15/11/18
 
 
Marta F. Reis 15/06/2018
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Lisboa: super trendy mas sem elevador no metro

Somos todos pela igualdade e por um país com mais filhos, mas o básico dos básicos - para quem tem mobilidade reduzida ou de empurrar um carrinho - não parece ser uma prioridade

“Vais mesmo de transportes para a Feira do Livro, grávida assim e com a mais nova no carrinho?” Confesso que o stresse do trânsito em Lisboa mais ter de pagar estacionamento, e ainda o facto de ser um pouco teimosa e não gostar de dar parte de fraca, me levaram a insistir no meu plano inicial: ir alegremente de comboio até Lisboa e depois apanhar o metro até ao Parque Eduardo vii. Nem o argumento de ser feriado e ressaca de greve dos ferroviários (o que acredito que tenha contribuído para o tempo que esperei pelo comboio, mas tudo bem, não tinha pressa) me dissuadiu. 

Havia ainda aquela questão de ter a ideia de que os acessos, sobretudo no metro, não estão minimamente preparados para pessoas com mobilidade reduzida, o que acho uma falta de respeito e de humanidade atroz que passa demasiado ao lado da maioria das pessoas e de quem nos governa. Não ando diariamente de transportes e por isso admito que também só o senti na pele das primeiras vezes em que insisti em ir de comboio para Lisboa, com a minha filha de meses, durante a licença de maternidade, há dois anos. Ainda assim, pensei que em dois anos pudesse ter mudado alguma coisa... E em vez de sair em Entrecampos, onde já tinha tido essa experiência surreal de não haver como chegar aos cais do metro sem ser por escadas, podia sair em Sete Rios e de certeza que não ia ter o mesmo problema. Afinal, é Sete Rios...

Para o leitor menos habituado a Lisboa, Entrecampos e Sete Rios são só duas das estações de ligação mais movimentadas da capital. Aqui há tempos, a Câmara de Lisboa, a propósito daquele novo projeto urbanístico, até dizia que Entrecampos era a maior interface de transportes. Pois de facto é tudo incrivelmente cosmopolita em Lisboa, mas os problemas que afetarão dezenas ou centenas de pessoas por dia parecem não ser urgentes e, dois anos depois, está tudo na mesma. E as mães que podem pegar nos filhos ao colo ou dizer-lhes para subirem a pé - até eles passarem a fazê-lo sem precisarem de instruções - serão, ainda assim, muito menos prejudicadas do que pessoas que andam de cadeira de rodas ou têm outros problemas de locomoção, fruto de doença ou simplesmente da idade.

As minhas ilusões duraram pouco tempo. Saí então em Sete Rios. O elevador da plataforma funcionou até ao zero. Para o -1, que dá acesso ao metro, as portas já não fecharam e tive de me resignar a ir de escadas rolantes com o carrinho e a miúda. Não deveria ser assim, mas não há alternativa. Primeiro obstáculo ultrapassado, pensei que ia correr tudo bem dali para a frente. Durou um par de metros. A pessoa brilhante que desenhou a estação lembrou-se de colocar mais umas escadas antes de chegar à zona de bilheteiras do metro - não percebo nada de construção civil, mas a ideia que dá é que terá sido apenas para efeito decorativo, pela beleza do desnível. Fazer uma rampa não terá ocorrido a quem planeou a obra e também temos de compreender - se calhar, quando a estação de Sete Rios foi inaugurada ou remodelada pela última vez, ainda não havia pessoas de cadeiras de rodas nem com carrinhos de bebé. 

Para descer da zona de bilheteiras para o cais do metro também teve de ser de escadas, com a miúda por uma mão e o carrinho na outra... funcionários e seguranças a quem pedir uma ajuda, não havia. Uma cena primitiva a contrastar com o trendy de tudo o resto na capital. Na mesma plataforma de metro, os outdoors anunciavam que a McDonald’s já entrega hambúrgueres em casa com a Uber Eats e que os Santos tinham wifi da Superbock... maravilhoso novo mundo em que o básico dos básicos não é prioridade.

Já no metro, pensei: vou sair na estação do Parque, diretamente para a Feira do Livro. Nem tentei sentar-me: já seria pedir demais e também a viagem não era longa... mas não teria havido grande forma, as carruagens não estão preparadas para isso e para uma pessoa se sentar com um carrinho de bebé ao lado teria de atravancar todo o espaço. 

Saio então na estação do Parque. No cais, não há outra hipótese que não subir as escadas - para cima, com a miúda numa mão e o carrinho na outra, houve menos santos a ajudar. O que se segue? Uma enfiada de escadas rolantes, também sem elevador, onde tive de fazer mais algum equilibrismo até à superfície. Somos todos pela igualdade e por um país com mais filhos, mas na hora da verdade é isto: não contentes, a saída da estação ainda é feita em quatro ou cinco degraus. Percebo que instalar um elevador custe dinheiro, mas há sítios onde era apenas cimentar um cantinho e montar uma rampa para dar um pouco de comodidade a quem passa. Deve ser para dissuadir as pessoas de sequer ousarem pensar que os transportes públicos devem ser de toda a gente...

 

Jornalista

Escreve à sexta-feira 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×