16/11/18
 
 
Alexandra Duarte 04/06/2018
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

Ganhou a vida, o amor e a solidariedade

A sociedade falha quando não apresenta outra alternativa aos que sofrem que não a morte. Somos seres isolados quando sofremos e, perante a dor, só nos resta desejar a morte

Escrevo estas linhas no dia em que prevaleceu a vida, a solidariedade e o amor sobre a morte e o sofrimento. Um momento inesperado para muitos de nós que vamos sucumbindo, dia a dia, ao silêncio esmagador de quem olha em redor e não consegue evitar a preocupação sobre o caminho que estamos a traçar para as gerações vindouras, em nome de liberdades alegóricas gritadas por militantes antitudo.

Um resultado, ainda que pequeno em número (cinco votos de diferença), com uma dimensão humana que devolve a esperança aos que acreditam em valores fundamentais como a vida, esse princípio de tudo o que somos e no qual assenta toda a construção da nossa sociedade como fonte da ordem normativa. Parte de mim já se tinha resignado perante a evidência de uma votação que uns descreviam como sinal de progresso e da evolução das liberdades individuais, enquanto outros teimavam em encontrar forças para encarar um retrocesso civilizacional, resultado de um falhanço redundante dos que se empenharam em transmitir o valor inalienável de um princípio inerente a todos nós.

A sociedade falha quando não apresenta outra alternativa aos que sofrem que não a morte. Somos seres isolados quando sofremos e, perante a dor, só nos resta desejar a morte. Não há grandeza no sofrimento nem este é a causa do reconhecimento da generosidade alheia quando não está mais ninguém por perto. Mas isto não significa que a mensagem que se transmita a quem está num momento de fragilidade seja empurrar essa pessoa para fora dos limites da dor, retirando-a compulsivamente deste mundo e da corrente onde tem o seu lugar. Todos estamos interligados numa cadeia invisível da qual fazemos parte e onde cada crime ou cada ato bondoso molda o nosso futuro e a forma como tudo se sucede. Prescindir de uma pessoa que seja nesta ordem equilibrada é sucumbir à insensibilidade, desvalorizando a humanidade e a importância de cada um de nós.

Este é um texto de agradecimento e de reconhecimento a todos os que não desistiram de acreditar e de, no momento certo, serem eles próprios modelos de resiliência e perseverança. Porque devemos agradecer quando nos fazem bem e quando fazem o bem. Sermos humildes, mesmo quando somos injustos só em pensamento, e julgamos antecipadamente os outros. Relevarmos as ações positivas e as intenções bondosas, em vez de ficarmos calados e só nos pronunciarmos para criticar.

Uma palavra de agradecimento a todos os que revelaram coragem para contrariar uma tendência funesta que nos condenaria a um fim irreversível, concedendo-nos mais tempo para debater e refletir sobre o final de vida na nossa sociedade e sobre o papel de todos nós nesse momento. Tempo para pensar como queremos tratar o próximo quando este já não tiver forças para continuar ou a dor for tão grande que se torne insuportável para uma só pessoa.

Quantos de nós já quisemos desistir, por uma razão ou por outra? Quantos de nós já nos sentimos tão destroçados e desorientados que nem o dia seguinte conseguíamos enfrentar? Quantos de nós já acompanharam e viveram com quem sofre e não desistiram de dar o seu afeto e o seu tempo? “Na saúde e na doença”, dizem… E quantos de nós recuperaram devido ao amor, ao cuidado, à vontade de quem não nos deixa partir, mesmo quando sentimos que já chegou a nossa hora? Por um que seja… mas são muitos mais.

Ganhámos mais tempo. Foi a verdadeira vitória daquela votação renhida e sofrida para ambos os lados. Porque muitos dos que votaram a favor fizeram--no com o coração. Também estes ganharam, ganharam tempo para tentar entender que há outras formas de cuidar de quem sofre e que juntos conseguimos encontrar outros meios sem “excluirmos” ninguém, porque todos fazem falta nesta corrente, todos nos acrescentam humanidade mesmo quando não é compreensível à primeira vista e tudo parece sofrimento.

Aos 115 deputados que votaram contra o principal projeto-lei agradeço a vossa disponibilidade e atenção para esta matéria e louvo a serenidade da postura que tiveram durante o período que antecedeu a votação em plenário. Não se desviaram do caminho da humanidade nem sucumbiram aos individualismos, tão frequentes nestas matérias fraturantes e mais apaixonadas do que racionais. Mostraram-nos que há um bem maior do que a dor de cada um e que estamos preparados para este novo desafio; que as respostas não podem nem devem ser as mais simples, como terminar com a vida, a tal que é sagrada e inviolável.

Aos deputados do PCP, aos deputados do CDS/PP, aos 82 deputados do PSD e aos dois deputados do PS, bem hajam!

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