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Catherine Nixey: “Os cristãos tinham medo do sexo e portanto não gostavam de nada que o celebrasse”

Catherine Nixey: “Os cristãos tinham medo do sexo e portanto não gostavam de nada que o celebrasse”

Mafalda Gomes Mariana Madrinha 06/06/2018 12:51

A jornalista e escritora esteve na semana passada em Lisboa para o lançamento deste livro, que aborda o lado menos conhecido do “triunfo cristão”

Catherine Nixey não esconde o fascínio que nutre pela Antiguidade Clássica, principalmente pelo período tardio. Filha de um ex-monge e de uma ex-freira, criada num ambiente católico, acabou por ir para Cambridge, onde se formou em Estudos Clássicos. Durante vários deu aulas, mas acabou por se tornar jornalista no “The Times”. Durante todo este tempo, não parou de reunir informação para o livro que a trouxe agora a Portugal. “A Chegada das Trevas: Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico” conta como o triunfo do cristianismo num mundo pagão - um processo que, segundo a maioria dos livros de História, parece ter corrido quase sem incidentes - não se fez sem uma bela dose de opressão e destruição dos antigos cânones.

O título é, de certa forma, bastante dramático. Foi fácil para si chegar a esta fórmula ou é suposto chocar?

Ah, estou a ver. De uma certa forma soa mais chocante porque a ênfase está colocada nos cristãos e na destruição cristã. O livro refere-se a um determinado ponto da História, não quer dizer que eles tenham destruído tudo. Só que o mundo clássico foi destruído e alguma dessa destruição foi feita às mãos dos cristãos. Sou filha de um ex-monge e de uma ex-freira e para mim foi chocante quando comecei a ler essa parte da História. Não está muito estudado, não há muito para ler sobre esse período. Os cristãos suprimiram tanto a literatura que 90% de toda a literatura clássica foi perdida. 

E quando se confrontou com isto, quando começou a interessar-se por este período?

Quando estava na universidade. Fui educada de uma forma católica, fui estudar os clássicos e a minha mãe sempre me tinha ensinado que os cristãos preservaram o mundo clássico, o conhecimento, falando-me dos monges virtuosos - os copistas - que se dedicaram a escrever a história para que não fosse perdida. Quando fui para Cambridge e comecei a estudar percebi que o processo não podia ter sido assim tão suave. E, claro, não foi: os cristãos odiavam todo o sexo, a diversão, as bebedeiras, os deuses, a homossexualidade. Odiavam a filosofia, Santo Agostinho escreveu sobre isso: todas aquelas vozes, quem estaria certo?

Sentiu que tinha sido, de alguma forma, induzida em erro?

Não pela minha mãe, mas pelo que aprendi na escola, claro que senti! Só ouvimos uma versão. A História é escrita pelos vencedores, e a vitória cristã foi absoluta. Hoje há dois mil milhões de cristãos no mundo e não há uma única pessoa realmente pagã. A história da cristianização da Europa foi contada quase inteiramente a partir de fontes cristãs, fontes simpáticas. No passado, chegou a escrever-se sobre a destruição dos templos por parte dos cristãos, mas isso ficou fora de moda, a sociedade deixou de querer ouvir falar sobre isso.

Mas primeiros os romanos perseguiram os cristãos.

Temos esta ideia de que os romanos eram obcecados pelos cristãos, que os queriam tirar completamente de cena, e isso não pode estar mais longe da realidade. Muitas vezes, os cristãos pediam para ser mortos porque era uma forma de chegarem ao céu, de serem vistos como mártires. E os governadores romanos ficavam intrigados com isto, haver alguém que quisesse morrer voluntariamente. Havia um desejo muito, muito forte na cristandade pela vida que estava para vir, pelo martírio. Havia grupos de homens que cometiam suicídio porque pensavam que as recompensas pelo martírio eram mil vezes melhores do que podiam experienciar em vida, e pensavam que dessa forma não só chegariam ao céu como seriam as melhores pessoas de lá e ainda famosos na terra.

E os romanos não conseguiam compreender esses pensamentos?

Não. Pensavam: “Mas o que estás a fazer, por que estás a desperdiçar a tua vida?”. Desprezavam os homens que faziam isto. Usavam barba, vestes pretas, eram pouco educados.

A estátua que aparece na capa foi destruída em Palmira, certo?

Não, esta é uma Afrodite que foi destruída em Atenas. É interessante porque lhe fizeram esta cruz na testa, o que não era habitual. O mais normal era cortarem o nariz, destruírem os olhos - como também lhe fizeram. Atacaram a beleza dela, e isto é um ponto importante: os cristãos não gostavam de nudez, tinham medo do sexo, que era visto como um pecado, como algo malévolo. E portanto não gostavam de coisas que o celebrassem - e Afrodite é, como sabemos, o símbolo de tudo isso. Havia imensas estátuas dela nua nas termas e foi uma das divindades mais atacadas, porque para a nova religião não era suposto haver a exposição do corpo despido. Neste caso a cruz era para afastar um demónio, era uma forma de a batizarem.

Também faziam o mesmo a estátuas masculinas?

Sim, cortavam os pénis, a cara também era danificada - a Apolo, outro símbolo da beleza, aconteceu bastante, era uma forma de conter a sua sexualidade.

Uma das primeiras histórias no livro passa-se em Palmira, por volta de 385 d.C. Hoje estamos a ver a história a repetir-se?

É difícil não ver paralelos. No meu livro escrevo sobre essa estátua de Atena que é atingida com tanta força com uma espada que é decapitada por um grupo de cristãos. Depois ainda lhe arrancam os braços. Os arqueólogos encontraram as diversas partes e reconstituíram-na. Depois veio o Daesh e, em 2015, vimos fotografias do que fizeram em Palmira. E o que foi? Cortaram a cabeça e os braços à mesma estátua - exatamente as mesmas feridas. Em ambos os casos é porque acham que o símbolo malévolo que Atena representa deve ser destruído.

Os livros de história falam muitas vezes de um triunfo cristão e uma das coisas que explica no seu livro é que o verdadeiro triunfo à maneira romana era uma aniquilação total.

Hoje em inglês a maneira como usamos a palavra triunfo é sempre positiva, e nos tempos romanos era um termo preciso e absolutamente militar que significava, primeiro, que se tinha morto um certo número de oponentes. Mas também era uma celebração da repressão, com todos os despojos, com a exibição dos líderes conquistados agrilhoados a que se seguiam execuções - e tudo isto significava que se tinha esmagado o inimigo. Quando falamos do triunfo cristão temos que ter em conta também essa imagem, e não apenas o sentimento simpático que hoje associamos à palavra triunfo. Era uma vitória militar em que os inimigos eram esmagados e muitas vezes aniquilados - mas os cristãos não mataram os pagãos, pelo menos no início, e merecem créditos por isso. Mas tiraram-lhes as posses, humilharam-nos, apagaram o conhecimento. Pilharam e destruíram os templos e substituíram os líderes religiosos pagãos por padres.

Essa apropriação de que fala - e também a destruição - não é, de todo, uma invenção cristã e ao longo da História sucessivas religiões e tribos adotaram esse tipo de comportamentos. Estou a lembrar-me de um exemplo português em que uma vila romana foi destruída, não por cristãos, mas por suevos e visigodos: Conímbriga.

Sim, isto foi comum. Contudo os cristãos foram diferentes por dois motivos: a primeira, é que o fizeram com tanto sucesso que nos esquecemos completamente que houve sequer alguma oposição a esta a apropriação; e a segunda é que a História hoje diz que toda a gente estava disposta a aceitar esta mudança, que todos o queriam. E isso não é verdade. Nos livros é contado que o domínio cristão foi uma libertação - e mesmo agora, os livros escritos em Inglaterra no século XXI chamam a este período “o fim da perseguição”. Não foi - nessa altura, no máximo, 10% do império era cristão. E em pouco mais de 120 anos já não havia mais não-cristãos. Com exceção dos judeus, viram-se livres de todas as outras religiões. Havia 60 milhões de pessoas neste império, todos se converteram em pouco mais de cem anos - isto não acontece porque és simpático... 

Foi uma guerra metafísica?

Sim, uma guerra do bem contra o mal de certa forma. Os genuinamente cristãos acreditavam que apenas os cristãos estavam a salvo, mas não foi só metafísica, também foi terrena. Constantino, o primeiro imperador cristão, antes de ter tido uma visão da cruz tinha tido uma visão de Apolo. E converteu-se ao cristianismo não por dizer “uau, Jesus!”, mas porque queria ganhar uma guerra! Os biógrafos dele escreveram isto - que ele sabia que não tinha tropas suficientes e para agregar o império vira-se para o Deus cristão e... vence, porque havia soldados cristãos a travar uma guerra. 

Nas cruzadas, ver-se-á o mesmo fenómeno. 

Exatamente. Exércitos de cristãos numa guerra de conversão. Mas antes disto, como estávamos a falar, houve também a tal guerra metafísica entre o bem e o mal, em que os cristãos acreditavam que o seu dever era livrar do mal e dos demónios todos os pagãos, convertê-los através de todos os meios que conseguissem. Acreditavam que estes atos eram legítimos porque estavam a salvar estas pessoas de morrer acreditando no ‘lado mau’,, o que faria com que ficassem eternamente no inferno a ser torturados. 

Essa guerra metafísica era assente também em palavras?

Um ponto que está sempre a aparecer neste livro é a virtude das muitas vozes - e pensamentos - daquele tempo [da Antiguidade Clássica]. Na Grécia, os filósofos eram famosos pelas suas discussões. Em Roma, a mesma coisa, mas ninguém chegava ao ponto de acreditar que podia esmagar os pensamentos de outro. Havia pessoas em Roma que eram muito religiosas, ao lado de outras que achavam que a religião era lixo, uns que acreditavam na vida depois da morte, filósofos que diziam que isso era um disparate. Uns que acreditavam que éramos unicamente feitos de átomos e que, por isso, não havia nenhum Deus criador. E todas estas ideias conseguiam sobreviver até chegar uma ideia que as varre e passa a ser só permitido pensar de uma forma. 

Os cristãos também se apropriaram do calendário pagão, por exemplo, na data de celebração do Natal. Vê isto como mais uma forma de supremacia ou acha que foi um ato de respeito?

Acho que foi pragmatismo. Os grandes festivais pagãos eram divertidos, não havia como dar volta a isso, pelo que foram essas as datas escolhidas para o Natal assim como para a Páscoa e as festividades de Ano Novo. 

Como é que os seus pais, que já pertenceram à estrutura da Igreja, receberam o seu livro?

A minha mãe morreu há muitos anos, o meu pai gostou. Não conhecia grande parte dos factos, o que, pelo percurso dele, me surpreendeu. Ele foi um monge beneditino - uma ordem mais liberal, com muita educação, que circulava livremente.

Ainda é católico?

Não, deixou de acreditar de todo. 

Escrever um livro deste género deve ser duplamente difícil - primeiro por causa das falta de fontes; e por outro lado há a supremacia milenar da Igreja. Sentiu estas dificuldades, recebeu alguma crítica mais dura?

Não fico chateada com as críticas - faz parte. As críticas tornam os autores melhores. Mas sim, quem me dera que houvesse mais fontes! Quando lemos sobre o império romano desde 100 a.C. até por volta de 180 d.C. há tanta coisa. Depois chegamos a este ponto e é um vazio, foi quase tudo perdido.

No livro cita, por exemplo, São Crisóstomo, que deixou escritos a gabar-se de que todos os manuscritos dos filósofos gregos tinham sido apagados - e que isso hoje é uma fonte para o que aconteceu.

E Santo Agostinho também, o que é deveras chocante. Eles genuinamente odiavam os filósofos, especialmente os tais que defendiam que éramos feitos de átomos. A filosofia pagã era uma ameaça real porque descrevia a mensagem cristã como lixo, pelo que eles ficaram encantados quando foi destruída.

Se parar para pensar num monge hoje, a primeira imagem que vem à sua cabeça é a de um guardião do conhecimento ou a de alguém que o apagou?

Essa é uma boa questão. Posso responder os dois? Acho que são os dois, duas faces - uma que preservou, a outra, a dos palimpsestos [manuscritos medievais reescritos].

Consegue imaginar um mundo sem estes acontecimentos, onde pensa que a humanidade estaria, por exemplo, no campo científico?

Sempre me perguntei isso. Por um lado é impossível não pensar que estaríamos mais desenvolvidos cientificamente. Por outro, quem sabe se não destruiríamos o mundo três séculos mais cedo com as alterações climáticas? (risos). Se pensarmos em todas as pessoas que passaram tantas e tantas horas a estudar e a dedicar-se à teologia cristã e, intelectualmente, o que teriam feito se não tivesse havido este domínio de pensamento...

Foi difícil encontrar um equilíbrio entre o rigor dos factos e uma escrita que fosse apelativa ao leitor?

Acho que devia aos leitores a civilidade de não escrever um livro chato. E também há outra coisa: há uma forma covarde de escrever História que é a seguinte: no ano 200 a.C., aconteceu isto, no ano 50 d.C. aconteceu aquilo e por aí fora. E isto parece absolutamente verídico, indiscutível. Mas 200 a.C. nunca se chamou assim - tudo o que se escreve na História foi fabricado através de um ponto de vista tardio, muito posterior ao próprio acontecimento. O que quero dizer é que tentei ligar os factos de uma maneira legível. É preciso falar dos sentidos e não apenas de uma lista seca de datas. Foi isso que tentei fazer e trabalhei muito para encontrar dados para isso. Quão escuro era um templo, quantas luzes tinha, a que cheirava... E de repente esse mundo torna-se vivo.

E como preencheu esses espaços em branco, usando a sua imaginação?

Não - em cada descrição concreta que faço, tenho uma nota de rodapé a explicar de onde veio. Cada vez que digo que em sítio x cheirava assim, usei uma fonte. Por exemplo, descrevo que em Alexandria havia brisas refrescantes e há duas fontes que dizem que a cidade foi especificamente construída para as proporcionar aos habitantes, e quando digo que a cidade era de um branco ofuscante não são palavras minhas, são de um historiador da época que a descreveu assim. Veio tudo de fontes históricas.

Qual foi o monumento ou o bem destruído que mais a chocou?

A grande biblioteca de Alexandria. Foi uma dupla destruição. Quando um bispo mandou destruir o lindo templo de Serápis, o que restava da biblioteca - que se guardava dentro do templo - foi atrás. 

Se entrasse numa máquina do tempo, seria a biblioteca de Alexandria o local que gostaria de visitar?

Definitivamente. Eles tinham a ambição de colecionar todos os livros, escritos em qualquer parte do mundo, que traduziam e guardavam. Foi a primeira a ter uma tradução em grego do Antigo Testamento: estavam abertos a todo o tipo de conhecimento, queriam perceber tudo. E, a partir daí, só se passaram a guardar os livros que não perturbassem as mentes cristãs.

Encontrou cristãos que, à época, estavam preocupados com a destruição do património?

Sim, em Espanha, por exemplo, foi descrito que os ornamentos das cidades romanas estavam a ser destruídos e que isso tinha que parar porque as cidades começavam a parecer pilhadas, e foram os próprios cristãos que o disseram. Nesses casos, em vez de destruírem os templos removeram as estátuas dos velhos deuses e encheram-nas de cruzes.

Que mensagem gostaria que as pessoas retirassem do seu livro?

Somos muito críticos de outras religiões, vemos hoje a violência religiosa e parece-nos chocante, mas esquecemo-nos de que a Europa, a par dos ensinamentos de amor cristãos, também foi fundada com violência, repressão. Gostava de lembrar as pessoas de que os romanos eram muito mais liberais do que pensamos hoje em dia. E que antes do monoteísmo havia o pluralismo, que hoje é visto quase como uma desordem moderna. Antes de o cristianismo dizer que havia apenas um caminho, havia pessoas que diziam continuamente: “Mas o que importa? Vivemos todos os dias com o mesmo céu”.

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