14/11/18
 
 
Carlos Zorrinho 13/06/2018
Carlos Zorrinho
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A rã na panela e o socialismo ibérico

A grande força matriz dos exemplos de Portugal e, agora, de Espanha na recuperação do poder pelos socialistas e da esperança pela sociedade foi a capacidade de não ceder ao que parecia uma fatalidade

Conta quem viu, que eu nunca vi, que se se colocar uma rã dentro de uma panela de água fria e se acender o lume, o batráquio, sentindo o conforto da água a aquecer, se vai deixando ficar até ao momento em que, querendo saltar, já não consegue, acabando cozido na panela de água a ferver. Assim está a União Europeia: em risco de cozer na água cada vez mais quente dos nacionalismos e dos populismos.

Com o conforto dos números positivos do crescimento médio e da redução do desemprego, as instituições da União Europeia (UE) vão-se deixando adormecer enquanto, dentro delas e à sua volta, o cerco populista se aperta cada vez mais, tomando países fundadores como a Itália, atiçando fogos como a guerra comercial declarada pelos EUA, gerando divisões territoriais que voltaram a fazer entrar na linguagem negocial conceitos geopolíticos de antanho, como o norte, o sul, o leste ou o centro do território europeu.

A União Europeia tem de saltar depressa da panela onde se deixou acomodar. A resposta natural deveria emergir do eixo Paris-Berlim, mas Merkel, não obstante o impulso dado pelas ocorrências da recente reunião do G7, ainda não parece com balanço suficiente para, em sintonia positiva com Macron, lançar em parceria com todos os países do euro a semente da urgente conclusão da União Económica e Monetária, da reformulação do Quadro Financeiro 2021-2027 e da aposta lúcida na coesão e na convergência como motores da competitividade global do projeto europeu. 

A política, tal como a natureza, tem horror ao vazio. Não é de estranhar, por isso, que face ao definhar do Partido Popular Europeu (PPE) e às dificuldades dos Sociais-Democratas (S&D) a norte e a leste, surja cada vez mais gente que olha para Portugal como um modelo inspirador do caminho a percorrer pela UE neste momento de viragem e desafio.

A inspiração direta que o modelo de governação em Portugal deu para desbloquear o impasse espanhol reforçou mais esta perspetiva de observação atenta desse modelo. O socialismo ibérico e todos os que nele se inspiram são agora a boia de salvação possível para a rã europeia, em dificuldades em saltar da panela com água já em risco de borbulhar.
A grande força matriz dos exemplos de Portugal e, agora, de Espanha na recuperação do poder pelos socialistas e da esperança pela sociedade foi a capacidade de não ceder ao que parecia uma fatalidade.

A direita continuar a empobrecer Portugal, depois de o ter feito durante quatro anos, não era uma fatalidade e, por isso, foi derrotada. Do mesmo modo, a direita continuar a esfrangalhar Espanha e o projeto de convivência comum das suas regiões não era uma fatalidade e foi derrotada também.

Com o mesmo espírito, é fundamental que a UE não assuma a progressão do populismo, do iliberalismo e do nacionalismo como fatalidades, começando por lançar uma ambiciosa reforma das suas instituições e principais políticas. 
Se para isso for preciso criar uma geringonça progressista europeia, os socialistas portugueses, agora apoiados pelos socialistas espanhóis, têm um valioso e indispensável conhecimento a partilhar. Salvemos a rã. 

Eurodeputado

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