17/11/18
 
 
António Luís Marinho 08/06/2018
António Luís Marinho

opiniao@newsplex.pt

O país das cambalhotas

Se querem fazer um teste ao sistema nervoso, experimentem querer levantar ou entregar um documento – uma carta de condução, por exemplo – no Instituto da Mobilidade e dos Transportes, em Lisboa

“Às cambalhotas sempre anda a través
O Mundo, sem poder-se endireitar.”
                                     Francisco Bingre

Um relatório do Instituto de Avaliação Educativa, publicado recentemente, revela, a partir de provas de aferição realizadas em 2017, que 46% dos alunos do 2.o ano que realizaram essas provas não são capazes de saltar à corda seis vezes seguidas e 40% não conseguiram dar uma cambalhota corretamente.

Pois bem. Que conclusões podemos tirar destes resultados, que apontam para uma crescente incapacidade física das nossas crianças?

Desde logo, a evidente falta de equipamentos escolares dedicados à educação física. Depois, a crescente tendência para o isolamento em casa, muitas vezes à volta de jogos audiovisuais que as ocupam durante horas e horas.

Estamos, pois, a perder capacidade física para saltos e cambalhotas.

Essa perda real é, no entanto, compensada pela crescente capacidade de se darem grandes cambalhotas em sentido figurado. E não me refiro, evidentemente, ao sentido figurado mais picante do termo. 

Basta seguir atentamente o percurso da esmagadora maioria dos políticos da nossa praça e descobriremos uma atividade impressionante de cambalhotas e saltos mortais.

É o constante dito por não dito, as fidelidades rapidamente negadas, os princípios, anteriormente defendidos, rapidamente esquecidos.

Trata-se, pois, de uma intensa atividade física virtual, com longa e crescente lista de adeptos.

Se as nossas crianças têm dificuldade em dar cambalhotas, no verdadeiro sentido, muitos adultos são mestres nessa arte, em sentido figurado.

Não há, pois, que temer pela ausência de mobilidade.

Já agora, por falar de mobilidade, aqui fica uma sugestão.

Se querem fazer um teste ao sistema nervoso, experimentem querer levantar ou entregar um documento - uma carta de condução, por exemplo - no Instituto da Mobilidade e dos Transportes - IMT, em Lisboa.

A balbúrdia e a desorganização são tais que vale mesmo a pena passar por lá. Ali se pratica o complex, na sua melhor versão.

A suprema ironia é que aquele que é certamente o serviço público mais ineficaz e lento do país se chama exatamente da Mobilidade e dos Transportes.

 

Jornalista

 

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