24/9/18
 
 
Mário Cordeiro 05/06/2018
Mário Cordeiro

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Princesises...

O spot publicitário tão duramente atacado revela uma verdade que, infelizmente, as feministas radicais põem em segundo plano, e como antigo diretor do Observatório Nacional de Saúde, corresponsável pelo Inquérito Nacional de Saúde, pude analisar bem o aumento incrível do número de mulheres com hábitos tabágicos pronunciados, paralelamente a um decréscimo nos homens

Devo estar a ficar velho… ou, dito de outra forma, estou logicamente a envelhecer, mas refiro-me a “velho” no sentido de não entender e ter pouca paciência para certas polémicas e gastos de energia com “politicamente corretos” e excessos de zelo. Nunca fui fã de polícias de costumes ou vigilantes da moral, e creio que algumas mulheres, e no geral algumas pessoas, estão a perder a noção quer das prioridades, quer da razoabilidade.

Em primeiro lugar, quando se escreve hoje um artigo ou uma coluna de um jornal, como esta, há que gastar metade dos carateres com disclaimers, afirmando que não se é misógino, que há mais de 30 anos que se defende os direitos das mulheres, que sempre se defendeu a igualdade de género (não só em bate-bocas, mas em artigos escritos) e os direitos das crianças, e dos animais, e mais a paridade, e mais isto e aquilo, e ainda é preciso dizer que não se pertenceu à Inquisição nem se matou judeus, mas também, logo a seguir, ter-se-á de condenar a política israelita, e ao horrorizarmo-nos com Auschwitz temos de escrever que a Merkel nada tem a ver com isso, mas indo por aí, já nos acusarão de estarmos feitos com as políticas austeritárias que beneficiam o Bundesbank ou outra coisa qualquer, ufa! Algo de orwelliano se está a passar no reino da Dinamarca.

Vem isto a propósito do spot publicitário do Ministério da Saúde e do imediato “saltar” das defensoras dos costumes. Haja Deus! Muita vigilância faz esta gente… não terão outras coisas com que se entreter? Desde misógina a monárquica, a campanha já mereceu todos os epítetos. Curiosamente, nunca vi as referidas polícias de costumes insurgirem-se contra o facto de as apresentadoras da Eurovisão serem todas do sexo feminino. Então e a paridade? Ou de muitos anúncios usarem as mulheres para atraírem clientes – por alguma razão não são feias nem gordas, tal e qual as modelos ou as atrizes mais consagradas... ou as apresentadoras de televisão. Nunca vi rebelarem-se contra os atentados aos direitos das crianças por decisões judiciais iníquas que excluem os homens do contacto com as crianças ou da manipulação que é feita por algumas mulheres relativamente aos filhos. Vejo muitos homens – como eu, antes de algumas delas terem sequer nascido – ao lado das mulheres na defesa da igualdade de direitos de género e a revoltarem-se contra a estigmatização das mulheres; já o contrário não é tão verdade. Elas calam-se e apontam o dedo a esses machistas empedernidos que não as deixavam viajar e que até podiam receber o seu ordenado… mas eu (e os outros) não fomos nem somos desses… e, repito, nem matei judeus na Inquisição.

O spot publicitário tão duramente atacado revela uma verdade que, infelizmente, as feministas radicais põem em segundo plano, e como antigo diretor do Observatório Nacional de Saúde, corresponsável pelo Inquérito Nacional de Saúde, pude analisar bem o aumento incrível do número de mulheres com hábitos tabágicos pronunciados, paralelamente a um decréscimo nos homens. Sim, mulheres, designadamente em idade fértil. Muitas delas fumam ao lado das crianças, no automóvel, em casa. Isso não parece incomodar estas donas.

Por outro lado, os estudos mostram que, com uma mãe fumadora em casa, a probabilidade de uma criança vir a fumar é significativamente superior – como é lógico e não há nenhum mistério nisso –, já para não falar no fumo passivo, uma realidade que é escusado desmentir, porque mais do que provada. Alguma falou nisso? Devo ter andado distraído…

As e os guardiões da corte, afinal, ofenderam-se com o termo “princesa”… porque estamos numa república. Credo! Por essa ordem de razões, vou deixar de chamar “bicho” aos meus clientes pequeninos, como amiúde faço, não vá alguma pessoa pensar que os estou a minimizar ou que voltei ao tempo em que os animais falavam.

Creio que um facto é iniludível e não vi isso referido “nem por rapazes nem por capazes”: as mulheres estão a fumar cada vez mais, sobretudo as mulheres até aos 45 anos, e isso é extremamente grave do ponto de vista social, sociológico e de saúde. Como médico, cidadão e pai, não consigo ficar indiferente perante um problema desta natureza.

Podemos debater se este tipo de spots, como as imagens chocantes dos maços de tabaco, têm impacte positivo ou não, se são eficazes e eficientes, se causam desdém e habituação ou, pelo contrário, impressionam e são fatores de mudança. Creio, no entanto, que as autoridades que os fazem não andam propriamente a dormir. Todavia, repito, é legítimo questionar este assunto e considerar de bom ou mau gosto, adequado ou inadequado, feliz ou infeliz. Já colocar a tónica em misoginia, condenar o referir-se “princesa”, dizer que a mulher é explorada porque não aparece nenhum homem e outras afirmações no género é, desculpem a sinceridade, de uma indigência intelectual a toda a prova. O objetivo do spot era sensibilizar as mulheres, dado que ainda há uma associação muito grande, nas nossas cabeças, do tabaco com o sexo masculino. Curiosamente, muitas das pessoas críticas deste spot, por considerarem discriminação das mulheres, não se inibem de mostrar os corpos produzidos em revistas cor-de-rosa, e aí não exigem que ao lado delas esteja uma gorda, velha e feia para contrabalançar, nem quando desfilam em passadeiras vermelhas se ofendem com a exibição oportunista das curvas e contracurvas, das rachas nos vestidos até à crista ilíaca ou aquilo que, depois, dizem ser “a exploração da mulher-objeto”.

Haja bom senso! Pessoalmente, não acho que esta via, a de imagens-choque, seja de grande eficácia. Já quando, há 24 anos, gizámos a campanha do “cinto atrás, vida pela frente” optámos por usar meios indiretos de mostrar os efeitos de uma travagem brusca (uma cassete que saía disparada quando se carregava no “eject” do leitor, acompanhando o som de aceleração e travagem, e partia o vidro) em vez de imagens de corpos esfacelados e sangue a rodos. Essa é outra discussão. Agora, misoginia? Está na moda, não é? É como chamar fascista ou nazi a todo o cão e gato… Com estes deslumbramentos de quem acha ter a verdade na mão, muitas feministas fundamentalistas estão a desviar a atenção dos verdadeiros problemas: neste caso, o drama e o risco das fumadoras; noutros, o da desigualdade real de direitos entre géneros. Não sejam tão “princesinhas” e sejam mais princesas…

Pediatra

Escreve à terça-feira

 

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