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Caça. Um acampamento de verão para aproximar o setor dos mais novos

Caça. Um acampamento de verão para aproximar o setor dos mais novos

Shutterstock Ricardo Cabral Fernandes 06/06/2018 15:15

A Associação Nacional de Proprietários Rurais, Gestão Cinegética e Biodiversidade pretende acabar com a ideia de que a caça é um extermínio de animais. Ao i o presidente desta associação lembra mesmo os vários benefícios do setor para a proteção das florestas e matas

O setor da caça passou por momentos difíceis nos últimos anos e agora, que está a ganhar dinamismo, tenta trazer para perto os que se foram afastando, como é o caso das novas gerações. Esta é a perceção de António Paula Soares, presidente da Associação Nacional de Proprietários Rurais, Gestão Cinegética e Biodiversidade (ANPC), que não esconde a preocupação com o desinteresse dos mais novos. Foi precisamente por essa razão que a ANPC anunciou esta segunda-feira, na Feira Nacional da Agricultura, em Santarém, a organização do primeiro acampamento de verão para crianças entre os oito e os 14 anos. “Pretendemos mostrar-lhes toda a componente, não apenas da caça, mas também da sua ligação com a conservação da natureza e biodiversidade”, explicou ao i António Paula Soares.

Alguns dos motivos que terão contribuído para tal afastamento foram a crise económica – impossibilitando os caçadores mais velhos de pagarem as licenças – e a febre hemorrágica dos coelhos, que diminuiu a caça. Segundo números da associação, o setor perdeu 19 mil caçadores nos últimos dois anos, existindo neste momento um universo de 240 mil titulares de licença de caça. “Era tradicional e social que os mais novos acompanhassem os seus pais na caça”, explicou, referindo que com a queda abruta do número de caçadores é normal “as novas gerações tenham menos ligação com o setor da caça”. Um setor, diz o dirigente, “completamente enraizado no mundo rural”, que dinamiza a economia de forma direta e indireta, apesar de não ser essa a perceção urbana – que atribui ao “afastamento das últimas décadas e ao despovoamento do interior”.

Apesar de pintar um quadro negro, o dirigente vê o futuro do setor com esperança. “Estamos numa fase de adaptação económica em que começam a surgir algumas melhorias na componente económica, que está a permitir a dinamização do setor”, afirma. E acrescenta ainda esperar que a ciência consiga “no espaço de dois, três anos uma vacina” que mitigue os efeitos da febre hemorrágica dos coelhos. Uma doença com precedentes no país: “Na década de 80 houve um decréscimo brutal da população de coelhos”.

As consequências foram visíveis, uma vez que durante “uma série de anos houve populações muito baixas”, um ciclo só invertido quando se verificou uma adaptação natural dos animais ao vírus. No entanto, existe um vírus mais recente com uma enorme capacidade de mutação, dificultando o seu combate.

Ainda que o setor se esteja a dinamizar-se, Paula Soares não se coíbe nos avisos. “Hoje em dia, sem a agricultura, a cinegética e a floresta o mundo rural não tem sustentabilidade”, alerta, acrescentando que a perceção de que a caça se limita apenas ao ato de matar um animal é errada. Entre os contributos por si elencados, o dirigente realçou a importância da caça na conservação da Natureza e biodiversidade, seja na prevenção dos incêndios florestais, seja no controlo de espécies predadoras.

“A realidade do que aconteceu [incêndios florestais em 2017] é de abandono do mundo rural”, diz, insistindo que “a caça tem um papel muito preponderante”. Isto porque, defende, os caçadores, mas também os gestores cinegéticos e os proprietários em torno do setor, desempenham um papel de vigilantes não oficiais das florestas e matas.

Outra das formas de se conservar a natureza, refere, é a de se manterem controladas as populações de espécies predadoras, nomeadamente a raposa e o javali. “A caça à raposa é uma caça de controlo de predadores. Não é uma caça com um objetivo cinegético da caça em si”, diz Paula Soares. “A raposa e o javali são predadores de topo em Portugal. Não existe qualquer animal – à exceção da introdução do lobo ibérico em algumas partes do país – predador da raposa”, permitindo que esta se multiplique ao ponto de colocar em causa as restantes espécies e biodiversidade.

“Hoje, os grandes valores de fauna da Serra da Arrábida estão a ser destruídos por javalis e raposas”, denunciou. É por isso mesmo que o dirigente considera ser “um erro crasso” não controlar as populações destas duas espécies.

“O que é necessário é um controlo gerido em parceria com o ICNF [Instituto Conservação da Natureza e das Florestas], porque de outra maneira vai criar-se um desequilíbrio total nos ecossistemas e habitats com consequências catastróficas”, alerta. “Hoje em dia temos javalis a invadirem as ruas de Setúbal e a irem para a Costa da Caparica. Não são casos pontuais e são cada vez mais frequentes”, garantiu, sugerindo que é preciso atuar já. “Ainda não se chegou a um problema grave, mas quando os animais começarem a atacar humanos e a transmitir tuberculose, transmitida quer pela raposa quer pelo javali, irá atingir as pessoas”, concluiu.

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