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Patrick Leigh Fermor. Um aventureiro rendido à vida monástica

Patrick Leigh Fermor. Um aventureiro rendido à vida monástica

José Cabrita Saraiva 13/06/2018 15:33

Uma “mistura entre Indiana Jones, James Bond e Graham Greene”, Patrick Leigh Fermor teve uma vida longa, variada e cheia de aventuras. “Tempo de Silêncio” é o seu primeiro livro a ser publicado em Portugal

Numa manhã de domingo do final do verão de 1952, um cidadão britânico chegava à Abadia de Saint Wandrille, perto do Havre (Normandia), depois de “uma noite de sofrimento atroz aparentemente interminável”. Aventureiro e beberrão, aos 37 anos Patrick Leigh Fermor já tinha atravessado a Europa a pé, matado um homem acidentalmente, combatido os nazis em Creta, planeado (e executado) o rapto de um general alemão e vivido com uma princesa. Decidira internar-se na abadia beneditina, considerada uma das mais belas de França, não para expiar os seus pecados mas para se dedicar à escrita de um livro, num recolhimento provisório e descomprometido.

Ao final do primeiro dia, fechado na sua cela – “um quarto do século xvii, com uma cama confortável […] e um crucifixo bastante perturbador, pendurado numa das paredes caiadas” – o escritor começou a sentir o peso da solidão abater-se sobre si com uma intensidade inaudita. “A Abadia dormia agora profundamente, mas parecia ridiculamente cedo – a esta hora os meus amigos de Paris (de quem de repente senti saudades intensas) ainda não tinham decidido onde jantar. Depois de terminar uma garrafinha de Calvados que comprara em Rouen, sentei-me à secretária com um acesso de melancolia e acédia opressivas”. As palavras são de “Tempo de Silêncio” (ed. Tinta-da-china). Escrito há 65 anos, é a primeira vez que um livro do autor britânico, a quem já chamaram “uma mistura entre Indiana Jones, James Bond e Graham Greene”, é editado em Portugal.

O sentimento de opressão manteve-se durante três ou quatro dias. “O período durante o qual os parâmetros normais recuam e o estranho mundo novo se torna real é lento e, inicialmente, muito doloroso. Nos primeiros tempos, dormia mal de noite e adormecia durante o dia, sentia-me inquieto, sozinho na cela, e deprimido pela falta de álcool, cuja ausência interrompera subitamente os meus hábitos de consumo”.

Mas, finda esta transição penosa, tudo se desanuviou como que por encanto. “Até as causas principais de culpa se haviam dissolvido num limbo distante […]. Esta nova dispensa proporcionava--me 19 horas por dia de liberdade absoluta e divina. Escrever tornava-se mais fácil a cada momento; e, quando não escrevia, ou explorava a Abadia e a região campestre em redor, ou lia. A Abadia tornou-se o contrário de um túmulo – […] uma universidade silenciosa, uma casa de campo, um castelo suspenso no ar fora do alcance dos problemas e arrelias do quotidiano”.

No final da sua estadia, em outubro, Leigh Fermor tinha escrito não um, mas dois livros: “The Violins of Saint Jacques”, o seu único romance, e “Tempo de Silêncio”, cerzido a partir das cartas que o autor endereçou à sua futura mulher. Nestas páginas, Paddy, como era conhecido entre os amigos, conta a história do edifício (fundado no remoto ano de 649), analisa os rituais e a arquitetura, descreve o quotidiano dos monges e reflete sobre a reclusão, repartida entre missas, ofícios, leituras, orações e meditações em privado. Apesar do “rigor quase militar” e das proibições que tanto lhe custaram ao início, acabaria por ficar rendido ao modo de vida monástico, onde “o tempo passa com uma rapidez desconcertante”.

Um vagabundo no palácio

Nascido em Londres a 11 de janeiro de 1915, Patrick Leigh Fermor teve uma infância longe dos progenitores. O pai, naturalista, vivia na Índia, e quando a mãe e a irmã de Paddy se lhe juntaram, o recém-nascido foi entregue a agricultores do Northamptonshire, pois vivia-se então o primeiro conflito global e temeram que um submarino alemão pudesse afundar o navio. Rebelde e insubmisso, o jovem teve uma educação irregular, até que em 1933 (o ano em que Hitler conquistou o poder na Alemanha) começou a planear uma caminhada através da Europa. 

Partiu de Roterdão no final desse ano com um bordão, um sobretudo e uma mochila onde levava o “Oxford Book of English Verse”. Contava dormir como um vagabundo onde calhasse, mas os seus modos, os seus dotes de bom conversador e a sua bela aparência abriram--lhe as portas de castelos na Alemanha e na Transilvânia. Chegou a Istambul (a que preferia continuar a chamar Constantinopla) na noite de Ano Novo de 1935.

Só mais de 40 anos depois transporia essa experiência para livro – “A Time of Gifts” foi publicado em 1977, “Between the Woods and the Water”, o segundo volume, em 1986, e “The Broken Road”, o último da trilogia, só em 2013, já postumamente.

Depois de Istambul, Leigh Fermor visitou a Grécia, passando o seu 20.o aniversário num mosteiro ortodoxo, S. Pantaleão, no monte Atos. Era o início de uma bela relação com aquele país que manteria ao longo da vida. Também em 1935 conheceu, em Atenas, a pintora e princesa Galasha Cantacuzene, com quem viveria até 1939, entre a Grécia, a Turquia, a Inglaterra e a Moldávia, onde a família dela tinha uma enorme propriedade.

Quando estalou a ii Guerra Mundial, Patrick alistou-se no corpo de Guardas Irlandeses, mas os seus conhecimentos especializados levá-lo-iam para os serviços de espionagem britânicos na Grécia. Disfarçado de pastor de rebanhos, ajudou a organizar a resistência em Creta, vivendo durante mais de um ano entre grutas e abrigos na natureza. Ali levou a cabo uma das operações mais míticas e ousadas do conflito: o rapto do general Heinrich Kreipe, o comandante das forças nazis na ilha. Na noite de 4 de fevereiro de 1944 Paddy foi o primeiro a saltar de paraquedas sobre o planalto de Cátaro, no leste da ilha. Só que o céu encobriu-se e os seus camaradas não puderam segui-lo. Só dois meses depois se lhe juntou o resto do grupo.

A 26 de abril, após várias tentativas, intercetaram finalmente o carro do general. Vestidos com uniformes alemães, mandaram o condutor parar, imobilizaram-no com uma pancada na cabeça e tomaram o controlo da viatura. Com o quépi de Kreipe na cabeça, Paddy fez-se passar pelo general, enquanto este seguia no banco de trás, com três homens da resistência cretense sentados em cima dele. Assim conseguiram passar as linhas alemãs sem sobressaltos de maior e extrair Kreipe para o Cairo. Apesar do sucesso da operação, “Paddy Leigh Fermor sentia-se tudo menos bem-disposto”, escreveu Antony Beevor em “Creta 1941 – A Batalha e a Resistência”. “Durante os últimos dias, começara a sofrer ataques de rigidez. Ao chegar ao Cairo, caiu com um ataque de febre reumática quase fatal, que o paralisou temporariamente. A Ordem de Serviços Distintos que recebeu de imediato […] teve de ser presa ao casaco do pijama, já no hospital”.

Gozar a vida

Na década de 60, Patrick e a sua mulher, Joan, construíram uma casa em Kardamili, no sul do Peloponeso, com uma vista privilegiada sobre o mar. Com os seus arcos de meia volta, a construção simples em pedra rosada oferecida pelos habitantes da região tinha um pouco a aparência de uma abadia. Mas as semelhanças ficavam por aí. O casal recebia figuras das artes, das letras e da aristocracia europeia. O proprietário gostava de gozar a vida, de comer bem, de beber bem, de fumar, o que não parece ter-lhe afetado muito a saúde de ferro, uma vez que até perto do fim (em 2011, aos 96 anos) continuava a escalar as montanhas circundantes, a passear nos olivais e a nadar no mar. Que contraste, apesar de tudo, com o quotidiano dos monges trapistas que Leigh Fermor visitou depois da estadia em Saint Wandrille e que também deixou descrito em “Tempo de Silêncio”: “Um monge trapista levanta-se à uma ou duas da manhã […].

Diariamente passa sete horas na igreja, cantando os ofícios, ajoelhado ou de pé, em meditação silenciosa, muitas vezes no escuro. O resto do dia é ocupado com trabalho no campo do tipo mais primitivo e esgotante, em oração mental e em sermões e leituras do Martirológio. […] A alimentação assenta quase inteiramente em tubérculos; a carne, os ovos e o peixe estão proibidos”. Dormiam pouco e em camas desconfortáveis. Como se não bastasse, conta Patrick Leigh Fermor numa nota, havia ainda um irmão que, “considerando estas mortificações insuficientes, achava por bem encher os sabots [tamancos] de espinhos antes de dar início à labuta diária”.

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