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Mário Cordeiro 12/06/2018
Mário Cordeiro

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Se te queres matar…

A depressão aparece e avoluma-se, e a pessoa debate-se com a questão de saber se valea pena continuar a viver… seja por desespero, abandono ou desilusão, seja por tédio e enfado, como poderá ter sido o caso de Anthony Bourdain

Confesso (e admito a minha eventual ignorância) que não sabia quem era Anthony Bourdain antes da sua morte mas, curiosamente e por cinismo dos deuses, mão amiga fez-me chegar um dos livros dele precisamente dois dias antes do seu suicídio. Premonição?

A princípio, desconhecendo a personagem, devo confessar que me interroguei acerca deste charivari todo por causa de um chefe que se enforca num hotel em Estrasburgo.

Tenho a dizer que o conceito de chefe e a idolatria inerente me fazem alguma urticária, por um lado porque gosto de cozinhar e de inventar pratos que, modéstia à parte, os meus familiares e amigos prezam e aplaudem, e não entendo tudo o que se faz à volta de alguém que gosta de cozinhar; por outro (e principalmente), porque a ideia de endeusar “lascas de pato confitado com maçãs, em cama de abóbora gratinada adornada de coentros e com um toque mediterrânico de vinagre balsâmico com resposta pronta de um dedo de vodca a relembrar os Urais” me causa alguma repulsa. Paga-se muito, come-se mal e saímos dali quase com vontade de ir ao McDonald’s e pedir um qualquer hambúrguer que nos mate a fome. O que é terrível!

Após a notícia da morte de Bourdain, vi os jornais, revistas e televisões a abrirem os noticiários e a preencherem espaços de primeira página com o acontecimento. Senti-me verdadeiramente estúpido. Se noticiassem a morte de Trump, de Woody Allen, de Rafa Nadal ou de uma lista incomensurável de pessoas, eu entendia. Assim, fiquei perplexo. Muito perplexo.

Comecei a pensar numa frase de Clara Ferreira Alves, no “Expresso”, explicando esta morte: “O tédio existencial das existências perfeitas.” Entendo-a, mas ainda fico mais perplexo. Entendo-a a nível conceptual, mas não consigo lá chegar (defeito meu!) em termos do quotidiano.

É verdade que, tantas vezes, “acordamos com vontade de adormecer”. Que o dia-a-dia é tramado, para não usar palavras mais fortes, e que muitas pessoas não têm os fatores protetores para fazer face a famas precoces, a estrelato, a vidas em corrupio, cheias de dinheiro mas carentes de amor, de momentos endorfínicos em família, de relações minimamente estáveis (minimamente, porque a maioria de nós não tem uma vida totalmente estável – felizmente, porventura).

Anthony Bourdain estava deprimido, certamente, ou não teria desejado acabar com a sua realidade. É isso que o suicídio traduz: fugir ou sair da realidade. Um suicida não quer acabar com a vida – ama-a incomensuravelmente –, mas quer arranjar uma “saída de emergência” para uma existência que considera inaceitável, rasca, bera, má, em nada recompensadora. Não é um ato nem de cobardia nem de coragem. É uma opção de quem não vê outras… mas não estará tão obnubilado que não consegue ver outras?

Usamos amiúde a expressão: “meter--se pelo chão abaixo” quando alguém se encontra perante uma situação (realidade) embaraçosa, constrangedora, desagradável. Neste caso, quem se mata não se quer matar; apenas fugir, meter-se pelo chão abaixo e desaparecer do cenário.

Outra coisa são os que verdadeiramente querem acabar com a vida. São raros. São tão raros que são aqueles que os média noticiam: matam a família toda e sobretudo os filhos (sua continuidade), o cão e ainda queimam a casa, e depois matam-se… ou vão à sua escola antiga e despejam as armas sobre professores e alunos, matando a imagem da sua infância, antes de darem um derradeiro tiro na cabeça.

Sempre houve pessoas – especialmente os “artistas” ou inconformados, os criativos ou os que se sentiram não fazer parte de uma “carneirada”, entre muitos outros – que tiveram momentos de desânimo, de desistência e de enfado, tédio, falta de razão para viver. Muitos terminaram com a vida: Kurt Cobain ou Robin Williams, Mário de Sá-Carneiro ou Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Vincent van Gogh, Tchaikovsky ou Florbela Espanca, Virginia Woolf, Hemingway, Jim Morrison e Janis Joplin, Elis Regina, Amy Winehouse e até Robert Enke, guarda-redes do Benfica… e agora Anthony Bourdain. Tantos, tantos, tantos… e outros afetados por cancros em último grau, sem esperança e sem perspetivas.

Todos eles terão em comum o facto de “a vida os ter ultrapassado” e quererem fugir da realidade. Muitos tentaram-no através do álcool e das drogas legais e ilegais, de estilos de vida parassuicidários e de tantos outros comportamentos. Numa palavra, estavam deprimidos.

É difícil definir o que é “depressão” ou onde acaba a sensação de estar na fossa e começa a verdadeira crise depressiva. Provavelmente não há limites e uma será a continuação da outra.

Todos nós nos sentimos chateados de vez em quando e, se calhar, até mesmo um pouco deprimidos. Felizmente, estes estados de alma são de curta duração e não chegam a atingir proporções calamitosas. Entediados andamos às vezes, infelizes, outras tantas, fartos… tantas vezes, mas damos a volta e encontramos um projeto novo, uma mudança, algo que nos encanta. São poucos, felizmente, os que sofrem de verdadeiras depressões. Contudo, há que ter em atenção que muitas das pequenas coisas que no dia-a-dia nos maçam podem tornar-se insuportáveis para um individuo que já está deprimido e desencadear uma reação que, vista a frio, parece desproporcionada.

As estatísticas portuguesas poderão não exprimir a realidade, pois o estigma social que um suicídio representa, a necessidade de um outro motivo de morte para a realização de um funeral religioso e a dúvida que persiste em muitos dos casos fazem com que o óbito seja muitas vezes rotulado de “acidente”.

A depressão aparece e avoluma-se, e a pessoa debate-se com a questão de saber se vale a pena continuar a viver… seja por desespero, abandono ou desilusão, seja por tédio e enfado, como poderá ter sido o caso de Anthony Bourdain.

Sabe-se que a maioria das pessoas que tentam suicidar-se procuram o apoio de outras pessoas nas semanas anteriores, mas muitas vezes não sabem verbalizar o seu pedido e, outras, são os outros que não valorizam as queixas nem suspeitam de que uma “dor de estômago” ou uma “unha encravada” podem ser um pretexto para um pedido de ajuda.

O melhor fator protetor relativamente à depressão é cultivarmos um ambiente familiar e social estável, afetivo, exigente mas compreensivo e realista, pacífico, variado e estimulante. Por outro lado, há que conter o “quero ter tudo já!”, e transformá-lo num “não sei tudo, mas há sempre alguma coisa nova e estimulante que me faz viver”. E caso sintamos que chegámos ao final de uma carreira, descobrir outra, iniciar outra atividade, fruir a vida nas suas diversas componentes.

“Se te queres matar, porque não te queres matar?” – esta frase de Mário de Sá-Carneiro, de tão ambígua, críptica e ambivalente, diz tudo.

Bourdain desistiu – que o seu exemplo sirva para amarmos mais a vida e, por isso, que dolorosamente encontremos sempre debaixo de uma pedra que levantamos (como menciona o apócrifo Evangelho de São Tomás, que dizem ter sido escrito pelo próprio Cristo) algo de motivador para vivermos.

 

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