tem uma das mais elevadas prevalências de doenças mentais da Europa. A par desta constatação surge uma outra que demonstra que há um défice de cuidados acentuado e que perto de 65% das pessoas com perturbações mentais moderadas e 33,6% com perturbações graves não recebem cuidados de saúde mental adequados.

Continuamos a olhar para estes doentes com muita desconfiança, fruto do nosso desconhecimento profundo destas patologias, e também porque no nosso dia-a-dia não temos contacto com esta doença, que desde sempre se quis muito reservada e distante dos olhares mais curiosos. Mas isto não significa que não seja uma realidade dura para muitas famílias, para além do próprio doente.

O estigma que recai sobre o doente mental começa logo na própria designação que lhe é atribuída e que reflete todos e quaisquer cuidados para não ferir suscetibilidades, mas, ao mesmo tempo, abre a porta para uma diferenciação negativa. Veja-se esta evolução: de deficiente mental alterou-se para doente mental e, mais recentemente, surgiu uma última denominação que substitui as anteriores: pessoa com dificuldade intelectual e de desenvolvimento. Este cuidado extremo, que até compreendo face a comportamentos menos corretos perante quem sofre de doenças mentais, aumenta o desconforto de quem não sabe lidar com situações que envolvam estes doentes que, na verdade, não passam de pessoas como nós, que em determinado momento da sua vida viram uma parte do seu cérebro deixar de funcionar normalmente, levando a vários tipos de manifestações corporais, umas mais exuberantes, outras mais prostradas. Uma doença como outra qualquer, mas de uma complexidade tal que a própria ciência não oferece ainda respostas para as muitas interrogações dos profissionais que investigam e acompanham diariamente estes doentes.

Estima-se que 23% da população portuguesa é afetada pela doença mental e do foro psiquiátrico. Se atentarmos nos números de consumo de psicofármacos em Portugal, verificamos que os números dos antidepressivos continuam a aumentar e houve uma ligeira descida nos ansiolíticos, enquanto os fármacos para as psicoses estabilizaram. Em contraste, dizem os entendidos, só 15% destes doentes estão devida e adequadamente medicamentados.

Portugal tem acompanhado as tendências europeias também nestas matérias. Desde 1998 que se incrementam políticas que promovem a desinstitucionalização e o desenvolvimento de cuidados na comunidade. O número de camas nos hospitais psiquiátricos tem vindo a diminuir, cifrando-se atualmente o rácio em 5,5 camas por cada 100 mil habitantes. Se o número de doentes mentais não diminuiu, então pode concluir-se que quem acompanha e trata destes doentes são as suas famílias ou profissionais que trabalham em infraestruturas de saúde que não estão especificamente vocacionadas para o seu tratamento.

A doença mental, pela sua longevidade, carece de uma continuidade de cuidados que não se esgotam quando o paciente recupera de um episódio mais grave e recorre aos serviços médicos para interromper a crise. É muito mais profundo do que isto, é um acompanhamento quotidiano que se impõe se queremos dotar estas pessoas de um mínimo aceitável de qualidade de vida, em vez de as privarmos de atividades diárias que favorecem o seu equilíbrio, ao suprimirmos equipamentos de acolhimento que podem ter esta oferta e melhorar significativamente a sua vida. A continuidade de cuidados difere, em muito, dos cuidados continuados integrados da saúde mental; e implica a manutenção de estruturas e equipamentos sem limitação de tempo, uma vez que estamos a referir-nos a doenças crónicas.

Neste cenário, onde se encontram as famílias dos doentes mentais? Ouvi recentemente testemunhos perturbadores que me comoveram pela sua simplicidade e amor. Esquecemos que junto de uma pessoa com todas estas dificuldades está uma família sofredora que teve obrigatoriamente de se adaptar a uma existência até ali desconhecida. Uma dinâmica familiar que passou a ter uma outra centralidade com todas as consequências que podem imaginar. O desafio de mais um dia vingado, de uma esperança renascida onde se vão buscar as forças para os dias que hão de vir. Pensar nas pessoas que sofrem de uma doença mental é sentir o sofrimento de quem está ao lado, o desgaste físico e emocional a que está sujeito quando assume a responsabilidade de cuidador, para a qual não está habilitado nem mesmo preparado.

A discriminação vai para além da palavra que se dá a quem está doente. Começa no tratamento médico que se disponibiliza, na constituição de instituições que acolham doentes psiquiátricos graves nas várias fases de tratamento, nos dispositivos diferenciados de tratamento que são necessários, não desconsiderando a prestação social de inclusão – vulgo apoio ao doente – que, nos dias de hoje, é irrisória, atendendo a todos os cuidados indispensáveis envolvidos.

Com o aumento da esperança de vida e com todas as vulnerabilidades associadas a esta longevidade, um dia, todos nós poderemos sofrer de uma qualquer demência. Hoje já se contabilizam entre 160 mil e 180 mil casos, prevendo-se que, até 2050, este número aumente significativamente. Não cuidar dos que hoje já sofrem de doenças mentais é não providenciar o futuro, negligenciando os presentes.

 

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