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Carlos Carreiras 13/06/2018
Carlos Carreiras

opiniao@newsplex.pt

Cascais não esquece

Como o trabalho que temos pela frente é para décadas, quis que o auxílio não se esvaísse assim que os fogos saíssem das notícias.

O compromisso da Câmara de Cascais não se esgota nos seus munícipes. É óbvio que eles são a nossa primeira prioridade. Mas como prestadores de serviço púbico, a nossa missão não tem as fronteiras geográficas do concelho. Quando se trata de promover um bem político maior, temos até o dever moral de ir para além delas. É esse dever de solidariedade maior para com o todo nacional que nos move. Costumamos dizer que o nosso ADN tem inscrito um apelo à ação. Nenhum problema é grande demais. Aos desafios globais, nós respondemos com soluções locais.

É isso que temos feito desde os trágicos incêndios que fustigaram Portugal faz agora um ano. Nessa altura percebi muito rapidamente que os portugueses dos distritos da Guarda e de Coimbra, de Leiria e de Aveiro, de Castelo Branco e de Viseu precisavam desesperadamente daqueles que só viram o fogo pela televisão. Estes portugueses do interior já tinham sido deixados à sua sorte uma vez quando tudo, a começar pelo Estado, lhes falhou. Quando nós, enquanto país, não cuidamos das nossas terras esquecidas. Portugal não podia voltar a falhar. 

Em nome dos cidadãos de Cascais, tive a honra de liderar diversas comitivas que entregaram bens ao povo amigo da Pampilhosa da Serra.

Ovelhas para os agricultores reiniciarem as suas economias familiares. Árvores, mais de 1500 espécies autóctones, para que a floresta no centro do país renasça. Brinquedos para as crianças de famílias que perderam tudo. Tijolos para ajudar a reconstruir as casas. 

Não apoiámos apenas a Pampilhosa. Logo em junho, no pico dos fogos, enviámos feno para os animais e voltámos a repetir a iniciativa. Uma e outra vez: 23 toneladas de ajuda para Figueiró dos Vinhos; 24 toneladas para Leiria; 40 toneladas para Seia – só para citar algumas. 

Esta foi a ajuda na fase de emergência. Quisemos escalar mais um patamar na nossa relação com os concelhos afetados pelos incêndios. Como o trabalho que temos pela frente é para décadas, quis que o auxílio não se esvaísse assim que os fogos saíssem das notícias. Para que todos abraçassem a tarefa de reconstruir Portugal, propus a figura das geminações internas: acordos entre municípios grandes (com mais recursos técnicos e humanos) e mais pequenos (com menos meios) que dessem estabilidade e previsibilidade às dinâmicas de cooperação necessárias. Todos, a começar pelo poder local, temos de ser responsáveis pelo encontrar de soluções para um desafio nacional.

E assim foi. Doze meses depois da catástrofe, celebrei ontem com o meu homólogo José Brito a primeira geminação do género entre Cascais e a Pampilhosa da Serra. 

Cascais, um concelho litoral, vai fazer todos os esforços para que a normalidade na Pampilhosa da Serra, a mais de 250 km de distância, seja recuperada. Seja do ponto de vista da coesão territorial, social, ambiental e económica, seja da colaboração de forças de proteção civil e outros quadros técnicos municipais, são muitas e muito abrangentes as áreas em que vamos cooperar. Noto que a proposta foi votada por unanimidade na câmara e na assembleia municipal – uma demonstração inequívoca de que os partidos também sabem estar à altura das suas responsabilidades num tempo em que tudo é usado contra eles. 

Raphael Gamzou, o embaixador de Israel em Portugal, também se associou à iniciativa, promovendo um concerto solidário amanhã, no Casino Estoril, em que toda a receita reverte para as gentes da Pampilhosa. 

Aqui fica um extraordinário exemplo de uma coligação improvável, é certo, mas uma coligação de esforços e de esperança que nos leva de Cascais a Israel, com o coração na Pampilhosa da Serra. 

Como já escrevi neste espaço, noutras ocasiões, reconstruir o centro de Portugal não é uma tarefa para os que ficaram. É uma missão para todos. Governo e autarquias, universidades e empresas, cidadãos: é tempo de o povo português fazer o que tem de ser feito.
Há ainda muita terra para acudir. Muito povo para ajudar. Muito sonho por reconstruir. Apelo aos meus colegas presidentes de câmara e à Associação Nacional de Municípios Portugueses para que deem uma demonstração de força e sejam também eles agentes de uma mudança positiva e duradoura nas cidades, vilas e aldeias que mais sofreram. 
Cascais não esquece. Portugal não pode esquecer. 

Escreve à quarta-feira

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