22/9/18
 
 
Mário Cordeiro 19/06/2018
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

Cara de pedófilo…

Não havia provas no caso de Paulo Pedroso. Nem uma. Não havia sequer indícios. Mas esteve cinco meses preso porque tinha cara de “bebé-chorão” e de “anjinho de coro”, como ouvi na altura

Na semana em que o Estado português foi, muito justamente, condenado pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem a indemnizar Paulo Pedroso por “perdas e danos” resultantes da sua prisão preventiva por cinco meses e por tudo o que passou, em termos mediáticos, com assassinatos de caráter e destruição da imagem promovidos por muita gente, desde alguns jornalistas a alguns juízes, quero pedir- -lhe desculpa.

É inacreditável que uma pessoa seja detida com aparato em plena Assembleia da República e o juiz encarregado de o fazer avise um canal de televisão, que sobe com ele no elevador da própria “sede da democracia”, para prender com pompa e circunstância um “representante do povo”. Que a televisão queira ir, tudo bem; que o juiz autorize, é inqualificável.

As acusações eram terríveis, das que mais ferem a dignidade da pessoa: abuso sexual de menores. Crimes contra a autodeterminação sexual – assim é o nome correto. Um crime público. Hediondo, a pior forma de agredir uma pessoa: física, psicológica e socialmente. Uma agressão ao que há de mais íntimo e sagrado.

Motivo? Na onda das detenções do caso Casa Pia, no afã de encontrar criminosos (que deveria ser esmiuçado, porque há tanta coisa a cheirar a esturro que é estranho que os jornalistas tenham estado tão quietinhos…) mostraram-se fotografias “em lote” a jovens que disseram, desdisseram, voltaram a dizer, não se lembravam, o que talvez fosse agora já não era e vice-versa.

Houve abusos sexuais? Houve. Facto provado. Alguém abusou destas crianças, aproveitando várias circunstâncias: não terem família, a família putativa deles ser o Estado (o pior dos patrões, o pior dos amigos, o pior dos pais) e, finalmente, serem rapazes cuja credibilidade, se por acaso falassem, seria muito menor que a de uma rapariga, e mais ainda seria sujeito à vergonha de ser “maricas”. Pois é, senhoras Capazes: um rapaz violado é bem diferente de uma rapariga violada, porque nem merece a solidariedade social que uma rapariga suscita. Vem nos livros, é da prática com que lido há 35 anos, desde que, com colegas, juízes e técnicos de serviço social e de saúde mental criámos a primeira comissão para apoio a estas crianças… nos idos de 1983.

Depois de mostrarem fotografias bem organizadas de um álbum que só Deus sabe quem elaborou, foram reconhecidos vários “pedófilos”, ou seja, pessoas identificadas pelas crianças como “foram eles!”, e atestados pelos juízes como “tendo cara de pedófilos”. Não havia provas no caso de Paulo Pedroso. Nem uma. Mais, não havia sequer indícios. A sua cara estava numa lista onde estavam Jorge Sampaio, Ferro Rodrigues e muitos outros, curiosamente quase todos do PS, ao que parece até Marcelo Rebelo de Sousa e Narana Coissoró, e até Herman José, que sofreu a agressão e a violência de ser detido em plena gala dos Globos de Ouro. O que vale é que Herman chega para eles todos e tem um talento e uma credibilidade que dá 10-0 a este tipo de pseudojustiça, como se viu.

Paulo Pedroso esteve cinco meses preso. Sim, preso. Sem acusação, sem culpa formada, sem nada. Porque “tinha cara de pedófilo”. Tinha cara de “menino”, “bebé--chorão”, “anjinho de coro” e tantas outras coisas que ouvi na altura, incluindo da boca de altos magistrados e de pessoas com responsabilidades sobre a vida de outros, como geralmente o são os que trabalham em cargos superiores da magistratura, e que não duvidavam da sua culpabilidade, nos corredores, porque “com aquela cara tinha de ser culpado”. Ouvi isto com os meus ouvidos…

Foi liberto, mas a sua carreira política acabou e, segundo o próprio, passou a ser olhado com desprezo e com raiva por muita gente “porque tinha cara de pedófilo”.

Para lá da atitude inqualificável de prender uma pessoa “porque cheira que foi ela” (aliás, a condenação dos réus, salvo um ou outro caso, foi baseada em “convicções da juíza”), este novo teste de abuso de menores baseado na fisionomia é uma coisa extraordinária que ganharia o Prémio Nobel se não fosse tão ignóbil, indecente e velhaco.

Paulo Pedroso foi preso porque o identificaram numa minifotografia a preto-e- -branco colocada muito adequadamente num local… feito para identificar, e porque tinha “cara de pedófilo”.

A vergonha que sinto é enorme, como cidadão da República Portuguesa. Como profissional empenhado na prevenção e no combate aos crimes contra a autodeterminação sexual de menores, fico enojado. Repugna-me este tipo de valores, de definições de quem é bom ou mau pela cara. Afinal, muitos dos que se enxofram (e bem) por se dizer que fulano ou beltrano é “de certeza” ladrão por “ser preto”, aceitaram de bom grado esta acusação sobre um político que desempenhou altos cargos e que era, na altura, deputado.

O Estado português vai pagar-lhe uma bagatela. “Nem que fosse um euro!”, exclamou o seu advogado, mas devia pagar muito, muito mais. Quando foi do caso das duas crianças do Aquaparque, ativei o processo que conseguiu a condenação do Estado por não ter transposto a tempo a diretiva comunitária que velava pela segurança desses espaços de recreio. O Estado pagou mas, infelizmente, as crianças já tinham morrido.

O Estado que não protegeu as crianças da Casa Pia, mesmo depois de repetidas denúncias, mesmo depois de altas individualidades saberem do assunto, o Estado que preferiu assobiar para o lado – como tantas vezes faz – arranjou, através de um dos seus braços, supostamente imparcial, pessoas para “calar o povo”. Paulo Pedroso, Herman José e tantos outros. Caifás e Pilatos não fariam melhor.

A justiça deve ser cega e irresponsável. Realmente, mais do que em sentido figurado, foi-o em sentido literal, com a cumplicidade e vampirismo de alguns jornalistas e meios de comunicação social… que entretanto passaram pelos pingos da chuva e “andam por aí”. Felizes e bem-dispostos.

Eu, que como profissional nada tive a ver com o processo e que nunca vi nem conheço Paulo Pedroso nem ninguém da sua família, peço-lhe desculpa, como cidadão, pelo que o meu país lhe fez. Assim como, já na altura, pedi desculpa a todas as crianças abusadas, ali e em muitos outros locais e instituições – tentámos denunciar os que conhecíamos –, porque o Estado somos nós e tem por obrigação proteger todos os cidadãos inocentes, sejam crianças vítimas de abusos sexuais, sejam adultos inocentes que, para alguns, cometem o “crime” de ter (o que nem sei sequer o que é) “cara de pedófilo”.

 

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