24/9/18
 
 
André Abrantes Amaral 07/06/2018
André Abrantes Amaral

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O ódio espanhol

É difícil para nós, portugueses, imaginarmos o que seja vizinhos matarem vizinhos, amigos a suspeitarem uns dos outros

No melhor livro que li este ano, e um dos melhores que li nos últimos anos, “O teu rosto amanhã”, de Javier Marías (Alfaguara), já mesmo no fim do terceiro e último volume, dois homens, o narrador e protagonista, o espanhol Jacobo Deza, e um nonagenário inglês, Peter Wheeler, conversam sobre cartazes de propaganda da Guerra Civil Espanhola. Comparando-os com os britânicos da ii Guerra Mundial, Wheeler conclui que nos espanhóis há mais ódio.

“– Nos espanhóis? [pergunta o espanhol Deza]

– Sim, repara que os nossos (…) advertiam sobretudo do perigo (…) mas não diabolizavam o inimigo oculto nem faziam finca-pé na sua localização, na sua perseguição e na sua destruição (…).”

Esta obra de Marías é extraordinária. Não só porque descreve o comportamento das pessoas, as fronteiras que cada um de nós pode ultrapassar tornando muito difícil adivinhar o nosso rosto amanhã, mas também porque, sendo espanhol, Marías nos descreve cruamente a Espanha. Uma Espanha ferida pela guerra civil que marcou irremediavelmente o seu séc. xx. 

É difícil para nós, portugueses, imaginarmos o que seja vizinhos matarem vizinhos, amigos a suspeitarem uns dos outros. As pessoas desconfiam até dos membros da própria família porque o inimigo se esconde em nós, não se diferenciando sequer pela língua, nem pela região, nem pela cidade. Está em todo o lado, em qualquer lugar. É difícil para nós, portugueses, imaginarmos o que isto seja porque a nossa guerra civil foi há 184 anos e desde então não houve qualquer guerra neste retângulo.

“Quando eu passei por lá [continua Wheeler], pela vossa Guerra, notei-o logo no terreno. Havia um ódio abrangente que saltava à menor faísca. (…) Um inimigo podia ser boa pessoa e ter sido generoso com os seus adversários políticos, ou mostrar piedade (…). Nada disso importava. Um inimigo nominal era sobretudo isso, um inimigo.” No livro, o britânico, que assistiu àquela guerra de perto e viveu intensamente a de 1939-45, conclui depois: “Foi uma coisa estranha a vossa Guerra, não me parece que tenha havido outra igual.”

Uma coisa estranha, aquela guerra. Uma guerra que se passou mesmo aqui ao nosso lado, mas que não se estuda e pouco ou nada se referencia. Talvez porque a violência nela demonstrada pelos espanhóis, que são nossos vizinhos e parte de nós, como nós somos parte deles, fosse demasiado horrenda, um abismo assustador, o pior em que um país se pode transformar.

Mas é importante que olhemos para a Espanha. A encaremos de frente, saibamos o que se passou, para que percebamos, de uma vez por todas, a gravidade do que se passa na Catalunha, o risco que significa o esboroar do poder em Madrid, com um governo não eleito, sem maioria e sem força. As guerras são sempre coisas estranhas quando vivemos em paz, como a paz é uma coisa estranha quando vivemos em guerra. 

Advogado 
Escreve à quinta-feira 

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