21/11/18
 
 
António Cluny 05/06/2018
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

Cultivar a abertura cultural, contrariar, em todos os planos, os preconceitos que toldam a objetividade no relacionamento com os outros

A abertura à cultura dos outros, bem como a facilidade de comunicação que, além disso, assiste à maioria dos portugueses, acaba por constituir uma mais-valia inultrapassável de que, por vezes, nem nos damos conta

Por vezes damo-nos conta, espantados, de realidades que, de tão repetidas, acabámos por descurar e esquecer.

Vem-me esta reflexão simples a propósito da constatação recente da facilidade que nós, portugueses, temos de lidar com outras culturas e maneiras de estar na vida, designadamente se compararmos essa nossa característica com os comportamentos de outros povos europeus.

A História, queiramos ou não, marca indelevelmente a nossa atitude perante a vida, a nossa e a dos outros.

Ultimamente, coube-me organizar um encontro de magistrados latino-americanos numa instituição europeia.

Destinava-se esse encontro a procurar ilustrar e transmitir aos colegas do outro lado do Atlântico as virtualidades das organizações e redes europeias de cooperação judiciária e, se possível, entusiasmá-los a avançar na conceção e criação de estruturas semelhantes, adaptadas às características e necessidades dos seus países e zona do mundo.

Dadas as limitações existentes, não nos era possível contar com uma tradução simultânea que facilitasse a comunicação e a apresentação de comunicações em espanhol e português.

Rapidamente, porém, os portugueses envolvidos na referida iniciativa foram capazes de improvisar as apresentações a realizar no dito encontro, dizendo-as oralmente numa dessas línguas e transmitindo-as por escrito, nos powerpoint, na outra.

Assim se evitaram desentendimentos que a coexistência das duas línguas peninsulares por vezes ocasiona, designadamente quando os oradores se expressam numa delas, convencidos da capacidade dos auditórios para as entender bem a ambas.

Percebeu-se também que os intervenientes portugueses conheciam convenientemente os mais importantes sistemas judiciários dos países latino-americanos que haviam sido convidados e os textos doutrinais de muitos dos seus mais ilustres juristas.

Tal abertura à cultura dos outros, bem como a facilidade de comunicação que, além disso, assiste à maioria dos portugueses, acaba por constituir uma mais- -valia inultrapassável de que, por vezes, nem nos damos conta.

Nem sempre, porém, os portugueses que desenvolvem as suas atividades em organizações internacionais gostam de aproveitar as qualidades que os caracterizam como povo europeu, mas com uma cultura singular.

Movidos por um mimetismo complexado, preferem, frequentemente, representar o papel frio e distante, algo preconceituoso, que observam em pessoas de países que não puderam desfrutar do privilégio de viajar e estabelecer laços culturais e de amizade diversificados.

É essa a maneira errada de mostrarem um ferrenho europeísmo que, afinal, não beneficia a Europa, não beneficia Portugal nem os países com quem, em momentos diferentes, para o bem e para o mal, os portugueses estabeleceram efetivos laços culturais, que hoje só podem e só devem transformar-se em laços de amizade.

Tomarmos consciência das vantagens que realmente temos e, em vez de as escondermos, envergonhados, expandi--las para benefício do nosso país e de todos aqueles com quem contactámos duradouramente deve, pelo contrário, ser um desígnio que tem de ser estimulado, mesmo do ponto de vista institucional.

Se assim pensarmos e atuarmos, poderemos porventura contrariar os preconceitos que outros têm e que, infelizmente, começam também a ganhar forma entre nós.

São esses preconceitos mesquinhos que, em muitos casos e em planos distintos da vida e da nossa atividade, nos impedem de ter a objetividade necessária e a clareza de espírito para lidarmos com a nossa história e as marcas que ela, inevitavelmente, deixa no nosso presente.

Escreve à terça-feira

 

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