23/10/18
 
 
António Galamba 14/06/2018
António Galamba

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Ó meu rico Santo António, ou…

“Não tenhamos dúvidas: se pensarmos como a direita pensa, acabamos a governar como a direita governou” – António Costa, 6 de junho de 2014

Neste tempo em que os arraiais populares ganham uma redobrada exaltação, em que Santos Populares, as sardinhas, as marchas, os manjericos e os martelos assentam praça como protagonistas, é também o tempo dos casamentos de Santo António. E como Portugal precisa de alguns casamentos efetivos entre partes que insistem em estar de costas voltadas...

O casamento na banca O casamento entre o caminho certo e o bom senso, depois do fartar vilanagem na macroestrutura da gestão bancária. Os contribuintes, através do Estado, injetam capital ou dão cobertura para que o sistema bancário continue a fustigar os bancários, os depositantes e a coesão territorial. É certo que depois dos divórcios no crédito, a deriva consumista já fez com que a concessão de crédito bancário para compra de casa tivesse aumentado 27%, entre janeiro e abril de 2018, num máximo de 2010, e o crédito às empresas crescesse em idêntico período mais de 15,5%, mas estão em curso mais desfasamentos entre a oferta e as necessidades das populações. A Caixa Geral de Depósitos prepara-se para fechar mais 70 balcões, agora em meio urbano. Alguns cairão na teia da estratégia de comunicação de que, sendo em centros urbanos, não transportam a gravidade do encerramento em espaço rural. Nada de mais errado. Aliás, já vai sendo tempo de se combater esta ideia de que, no contexto urbano, o espaço é irrelevante porque a mobilidade e a proximidade está assegurada pela redundância. Não é assim porque o envelhecimento da população, o isolamento e as dificuldades de mobilidade integram o perfil das populações urbanas. Não é assim porque mesmo o espaço público urbano precisa da vida que lhe é conferida pelos serviços e pela vivência comunitária. Querer substituir a proximidade por soluções digitais ou de corte, na linha da governação PSD/CDS, é um inaceitável regresso do “Macedo Mãos-de-Tesoura”. Isso não significa, infelizmente, que não existam outras mutações da austeridade cega ou consentida que, sem exuberância, vão provocando danos similares no funcionamento sustentado dos serviços públicos. Em tempos defendi que pela pressão urbana, por existirem problemas estruturais permanentes por resolver e por haver uma necessidade constante de manutenção e de adaptação das respostas às pessoas, às novas dinâmicas e aos territórios, a Grande Lisboa não devia ser penalizada no acesso aos fundos comunitários. Julgo ser tempo de se fazer esse combate contra o preconceito de que tudo é acomodável no meio urbano, seja a penalização no acesso a financiamento comunitário ou o encerramento de balcões de serviços com perfil de interesse público, com manifestos impactos negativos na vida das pessoas e na qualidade do serviço.

O casamento com o senso Todos os esforços de modernização da administração pública e até de serviços privados são positivos, desde que se não entre num fundamentalismo que pressupõe que todo o país é dotado de competências digitais, está disponível para se conformar com inaceitáveis desumanizações kafkianas dos atendimentos digitais ou pouco interessa porque o que importa é dar um ar de inovação. Como em tantas outras dimensões, as questões centrais são as da adequação das soluções e da sua sustentabilidade. O que queremos ou podemos fazer, como faremos e como vamos pagar? Não podemos é apregoar fins de austeridade e alimentar, por ação ou por omissão, que tudo é possível, para depois verbalizar as mesmas respostas que a direita verbalizou no passado. Pode até haver a perceção de que os ventos da conjuntura estão a mudar e as incertezas são inimigas da popularidade e de um bom final de mandato da atual solução governativa, mas não é sério querer gerar uma crise só para antecipar calendários eleitorais convenientes ao interesse partidário. Excetuando quem está na titularidade do poder, não interessa a ninguém, uns comprometidos com a solução, outros impreparados para a alternativa e o Presidente atemorizado pela perda de margem de manobra política em caso de maioria absoluta.

O casamento entre a conversa política e a realidade Chegará o tempo em que os eleitos não faltarão aos eleitores com interação, explicação e fundamentação dos comportamentos e das opções políticas. Um tempo de verdade, de transparência e de escrutínio em que a missão de governar deixará de se escudar nas mentiras, nas meias-verdades ou nas construções narrativas artificiais. Um tempo que explique que a paz na península da Coreia, a agitação no Médio Oriente e o protecionismo à economia norte-americana é tudo a face de uma moeda populista, nacionalista e narcisista que sempre esteve presente na cena nacional e internacional, mas em minoria. O mundo mudou e os humanistas, os democratas e os defensores das liberdades com coesão e desenvolvimento tardam em dar a resposta adequada. É assim na União Europeia como noutras latitudes, infelizmente.

NOTAS FINAIS

ALTAR Orçamento do Estado para 2019: “Se à primeira era muito difícil, porque ninguém tinha experiência, à segunda foi mais fácil, à terceira foi mais fácil ainda e à quarta, mesmo que as questões sejam muitas, é mais fácil porque ganhámos entretanto confiança, conhecimento e hábitos de trabalho que ajudarão” – António Costa, 11 de junho de 2018.

ANDOR A memória é tramada. “Têm a minha palavra de que lutarei radicalmente pelos direitos dos professores” – Tiago Brandão Rodrigues, 2 de novembro de 2017.

Escreve à quinta-feira

 

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