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A ‘sexta fila’ e os ‘velhos do restelo’

A ‘sexta fila’ e os ‘velhos do restelo’

Miguel Silva Filipa Traqueia 06/06/2018 21:33

No Parlamento, são mais as caras conhecidas nas últimas filas  do hemiciclo do que nas primeiras. Ex-ministros, ex-líderes e deputados desalinhados das direções são alguns exemplos

A regra é só uma: na primeira fila é a direção da bancada e na segunda sentam-se os coordenadores das comissões. Fora isso, os deputados escolhem livremente onde se sentam. No entanto, nos partidos maiores, como PSD e PS, as últimas filas são tipicamente ocupadas quer por  figuras ilustres do partido que, entretanto, se afastaram dos cargos de direção ou governação, quer por deputados que têm pensamentos dissonantes da linha oficial do partido.

Recentemente, essa tendência foi bem visível com a rearrumação da bancada parlamentar do PSD depois da vitória de Rui Rio. Hugo Soares,  ex-líder parlamentar, e o próprio Luís Montenegro, o primeiro nome avançado para a substituição do ex-líder, antes de abandonar o Parlamento, passaram da primeira à última fila.

«Estive durante muitos anos a ocupar a primeira fila com lugares na direção do grupo parlamentar - quer como vice-presidente quer como presidente - e agora opto por me sentar na última fila só pela questão de ter escolhido esse lugar», afirma Hugo Soares, recusando a ideia de interpretação política.

Um outro exemplo é o de Feliciano Barreiras Duarte. Depois da eleição de Rui Rio, a quem tinha declarado o seu apoio numa bancada maioritariamente apoiante de Santana Lopes, Barreiras Duarte foi convidado para ser secretário-geral do partido, tendo assumido um lugar nas filas da frente. No entanto, com o caso da falsificação do currículo académico e a renúnica ao cargo, Barreiras Duarte voltou a sentar-se na fila de trás.

No entanto, António Costa Pinto, investigador e professor na Universidade de Lisboa e no ISCTE, admite que «nos grandes partidos existem normas formais e informais» de organização e que, «por vezes, os cargos simbólicos de notáveis de partidos ou membros da oposição interna ocupam esses lugares» mais atrás. 

Manuel Alegre, que teceu fortes críticas ao Governo de José Sócrates, Mota Amaral, que se mostrou contra posições do Executivo de Passos Coelho, António José Seguro, depois deixar a liderança do PS, e até o próprio Pedro Passos Coelho depois de anunciar a sua não recandidatura à liderança do PSD, têm em comum a opção pela última fila do hemiciclo. 

Atualmente, na bancada do PS existem também alguns elementos que defendem uma linha contrária à ‘geringonça’ do acordo parlamentar com o BE, o PCP e o PEV, como é o caso de Renato Sampaio e de Sérgio Sousa Pinto. 

No caso de Sousa Pinto, a discordância sobre o caminho seguido por Costa levou mesmo o deputado a demitir-se do secretariado nacional do PS. Mesmo dois anos depois, e apesar de ter afirmado, numa entrevista ao Público,  que essa questão está «esgotada», o deputado defende que as razões que considerou «pertinentes e que desaconselhavam esta solução continuam pertinentes».

«Pessoas que passaram para a minoria sentam-se propositadamente nos bancos de trás para sinalizar a sua diferença», explicou Ribeiro e Castro, ex-presidente do CDS e ex-deputado, dando como exemplo os deputados da última legislatura que, sendo da «ala mais à esquerda», se sentavam por trás das bancadas do PCP e do Bloco de Esquerda.

Sempre no mesmo lugar

É nessa zona que se senta o deputado Ascenso Simões. «Eu sento-me sempre no mesmo lugar», contou ao SOL, acrescentando que, em todas as legislaturas em que desempenhou funções de deputado, se sentou no mesmo sítio. Recentemente, o deputado foi protagonista de uma disputa interna com o presidente da bancada socialista, Carlos César, que avançou com uma queixa à comissão nacional de jurisdição do partido depois de Simões ter violado a disciplina de orientação de voto na proposta para a criação de uma nova contribuição para as renováveis no Orçamento do Estado e ter votado ao lado do Bloco de Esquerda. «As minhas divergências são pontuais, às vezes são radicais mas isso não se transmite no lugar da Assembleia da República», afirmou.

«Quando os partidos têm guerras é normal que se venha a criar alguns problemas nos grupos parlamentares e que as pessoas se sintam mais relegadas para filas com menos exposição», afirmou, remetendo para o PSD essa política da «sexta fila, porque eles são mais sanguíneos - às vezes até sanguinários - e vão para a última fila para se matarem uns aos outros».

Pedro Bacelar Vasconcelos, deputado do PS e que costuma sentar-se também na última fila, explica que «há uma tradição que vem já da revolução francesa, e até do parlamento britânico, que fazia dos backbenchers [deputados das bancadas de trás] a componente mais radical do parlamento». 

No entanto António Costa Pinto ressalva que, apesar de existir uma pequena tendência para que isso aconteça, os deputados portugueses, ao contrário dos ingleses, não têm autonomia e  «dependem das lideranças da bancada».

‘Velhos do Restelo’ e jovens

Para além das divergências partidárias, também os cargos governativos ocupados anteriormente podem ser um grande peso para a escolha dos lugares mais recatados. São vários os ex-ministros que se afastam das luzes da ribalta das primeiras filas. Constança Urbano de Sousa, que se demitiu na sequência da tragédia dos incêndios do ano passado, e João Soares - que opta por se sentar na penúltima fila -, que deixou o Ministério da Cultura depois de oferecer «lambadas» a um jornalista, são exemplos de ministros que pertenceram ao atual Governo de António Costa.

Constança Urbano de Sousa explicou ao SOL que optou pela última fila por uma questão de afinidade e exposição. «As últimas filas são de facto menos expostas o que também é bom porque nos permite trovar mais impressões com os colegas do lado». Uma argumento que foi também invocado por João Soares, que explica que «é uma escolha casual e de amizade com as pessoas» que se sentam nas proximidades.

Já do antigo Governo de Passos Coelho podemos encontrar na última bancada Paula Teixeira da Cruz, Maria Luís Albuquerque e Luís Marques Guedes. Todos os ex-ministros  indicados negam a existência de uma relação entre a escolha dos lugares e o desempenho de funções governativas.  Paula Teixeira da Cruz fala de «uma razão de afinidade», enquanto Maria Luís Albuquerque explica que o grupo de deputados eleitos por «Setúbal sempre se sentou lá [atrás]».

Apesar das críticas que foram fazendo à liderança de Rui Rio, tanto Paula Teixeira da Cruz como Maria Luís Albuquerque optaram por se sentar nos últimos lugares desde que começou esta legislatura, ou seja, não houve uma alteração de lugar por causa da mudança de direção do partido.

«Aqueles quatro ou cinco lugares ao pé de mim são normalmente lugares que têm uma espécie de enquadramento típico de ‘velhos do Restelo’, porque há ali muita capacidade analítica para além da parlamentar naqueles lugares», explica Ascenso Simões, que enumera Sónia Fertuzinhos e João Galamba como alguns dos companheiros de fila.

A faixa etária oposta, ou seja os jovens, também têm tendência a aproximar-se das partes mais afastadas da mesa da Assembleia da República por não desempenharem tantas funções. É o caso de Hugo Carvalho, de 30 anos e deputado do PS, que entrou para o Parlamento depois da nomeação de ministros para o Governo de António Costa.

No entanto, o jovem deputado recusa a ideia de que a Juventude Socialista é renegada para a última fila. «Poderíamos dizer que muitas vezes a juventude é associada a estar nos lugares mais de retaguarda mas esse caso não efetivamente este cenário [do PS]», diz. E existem alguns exemplos que estão bem lá na frente, como o de Tiago Barbosa Ribeiro, que tem 34 anos e é coordenador do PS  na comissão de Trabalho e Segurança Social, e de Ivan Gonçalves, de 30 anos, vice-presidente da bancada.

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